A previsão de colocar eVTOLs — aeronaves elétricas capazes de pousar e decolar verticalmente, sem a necessidade de pistas convencionais — em operação comercial no Brasil em 2028 abre uma corrida regulatória e de infraestrutura. Com esse horizonte, o país ainda precisa avançar na certificação das aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical, definir regras operacionais, estabelecer requisitos para vertiportos e estruturar sistemas de energia, segurança e integração ao controle do espaço aéreo.
A complexidade dessa agenda ficou mais clara nesta semana, durante reunião coordenada pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor). O encontro reuniu representantes da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC), Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e Eve Air Mobility, controlada pela Embraer e desenvolvedora de eVTOLs.
Segundo as projeções apresentadas pela empresa e pela Anac, as primeiras operações comerciais poderão ocorrer em 2028. O cronograma, no entanto, depende não apenas da certificação da aeronave, mas da construção de um ecossistema capaz de incorporá-la ao sistema de transporte aéreo.
Certificação é apenas uma etapa
A Anac trabalha na definição dos requisitos aplicáveis à certificação dos eVTOLs. Paralelamente, outras frentes precisam avançar para que as aeronaves possam transportar passageiros regularmente.
Uma delas é a infraestrutura. Os futuros vertiportos — instalações destinadas ao pouso, decolagem e atendimento dos eVTOLs — precisarão atender requisitos de segurança operacional, prevenção e combate a incêndios, fornecimento de energia, carregamento das aeronaves e telecomunicações.
Também será necessário definir como os eVTOLs serão incorporados ao espaço aéreo, especialmente em grandes centros urbanos, onde deverão compartilhar o ambiente de operação com helicópteros e outras aeronaves. A discussão ultrapassa, portanto, fabricantes e autoridades da aviação.
Em uma segunda etapa da reunião, o MPor reuniu representantes dos ministérios do Turismo, de Minas e Energia e da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da Anatel e da ANTT. Participaram, também, a Revo, empresa de mobilidade aérea que atua em São Paulo e é apontada como potencial operadora de eVTOLs, e a Hitachi Energy, que apresentou perspectivas para a infraestrutura energética e soluções de carregamento.
A presença de órgãos e empresas de diferentes áreas evidencia uma das particularidades da mobilidade aérea avançada: colocar a aeronave em voo é apenas parte do desafio. Para transformar a tecnologia em um serviço regular de transporte será necessário conectar aviação civil, controle do espaço aéreo, energia, telecomunicações, infraestrutura terrestre e operadores.
Eve avança nos testes
Enquanto a estrutura regulatória e operacional começa a tomar forma, o desenvolvimento da aeronave da Eve entrou na etapa de ensaios em voo. O protótipo em escala real realizou seu primeiro voo em dezembro de 2025 e, em abril deste ano, a companhia informou ter completado 50 voos de teste.
A empresa busca a certificação da Anac e trabalha também na validação da aeronave em outros mercados. O cumprimento dessas etapas será determinante para o cronograma comercial projetado para 2028.
A Eve reporta uma carteira potencial de cerca de 2,7 mil aeronaves, estimada em aproximadamente US$ 14 bilhões. Parte relevante desse volume, entretanto, corresponde a cartas de intenção e outros acordos não vinculantes. Ao final de 2025, a companhia informava ter 100 aeronaves cobertas por acordos vinculantes.
SP pode estar entre os primeiros mercados
São Paulo aparece como um dos mercados potenciais para as primeiras operações. Durante a reunião, a Eve apresentou uma simulação segundo a qual uma viagem entre a Zona Sul da capital e o Aeroporto Internacional de Guarulhos poderia ser realizada em cerca de 12 minutos por eVTOL, ante um deslocamento terrestre que pode levar de uma a duas horas, dependendo das condições do trânsito.
O tempo é uma projeção da fabricante e não corresponde ainda a uma operação comercial testada. Na prática, a duração e a configuração dos futuros serviços dependerão de fatores como localização dos vertiportos, rotas autorizadas, procedimentos operacionais e integração com outros meios de transporte.
A aeronave da Eve utiliza propulsão elétrica e, segundo a fabricante, foi projetada para operar com menor nível de ruído que os helicópteros convencionais. A companhia estima nível inferior a 60 decibéis durante o voo de cruzeiro.
A Eve projeta que mais de 30 mil eVTOLs poderão estar em operação no mundo até 2045. A concretização desse mercado, porém, dependerá tanto da evolução e certificação das aeronaves quanto da capacidade de governos, reguladores e empresas de preparar a infraestrutura necessária para operá-las.
No Brasil, a discussão agora iniciada entre diferentes órgãos mostra a extensão dessa tarefa. Para que 2028 deixe de ser apenas um horizonte comercial, certificação, regulação, espaço aéreo, energia e infraestrutura terão de avançar de forma coordenada nos próximos anos.
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