A greve dos trabalhadores dos Correios começou sem um balanço oficial sobre encomendas afetadas, agências fechadas ou percentual de adesão, mas já chegou à Justiça. O Tribunal Superior do Trabalho determinou que ao menos 80% do efetivo seja mantido em cada unidade nas áreas de atendimento, transporte e distribuição.
A paralisação foi iniciada às 22h de quinta-feira (10), após assembleias rejeitarem a proposta apresentada pela estatal para o acordo coletivo de trabalho. O movimento foi convocado por tempo indeterminado e ocorre em meio à tentativa dos Correios de reduzir despesas, reorganizar sua estrutura e obter novos recursos para financiar a operação.
As federações que representam os empregados classificam a greve como nacional. A Federação Interestadual dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras dos Correios (Findect) informou que 35 assembleias haviam aprovado o movimento. A Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios, Telégrafos e Similares (Fentect), por sua vez, afirma que todos os sindicatos filiados aderiram à paralisação.
Não há, entretanto, uma estimativa independente sobre a participação dos empregados. Os Correios também não divulgaram, até o momento, o volume de objetos represados ou a quantidade de unidades com funcionamento parcial.
Plano de saúde trava negociação
O principal impasse está relacionado ao futuro do plano de saúde dos empregados, aposentados e dependentes. A proposta dos Correios prevê a criação de uma comissão paritária, com prazo de 120 dias, para discutir alternativas de gestão e custeio do benefício.
Até que uma eventual mudança seja definida, seriam mantidas as condições atuais do CorreiosSaúde II. Os sindicatos argumentam, porém, que a proposta não garante a permanência da estatal como mantenedora do plano e abre caminho para alterações capazes de elevar a participação financeira dos trabalhadores.
A categoria também cobra o reajuste das funções exercidas pelos empregados, que ficou fora da proposta final.
No campo salarial, os Correios ofereceram a reposição integral do Índice Nacional de Preços ao Consumidor, de 4,35%, retroativa a 1º de agosto. A proposta também prevê novo reajuste pelo INPC em 2027 e a correção de benefícios como vale-refeição, vale-alimentação, vale-cesta e reembolso de creche.
Segundo a estatal, o texto preserva 78 das 80 cláusulas do acordo anterior e busca conciliar os direitos dos empregados com a recuperação financeira da companhia. A própria Findect reconheceu avanços na correção dos salários e benefícios, mas considerou insuficientes as garantias relacionadas ao plano de saúde.
Correios recorrem à Justiça
Depois da rejeição da proposta e do início da paralisação, os Correios ajuizaram dissídio coletivo de greve no TST. A estatal pediu o encerramento do movimento, enquanto as federações orientaram os trabalhadores a manter e ampliar a mobilização.
Em decisão liminar, a Justiça determinou a manutenção de 80% do efetivo em cada unidade, incluindo as atividades de atendimento ao público, tratamento das encomendas, transporte e distribuição. O julgamento do dissídio coletivo está previsto para 21 de setembro. Até lá, as partes ainda poderão chegar a um acordo.
Para reduzir os efeitos da greve, os Correios afirmam ter adotado medidas emergenciais, como remanejamento de empregados, mutirões e reorganização das equipes. A estatal também sustenta que as agências permanecem abertas e que os serviços continuam sendo prestados, mas não apresentou indicadores de desempenho referentes aos primeiros dias da paralisação.
Greve pressiona prazos de entrega
Embora as agências continuem recebendo postagens, o principal risco para a logística está na redução da capacidade de coleta, triagem, transporte entre centros operacionais e distribuição na última milha. Como essas etapas são interdependentes, a retenção de carga em um ponto pode gerar atrasos em outras regiões e formar um estoque de encomendas que continuará exigindo processamento mesmo depois do fim da greve.
A liminar que determina a manutenção de 80% do efetivo reduz a possibilidade de interrupção generalizada, mas não assegura o cumprimento dos prazos regulares. Antes da paralisação, os Correios informavam índice de 97% de entregas dentro do prazo em agosto, percentual superior a 98% em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais. A estatal ainda não divulgou um indicador equivalente para os primeiros dias de greve.
Os efeitos tendem a ser maiores entre pequenos vendedores do comércio eletrônico, que têm menor volume para negociar contratos competitivos com transportadoras privadas, e nos municípios onde há menos alternativas de entrega. Grandes varejistas e marketplaces contam, em geral, com redes próprias ou mais de um operador logístico, o que permite redirecionar parte dos pedidos.
Também podem ser afetadas operações de logística reversa, remessas internacionais, entrega de documentos e contratos de distribuição mantidos com órgãos públicos. A capilaridade aumenta a relevância do movimento. Em 2025, somente uma operação de atendimento a aposentados e pensionistas mobilizou 5.347 agências em todo o território nacional, segundo o Relatório da Administração da estatal.
Por enquanto, não é possível estimar o tamanho do represamento. A empresa não informou quantas encomendas deixaram de ser processadas, qual parcela da malha opera abaixo da capacidade nem se houve revisão dos prazos oferecidos aos clientes.
Pressão sobre o caixa
A greve ocorre em um momento de forte deterioração financeira. Os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,55 bilhões no primeiro semestre de 2026, resultado 30,4% superior à perda apurada no mesmo período de 2025.
Somente no segundo trimestre, o prejuízo chegou a R$ 2,39 bilhões. Apesar de representar uma redução em relação aos três primeiros meses do ano, o resultado manteve elevada a pressão sobre o caixa da estatal. No semestre, a receita operacional caiu 3,9%, para R$ 7,87 bilhões.
A companhia tenta obter um novo empréstimo de R$ 7 bilhões junto a bancos privados, com garantia do Tesouro Nacional. A operação integra o plano de reestruturação dos Correios e se soma a um financiamento de R$ 12 bilhões contratado anteriormente.
O pedido de crédito ocorre enquanto a empresa busca reduzir despesas com pessoal, rever o custeio do plano de saúde, vender imóveis e reorganizar sua rede de atendimento. Nesse cenário, a greve amplia o risco de perda de receita e de clientes para transportadoras privadas, especialmente no mercado de encomendas ligadas ao comércio eletrônico.
A extensão do impacto dependerá da adesão ao movimento, da capacidade da estatal de manter as operações com o efetivo determinado pela Justiça e do tempo necessário para que empresa e trabalhadores alcancem um acordo. Por enquanto, não há previsão para o encerramento da paralisação.
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