BNDES abre linha de R$ 8 bilhões para aliviar caixa das companhias aéreas

Crédito com juros de 4% ao ano chega em um momento de forte pressão sobre os custos do setor, após o querosene de aviação acumular alta de quase 50% e ameaçar margens das empresas

Aline Feltrin

As companhias aéreas brasileiras ganharam um reforço financeiro em um dos momentos mais delicados para sua estrutura de custos desde a pandemia. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou uma linha de crédito de até R$ 8 bilhões para capital de giro das empresas que operam voos domésticos no país, com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC).

Poderão acessar a linha a Azul, Gol, Latam Airlines Brasil e Ata Aerotáxi Abaeté, até dezembro de 2026. O financiamento terá juros fixos de 4% ao ano e prazo de até 60 meses, condições significativamente mais favoráveis que as disponíveis no mercado para operações de capital de giro.

A medida busca aliviar o caixa das companhias justamente quando o principal insumo da aviação voltou a pressionar as contas. A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o preço internacional do petróleo e aumentou o custo do querosene de aviação (QAV), combustível que representa uma das maiores despesas das empresas do setor.

Na prática, a linha não é destinada à compra de aeronaves ou expansão da frota, mas à preservação da liquidez das empresas. Em momentos de custos elevados, o capital de giro permite financiar operações do dia a dia, como pagamento de fornecedores, combustível, manutenção e folha salarial, reduzindo a necessidade de recorrer a empréstimos bancários mais caros.

Crédito chega após disparada do QAV

O anúncio ocorre poucos dias depois de um levantamento da plataforma de gestão financeira Qive mostrar a dimensão da pressão sobre os custos da aviação brasileira. Segundo o estudo, o preço do querosene de aviação acumulou alta de 49,8% entre 2024 e 2026, passando de R$ 5,66 para R$ 8,48 por litro.

Caso o consumo registrado em 2025 tivesse ocorrido aos preços atuais, o setor teria desembolsado aproximadamente R$ 7,8 bilhões adicionais apenas com combustível — praticamente o mesmo valor disponibilizado agora pelo BNDES.

O levantamento também identificou uma retração de 62,6% no volume de compras de querosene nos primeiros cinco meses do ano, indicando que empresas passaram a administrar estoques com maior cautela diante da volatilidade dos preços. A pressão decorre principalmente do aumento das tensões no Oriente Médio e do risco de interrupções no Estreito de Ormuz, por onde passa parte significativa da produção mundial de petróleo.

Empresas mantêm expansão apesar da pressão

Embora os custos tenham aumentado significativamente, a demanda por transporte aéreo continua crescendo no Brasil. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que 65,2 milhões de passageiros viajaram em voos comerciais no primeiro semestre de 2026, alta de 5,4% sobre o mesmo período do ano anterior.

Em junho, a oferta de assentos cresceu 3,3%, enquanto a demanda avançou apenas 0,2%, mantendo a taxa média de ocupação em 80,7%. O dado mais relevante, porém, é que as companhias ainda não conseguiram repassar integralmente a alta dos custos aos consumidores. A tarifa média doméstica ficou em R$ 660,54 por trecho, praticamente estável, com aumento de apenas 0,3% em relação ao ano passado.

Esse descompasso entre custos crescentes e preços praticamente congelados comprime as margens das empresas e aumenta a importância de fontes de financiamento mais baratas.

Segundo o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, os recursos buscam garantir a continuidade das operações das companhias, preservar empregos e evitar redução da malha aérea em um cenário de custos elevados.

O ministro de Portos e Aeroportos, Tomé França, afirmou que o financiamento contribui para a sustentabilidade financeira das empresas em um setor considerado estratégico para um país de dimensões continentais como o Brasil. Para Juliano Noman, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a medida reconhece a importância econômica da aviação, responsável por integrar regiões, impulsionar o turismo e gerar empregos.

Instrumento criado após a pandemia

O uso dos recursos do FNAC para financiar capital de giro foi autorizado pela Lei nº 14.978, de 2024, após os impactos financeiros deixados pela pandemia de Covid-19 sobre as companhias aéreas.

Posteriormente, a Medida Provisória nº 1.349, de abril de 2026, regulamentou a utilização dos recursos para enfrentar choques de custos operacionais, especialmente aqueles relacionados ao aumento dos combustíveis.

A nova linha representa um colchão financeiro importante para um setor que voltou a crescer em número de passageiros, mas enfrenta uma combinação desafiadora de custos elevados, tarifas praticamente estáveis e incertezas geopolíticas que continuam pressionando o mercado internacional de petróleo.

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