A cessão de uma área de 412,5 mil metros quadrados no Porto do Rio Grande abre caminho para a implantação de uma nova estrutura de exportação de celulose no Sul do país. Projetado para receber dois navios simultaneamente, o terminal poderá atingir capacidade de 9 milhões de toneladas por ano e será conectado por hidrovia à futura fábrica da CMPC em Barra do Ribeiro.
O contrato foi assinado na sexta-feira (11) e terá validade de 25 anos, com possibilidade de prorrogação por igual período. A área, anteriormente ocupada pela Queiroz Galvão, deverá receber investimento estimado em R$ 1,5 bilhão, segundo a Prefeitura do Rio Grande.
A CMPC é um grupo chileno de base florestal que produz celulose, papéis, embalagens e produtos de higiene. No Brasil desde 2009, a companhia já mantém uma fábrica de celulose em Guaíba (RS), com capacidade próxima de 2,4 milhões de toneladas anuais.
O novo terminal será desenvolvido pela CMPC e pela operadora portuária Neltume Ports, por meio da Terminal Rio Grande do Sul S.A. O empreendimento integra o Projeto Natureza, programa de aproximadamente R$ 27 bilhões que prevê uma fábrica de celulose, ampliação da base florestal e implantação da infraestrutura necessária ao escoamento da produção.
Dois terminais formarão corredor hidroviário
O desenho logístico prevê dois Terminais de Uso Privado (TUPs). O primeiro ficará junto à fábrica de Barra do Ribeiro e será utilizado para embarcar a celulose em barcaças. A carga seguirá pelos lagos Guaíba e dos Patos até o segundo terminal, no Porto do Rio Grande, onde será armazenada e transferida para navios de longo curso.
A operação deverá reduzir a necessidade de transporte rodoviário entre a fábrica e o porto marítimo. Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, a expansão da CMPC deverá gerar um fluxo superior a 4,3 milhões de toneladas de celulose por ano pelos dois terminais. Os investimentos nas estruturas de Barra do Ribeiro e Rio Grande foram estimados anteriormente em R$ 1,4 bilhão.
A nova fábrica terá capacidade para produzir 2,5 milhões de toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto. Somada à unidade de Guaíba, a capacidade instalada da CMPC no Rio Grande do Sul poderá chegar a aproximadamente 4,9 milhões de toneladas por ano.
A companhia já utiliza a hidrovia para transportar celulose entre Guaíba e Rio Grande. De acordo com a própria CMPC, suas operações respondiam por aproximadamente 44% do volume movimentado por esse modal no estado quando o Projeto Natureza foi apresentado, em 2024.
9 milhões de toneladas
O terminal de Rio Grande terá dois berços, poderá operar dois navios simultaneamente e contará com capacidade de armazenagem de aproximadamente 194 mil toneladas.
Na divulgação da licença prévia, a CMPC informou que a estrutura poderia movimentar até 5 milhões de toneladas por ano. O Ministério de Portos e Aeroportos, por sua vez, projetou capacidade de até 9 milhões de toneladas anuais a partir do 11º ano de operação.
A diferença indica uma expansão gradual da instalação, embora não tenham sido detalhados o cronograma intermediário nem os investimentos necessários para alcançar a capacidade máxima. Também não foi informado se o terminal poderá atender terceiros ou movimentar cargas provenientes de outras unidades da companhia.
Mesmo na configuração de 5 milhões de toneladas, a capacidade será o dobro da produção projetada para a fábrica de Barra do Ribeiro. O dimensionamento permite acomodar o fluxo conjunto das operações gaúchas da CMPC e oferece margem para futuros aumentos de produção.
A celulose já ocupa espaço relevante na pauta do Porto do Rio Grande. De acordo com informações do porto, até setembro de 2024, o complexo havia movimentado aproximadamente 2,8 milhões de toneladas do produto, crescimento de 6,3% na comparação anual. No mesmo período, as exportações pelo porto tiveram a China como principal destino.
Dragagem permitirá receber navios maiores
O projeto prevê o aprofundamento do calado nas proximidades do terminal, de 9,5 para 12,5 metros. O investimento na dragagem do canal de acesso foi estimado em R$ 140 milhões.
A intervenção poderá ampliar o porte dos navios atendidos e produzir efeitos além da operação de celulose. Com maior profundidade, o Porto do Rio Grande poderá ganhar capacidade para receber embarcações maiores empregadas também no transporte de grãos, fertilizantes e outras cargas.
Ainda segundo dados de Rio Grande, o complexo portuário concentra a maior parte da movimentação aquaviária do Rio Grande do Sul. Entre janeiro e maio de 2025, Rio Grande movimentou 16,1 milhões de toneladas, alta de 9,9% sobre o mesmo período do ano anterior. Os granéis sólidos responderam por 57,4% do total.
Projeto depende de novas licenças
O Terminal Rio Grande do Sul recebeu a licença prévia da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) em junho de 2026. Essa autorização reconhece a viabilidade ambiental e permite o avanço do projeto, mas ainda não libera o início das obras. A próxima etapa é a obtenção da licença de instalação.
A cessão formalizada em setembro também é diferente do contrato de adesão do TUP anunciado pelo governo federal em janeiro. O primeiro ato assegurou a autorização para exploração do terminal privado; o mais recente garantiu a utilização da área pertencente à União.
A previsão divulgada anteriormente era concluir o terminal em meados de 2029, cerca de dois meses antes do início das operações da fábrica de Barra do Ribeiro. O cronograma dependerá do avanço do licenciamento ambiental e da execução das obras portuárias e industriais.
A expectativa é que o terminal gere mais de 1,2 mil empregos durante sua implantação. Para o Projeto Natureza como um todo, o governo federal estima aproximadamente 12 mil postos de trabalho na fase de obras e 1,5 mil após a conclusão.
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