Quem é o caminhoneiro brasileiro hoje?

No Dia Nacional do Caminhoneiro, dados mostram uma categoria ainda predominantemente masculina, com maior escolaridade, mas que enfrenta o desafio de atrair uma nova geração para as estradas

Valeria Bursztein

O caminhoneiro brasileiro está mudando — e encontrando cada vez menos sucessores. Em uma década, o número de pessoas habilitadas nas categorias profissionais que permitem conduzir caminhões caiu de cerca de 5,6 milhões para 4,4 milhões, enquanto aumentou a concentração nas faixas etárias mais elevadas. Em 2026, 60% desses condutores têm mais de 51 anos. Na outra ponta, apenas 4% estão entre 18 e 30 anos.

O retrato ganha relevância nesta quarta-feira, 16 de setembro, quando é celebrado o Dia Nacional do Caminhoneiro. A data foi instituída pela Lei 11.927, de 2009.

Os números ajudam a dimensionar uma transformação que começa a pressionar o transporte rodoviário de cargas: há menos pessoas habilitadas para assumir o volante e a renovação geracional não ocorre na mesma velocidade do envelhecimento da base.

Levantamento do ILOS, elaborado a partir de dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), mostra que o contingente de habilitados nas categorias C, D e E recuou 21% entre 2015 e 2026, de 5,6 milhões para 4,4 milhões.

A participação dos condutores com mais de 51 anos passou de 48% para 60%. Entre aqueles de 31 a 40 anos, caiu de 16% para 13%; na faixa de 41 a 50 anos, de 31% para 23%. Entre os mais jovens, de 18 a 30 anos, a fatia diminuiu de 6% para apenas 4%.

Os dados da Senatran, no entanto, não significam que existam 4,4 milhões de caminhoneiros trabalhando no País. As categorias C, D e E permitem conduzir diferentes tipos de veículos e incluem pessoas que não exercem a atividade profissionalmente. O indicador funciona, sobretudo, como uma medida do universo potencial de condutores e de sua evolução ao longo do tempo.

Quase 99% dos empregados são homens

Quando o recorte se restringe aos motoristas de caminhão com vínculo formal, o perfil aparece com mais precisão. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (Antt), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o Brasil tinha 713.229 motoristas de caminhão empregados formalmente em 2024.

Desse total, 705.662, ou 98,9%, eram homens. As mulheres somavam apenas 7.567 profissionais, equivalentes a 1,06% dos vínculos. A idade média era de 43,5 anos entre os homens e 41,3 anos entre as mulheres.

O nível de escolaridade também ajuda a atualizar a imagem da profissão. Cerca de 68% dos motoristas formais — 483,4 mil profissionais — tinham ensino médio completo. Outros 140,4 mil possuíam ensino fundamental completo e 82,3 mil, fundamental incompleto. Apenas 5.957 tinham ensino superior completo.

Entre os mais jovens, a escolaridade é ainda maior. Dados da Antt mostram que 80% dos motoristas de 18 a 29 anos têm ensino médio completo, percentual que cai para 58% entre aqueles de 50 a 59 anos.

O perfil formal também está fortemente concentrado no Sul e Sudeste. São Paulo reunia sozinho 195,3 mil motoristas em 2024, ou 27,4% do total nacional. Minas Gerais respondia por 11,5%, Paraná por 10,6%, Santa Catarina por 8,4% e Rio Grande do Sul por 7%. Juntos, os cinco estados concentravam quase 65% dos vínculos formais.

Remuneração mediana: R$ 3,1 mil

Em 2024, a remuneração mediana mensal dos motoristas formais foi de R$ 3.120, alta de 6,3% em relação aos R$ 2.936 registrados no ano anterior. O salário mediano, que considera o valor fixo pago pelo empregador, passou de R$ 2.415 para R$ 2.564.

A diferença ocorre porque a remuneração incorpora adicionais e benefícios relacionados à atividade. A própria Antt ressalva que os dados podem não incluir a totalidade dos valores recebidos com diárias e pernoites.

A distância entre os extremos é significativa. Um quarto dos profissionais recebia até R$ 2.562 mensais, enquanto 25% ganhavam mais de R$ 4.020. Os 10% mais bem remunerados superavam R$ 5.136.

O tamanho da empresa também pesa. Nas transportadoras com mil veículos ou mais, a remuneração mediana chegava a R$ 4.246, ante R$ 2.969 nas empresas com até 50 veículos — diferença de 43%. Motoristas com dez anos ou mais na mesma companhia recebiam cerca de 18% mais que os recém-contratados.

Do empregado ao dono do próprio caminhão

O motorista contratado, porém, representa apenas uma parte do transporte rodoviário brasileiro. Fora desse universo está um contingente expressivo de transportadores autônomos, para os quais dirigir é apenas uma parte do negócio.

Em dezembro de 2025, o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) contabilizava 769.253 Transportadores Autônomos de Cargas (TACs). Havia ainda 280.036 Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas (ETCs) e 516 cooperativas registradas.

Para o autônomo, a rotina combina a condução do veículo com a administração da própria operação. É ele quem precisa colocar na conta combustível, pneus, manutenção, pedágios, seguro, financiamento e períodos em que o caminhão permanece parado.

Por isso, salário de motorista contratado e faturamento ou renda do transportador autônomo não podem ser comparados diretamente. No primeiro caso, trata-se de remuneração pelo trabalho; no segundo, a receita da operação precisa financiar também os custos do veículo e da atividade.

Uma categoria mais jovem do que em outros mercados

O envelhecimento exige outra distinção. Embora a base total de habilitados nas categorias C, D e E esteja envelhecendo, os motoristas brasileiros com vínculo formal ainda apresentam uma estrutura etária mais jovem do que a observada em importantes mercados internacionais.

Segundo levantamento da Antt, 14% dos motoristas de caminhão empregados no Brasil têm mais de 55 anos. A participação chega a 20% na Argentina, 26% no México, 29% nos Estados Unidos, 36% na Europa e 47% na Austrália.

Os dois movimentos não são contraditórios. Um mostra o perfil daqueles que estão empregados formalmente como motoristas; o outro acompanha o conjunto de pessoas habilitadas a dirigir veículos pesados. É justamente a redução e o envelhecimento dessa base potencial que acendem o alerta para o futuro.

Menos gente chegando ao volante

O problema aparece com maior nitidez quando se observa a entrada das novas gerações. Seis em cada dez habilitados nas categorias C, D e E têm hoje mais de 51 anos, enquanto apenas quatro em cada 100 estão entre 18 e 30 anos. Há uma década, os mais jovens representavam 6%.

A queda não começou agora. Série histórica baseada em dados da Senatran mostra que o Brasil chegou a ter 5,6 milhões de habilitados para veículos pesados em 2015. O contingente caiu para 5,2 milhões em 2017, 4,6 milhões em 2019 e 4,4 milhões em 2021, patamar em torno do qual permaneceu nos anos seguintes.

No mercado formal, por outro lado, ainda há criação líquida de vagas, embora em ritmo menor. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o saldo entre admissões e desligamentos foi positivo em 14,4 mil motoristas. Nos 12 meses anteriores, havia sido de 26,9 mil. A desaceleração foi de 46,5%.

É nesse cruzamento que aparece um dos principais desafios do transporte rodoviário de cargas brasileiro: a atividade continua demandando profissionais, mas a população potencialmente disponível para assumir esses postos não cresce na mesma direção.

Quem vai dirigir os caminhões amanhã?

Neste Dia Nacional do Caminhoneiro, o retrato que emerge dos números é diferente da imagem tradicional associada à profissão. O motorista formal tem, em média, pouco mais de 40 anos, majoritariamente concluiu o ensino médio e trabalha em um mercado no qual a remuneração varia fortemente de acordo com porte da empresa, experiência e tipo de operação.

Ao lado dele está uma extensa base de transportadores autônomos, que acumulam as funções de motorista e gestor da própria operação.

O maior sinal de mudança, entretanto, aparece fora da cabine: está diminuindo a população habilitada a chegar até ela. Em dez anos, o País perdeu cerca de 1,2 milhão de habilitados nas categorias C, D e E e viu crescer a participação dos condutores mais velhos, enquanto os jovens ocupam uma parcela cada vez menor desse universo.

A pergunta que começa a se impor ao transporte rodoviário de cargas, portanto, já não é apenas quem é o caminhoneiro brasileiro de hoje. É quem estará disposto a ocupar o seu lugar amanhã.

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