A Mercedes-Benz não descarta oferecer caminhões movidos a gás ou biometano no Brasil. A fabricante acompanha de perto a evolução desse mercado no país e na Argentina e poderá reagir caso a tecnologia ganhe escala. A afirmação é de Denis Güven, CEO da Mercedes-Benz Trucks para a região LAMEA, em conversa com a imprensa especializada durante a IAA Transportation 2026, em Hannover, na Alemanha.
“Estamos observando o gás muito de perto porque no Brasil existe algum movimento, na Argentina existe algum movimento e, em outros países, também. Se isso ficar maior, talvez nós reajamos. Mas, por enquanto, não podemos anunciar nada”, afirmou.
A possibilidade de uma nova oferta não significaria uma estreia da Mercedes-Benz no segmento. A marca já teve experiência com caminhões movidos a gás natural, especialmente na Europa, onde ofereceu versões do Econic equipadas com essa tecnologia. O modelo foi direcionado principalmente a aplicações urbanas, como coleta de resíduos e serviços municipais, nas quais o uso de combustíveis gasosos apresentava vantagens em termos de emissões e operação.
Agora, o eventual retorno ao segmento seria avaliado à luz das condições atuais de mercado, principalmente da disponibilidade de gás e biometano, da infraestrutura e do ganho de escala da tecnologia. A companhia, no entanto, mantém uma estratégia de eletrificação para aplicações em que os caminhões a bateria já conseguem atender às necessidades dos transportadores.
Os caminhões elétricos eActros da Mercedes-Benz atualmente disponíveis no Brasil têm autonomia na faixa de 300 a 400 quilômetros, dependendo da configuração e da aplicação. A estratégia é direcionar os veículos elétricos para operações nas quais autonomia, perfil de utilização e infraestrutura de recarga sejam compatíveis com as necessidades dos transportadores.
Para operações de maior distância, a empresa também trabalha com outras alternativas de redução de emissões, entre elas o biodiesel e, em um horizonte mais longo, o hidrogênio.
Hidrogênio fica para uma próxima década
O hidrogênio também integra a estratégia da Mercedes-Benz para o transporte pesado. Na avaliação de Güven, a tecnologia poderá chegar ao Brasil em aproximadamente dez anos, dependendo da evolução da infraestrutura e da demanda.
Na Europa, a Daimler Truck avança no desenvolvimento de uma nova geração de caminhões movidos a hidrogênio para operações de longa distância. A proposta permite maior flexibilidade nas viagens, inclusive possibilitando pernoites durante as operações.
Segundo a companhia, 100 unidades do NextGenH2, modelo equipado com célula de combustível, entrarão em operações reais com clientes na Alemanha a partir do fim deste ano. O primeiro cliente será a empresa de logística Dachser.
A empresa afirma que os caminhões com célula de combustível já acumularam quase 600 mil quilômetros em testes com clientes. A Daimler Truck pretende investir centenas de milhões de euros em caminhões movidos a hidrogênio até o fim da década. O interesse dos clientes também sustenta o projeto. Segundo a companhia, quase metade dos veículos previstos para a pequena série já foi alocada, apesar de a infraestrutura de abastecimento ainda ser limitada.
A estratégia combina o desenvolvimento dos veículos com a criação da infraestrutura necessária para sua operação. A Daimler Truck trabalha com empresas dos setores industrial e de energia para desenvolver um ecossistema de hidrogênio economicamente viável.
Biodiesel é solução imediata
Enquanto tecnologias como o hidrogênio ainda dependem de infraestrutura e escala, o biodiesel aparece como uma alternativa de aplicação mais imediata no Brasil. Güven citou um teste de aproximadamente 4 mil quilômetros, realizado de Norte a Sul do país, que comparou as emissões de um caminhão a diesel com as de um veículo abastecido com biodiesel.
Segundo o executivo, o estudo apontou redução de 99% nas emissões de CO₂ no conceito tank-to-wheel. Considerando toda a cadeia, no conceito well-to-wheel, a redução ficou entre 60% e 70%. Para Güven, essa é uma solução especialmente interessante para o Brasil porque permite reduzir emissões sem necessariamente substituir a frota.
“Você pode usar o caminhão que já tem e simplesmente abastecer com outro diesel. É uma maneira mais barata para o mercado brasileiro reduzir drasticamente o CO₂”, afirmou.
A Mercedes-Benz também já realizou testes com B100 em aplicações específicas no Brasil, incluindo operações ligadas ao agronegócio.
A estratégia da fabricante inclui ainda a evolução dos motores a combustão. O novo Powerliner, apresentado na Europa, representa uma nova etapa no desenvolvimento dos motores diesel da marca. A tecnologia busca combinar maior torque e melhor dirigibilidade com ganho de eficiência. Segundo a Mercedes-Benz, o novo conjunto pode proporcionar redução de até 4% no consumo de combustível.
A empresa ainda não confirma quando a nova geração do motor chegará ao Brasil. Segundo Güven, o propulsor será inicialmente produzido em Mannheim, na Alemanha, e a Mercedes-Benz precisa avaliar o momento adequado para investir na introdução da tecnologia no país.
*A jornalista viajou a convite da Mercedes-Benz
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