DeepWay anuncia entrada no Brasil e prevê fábrica em SC até 2030

Fabricante chinesa de caminhões elétricos inicia operação comercial no País em novembro, com importação de 100 unidades do Starway 6×4

Aline Feltrin, Hannover, Alemanha,

A chinesa DeepWay Technology prepara a entrada oficial no mercado brasileiro de caminhões elétricos. Em entrevista exclusiva à Agência Transporte Moderno, Guan Wang, diretor da DeepWay para a América do Sul, confirmou que a empresa começa a operação comercial no Brasil em 1º de novembro de 2026.

Além disso, a companhia já definiu uma estratégia de localização progressiva. Primeiro, importará os veículos diretamente da China. Depois, pretende avançar para a montagem em sistema SKD e, finalmente, para a produção em CKD no Brasil. Segundo Wang, o plano contempla investimentos de aproximadamente R$ 100 milhões entre 2027 e 2030, incluindo importação, estrutura de distribuição, rede de atendimento e a futura fábrica.

Criada em 2020 a partir de uma associação entre Baidu e Lionbridge, a DeepWay desenvolve caminhões elétricos com foco também em tecnologias de assistência à condução e automação. A fabricante iniciou a expansão internacional nos últimos anos e atualmente ganha terreno na Europa e em outros mercados.

Guan Wang, diretor da DeepWay / Foto: OTM Editora

Primeiro passo será a importação

Inicialmente, a DeepWay vai trazer da China o Starway 6×4, caminhão totalmente elétrico com potência na faixa de 600 cv, segundo Wang. O modelo será o primeiro produto da marca destinado ao mercado brasileiro. “Daremos início ao negócio em 2026 e as entregas começam em janeiro de 2027”, afirmou o executivo.

Embora a operação comercial tenha início em novembro, a empresa planeja trazer duas a quatro unidades para demonstração e testes antes das primeiras entregas. Simultaneamente, a DeepWay trabalha com um primeiro lote comercial de aproximadamente 100 caminhões.

A fabricante mantém conversas com potenciais clientes no Brasil, entre eles empresas dos setores de transporte e logística, principalmente no Estado de São Paulo. Wang evitou antecipar nomes, mas confirmou que o Mercado Livre está entre as companhias procuradas. Até o momento, porém, as tratativas não resultaram em contrato.

Meta é vender 300 caminhões no primeiro ano

Além dos veículos, a DeepWay trabalha na construção de uma estrutura comercial própria. O plano é começar a estruturar a rede de atendimento pelo Sudeste e Sul e, posteriormente, avançar para outras regiões, incluindo o Nordeste. A meta é chegar a aproximadamente dez pontos de atendimento no primeiro ano de operação.

A fabricante projeta uma expansão gradual da operação brasileira. A abertura de concessionárias será uma das frentes desse movimento, que, segundo Wang, deverá resultar em uma estrutura com cobertura nacional nos próximos cinco anos.

Para 2027, a companhia trabalha com uma projeção de 300 caminhões vendidos no primeiro ano completo de operação. A empresa também planeja participar da Fenatran como visitante e utilizar o período da feira para prospectar clientes e apresentar a estratégia de entrada no mercado brasileiro.

Fábrica em Santa Catarina

Paralelamente à importação, a DeepWay já conversa com autoridades de Santa Catarina para avaliar a instalação de uma unidade industrial. Wang não revelou a localização nem detalhes das negociações, mas confirmou que a empresa já mantém conversas com o governo local.

A estratégia industrial seguirá três etapas: Entre 2027 e 2028, a operação deve operar predominantemente com veículos importados; entre 2029 e 2030, a companhia deve avançar para a montagem em SKD; e, na etapa seguinte, o objetivo é chegar ao sistema CKD, com aumento gradual da nacionalização conforme as exigências do PPB (Processo Produtivo Básico). Nesse cenário, os R$ 100 milhões previstos para o período de 2027 a 2030 contemplam justamente a construção dessa estrutura.

Brasil como plataforma regional

A escolha do Brasil não ocorre apenas pelo tamanho do mercado de caminhões. Segundo Wang, a disponibilidade de energia renovável também pesa na estratégia da DeepWay. “O Brasil é um mercado muito importante para a DeepWay”, afirmou.

Além do mercado doméstico, a companhia avalia a possibilidade de utilizar o Brasil como uma futura base para atender outros países da América do Sul.

A lógica também está relacionada à matriz energética brasileira. Para a DeepWay, a disponibilidade de energia de fontes renováveis pode favorecer o desenvolvimento de soluções elétricas e reduzir custos associados à operação e à recarga dos caminhões.

A fabricante também acompanha a evolução das relações comerciais do Brasil com outros mercados. Por isso, a futura produção local poderá ganhar importância não apenas para abastecer transportadores brasileiros, mas também como plataforma regional.

Caminhão chega com foco em tecnologia

O Starway 6×4 escolhido para o Brasil aposta em uma arquitetura diferente da tradicional oferta de caminhões pesados no País. Embora tenha cabine avançada, o modelo apresentado pela DeepWay possui características de projeto voltadas à aerodinâmica, eficiência energética e conforto do motorista. A marca também aposta fortemente em recursos eletrônicos e sistemas de assistência à condução.

A versão destinada ao mercado brasileiro terá tecnologia de condução semiautônoma. Wang explica que o sistema atualmente trabalha em nível L2, no qual o motorista continua presente e responsável pela condução, embora o veículo possa executar determinadas funções automaticamente.

A DeepWay já divulga globalmente tecnologias de assistência à condução e sistemas próprios de gerenciamento de energia. A empresa informa que seus caminhões incorporam recursos como controle preditivo de velocidade, gerenciamento inteligente de energia e sistemas de segurança ativa.

Na Europa, a versão Star apresentada na IAA 2026 utiliza baterias LFP e oferece configuração 6×4 com bateria de 600 kWh e potência máxima de 540 kW, de acordo com informações divulgadas durante o salão.

Preço pode chegar a R$ 2 milhões

A tecnologia, porém, terá impacto direto no preço. Segundo Wang, a estimativa inicial coloca o caminhão na faixa de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões, dependendo da configuração e dos equipamentos.

O posicionamento coloca o Starway no segmento de maior valor agregado do transporte rodoviário brasileiro e mostra que a DeepWay planeja competir não apenas pelo custo de aquisição, mas também pela combinação entre eletrificação, eficiência energética e tecnologia embarcada.

A estratégia, portanto, vai além de simplesmente trazer um caminhão elétrico chinês para o País.

Do caminhão importado à produção local

A DeepWay chega ao Brasil enquanto o mercado de veículos pesados amplia as apostas em eletrificação, novas fontes de energia e tecnologias de automação. A fabricante chinesa pretende se inserir nesse processo com uma estratégia de longo prazo, que prevê a expansão gradual da operação no País.

O cronograma anunciado por Wang deixa clara essa intenção. A marca começa com veículos importados, amplia a estrutura comercial, passa para SKD e, posteriormente, pretende produzir em CKD.

Assim, a chegada do Starway em novembro representa apenas a primeira etapa de um projeto maior. Se o planejamento avançar conforme o previsto, a DeepWay poderá chegar ao fim da década não apenas como importadora de caminhões elétricos, mas como fabricante instalada no Brasil e com capacidade de atender também outros mercados da região.

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