Disparada dos fretes muda cenário para armadores em 2026

Tarifas subiram 60% desde fevereiro e aliviam pressão sobre margens, enquanto Maersk eleva projeções para o ano

Valeria Bursztein

Os armadores entraram em 2026 sob risco de operar no vermelho, mas uma alta de 60% nos fretes desde o fim de fevereiro mudou rapidamente essa perspectiva. Dados da Xeneta, plataforma de inteligência do mercado global de frete marítimo, mostram que a inversão ganhou força com as disrupções no Oriente Médio. A mudança nas condições de mercado já aparece nas projeções da Maersk, que mais que dobrou o piso de sua estimativa de Ebitda para o ano.

A cesta de fretes acompanhada pela consultoria atingiu em 27 de fevereiro o menor nível desde setembro de 2020. Desde então, avançou 60%, impulsionada pelos efeitos do conflito no Oriente Médio e das restrições no Estreito de Hormuz. Segundo a Xeneta, a mudança reduziu, ao menos temporariamente, a pressão sobre a rentabilidade que havia levado algumas companhias ao vermelho no quarto trimestre de 2025 e no início deste ano.

A mudança de cenário ocorre apesar de os fundamentos ainda apontarem para aumento da oferta. A Xeneta elevou de 3,6% para 4,3% sua projeção de crescimento da frota mundial de porta-contêineres neste ano, enquanto a demanda deve avançar 3,1%. A carteira global de encomendas atingiu o recorde de 13 milhões de TEUs, diante de uma frota ativa de 33,6 milhões de TEUs. Menos de 1% da capacidade está ociosa.

Maersk eleva projeções

No fim de junho, a Maersk elevou sua projeção de Ebitda para 2026 de uma faixa entre US$ 4,5 bilhões e US$ 7 bilhões para US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões, dando um dos primeiros sinais de que a mudança no mercado de fretes já começa a alterar as expectativas financeiras das companhias.

A revisão foi atribuída pela própria empresa à demanda mais forte no mercado de contêineres, particularmente no Extremo Oriente, e à elevação sustentada das tarifas spot. A projeção de Ebit operacional também mudou substancialmente: saiu de uma faixa entre prejuízo de US$ 1,5 bilhão e lucro de US$ 1 bilhão para resultado positivo entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões.

A virada é relevante porque, no primeiro trimestre, a Maersk ainda sentia o efeito das tarifas menores. O grupo registrou Ebitda de US$ 1,8 bilhão e Ebit de US$ 340 milhões, com o crescimento dos volumes compensando parcialmente a pressão sobre os fretes marítimos.

Hapag-Lloyd ainda vinha no vermelho

Na Hapag-Lloyd, os números disponíveis mostram justamente o cenário anterior à recuperação captada pela Xeneta. A companhia encerrou o primeiro trimestre com prejuízo líquido de US$ 256 milhões, ante lucro de US$ 469 milhões um ano antes. O Ebit passou de US$ 487 milhões positivos para US$ 157 milhões negativos.

No transporte marítimo, a tarifa média caiu de US$ 1.471 para US$ 1.330 por TEU, enquanto o Ebit ficou negativo em US$ 174 milhões. A própria empresa classificou o desempenho do trimestre como insatisfatório e apontou tarifas menores e disrupções operacionais entre as causas.

A fotografia pode mudar no segundo trimestre, justamente porque parte relevante da disparada dos fretes ocorreu depois de fevereiro. A Hapag-Lloyd divulgará seus resultados semestrais em 13 de agosto.

CMA CGM sente queda das tarifas

A CMA CGM também mostrou deterioração no início do ano, embora tenha permanecido lucrativa operacionalmente no transporte marítimo. O Ebitda da atividade caiu de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,5 bilhão no primeiro trimestre, enquanto a margem recuou 10,3 pontos percentuais, para 18,6%.

O grupo transportou 5,9 milhões de TEUs, alta de 1,5%, mas a receita marítima caiu 8,5%, para US$ 8 bilhões. A receita média por TEU recuou 9,8%, para US$ 1.351. A companhia, porém, já registrava recuperação das tarifas spot no fim do trimestre.

Recuperação ainda depende da geopolítica

Os dados indicam uma mudança de direção, mas ainda não permitem falar em recuperação generalizada dos lucros dos armadores. Os resultados disponíveis do primeiro trimestre refletem majoritariamente o período de tarifas deprimidas, enquanto parte relevante da alta dos fretes ocorreu posteriormente. Os próximos balanços deverão mostrar com maior clareza quanto dessa recuperação chegou efetivamente às margens das companhias.

A Xeneta alerta, por sua vez, que a melhora ocorre apesar de fundamentos menos favoráveis, com a expansão da frota superando o crescimento da demanda. A consultoria avalia que os armadores devem buscar aproveitar o atual ambiente de maior rentabilidade ao longo do restante de 2026, sustentado pelas disrupções geopolíticas.

Esse equilíbrio, no entanto, permanece vulnerável. Se as disrupções diminuírem e a capacidade hoje absorvida pelos desvios de rota voltar ao mercado, o aumento da oferta de navios poderá recolocar pressão baixista sobre os fretes — justamente o cenário que a Xeneta projetava antes da escalada das tensões geopolíticas.

Esta seria minha versão final para publicação. O último parágrafo, sobretudo, fecha bem o raciocínio sem repetir números: o mercado melhorou para os armadores, mas a melhora está apoiada em um fator extraordinário, enquanto os fundamentos de oferta e demanda continuam apontando na direção oposta.

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