Do Torpedo ao Actros: 7 marcos da Mercedes-Benz no Brasil

Em 70 anos, a montadora ampliou a produção, passou a exportar caminhões e levou projetos da engenharia brasileira a outros mercados

Valeria Bursztein

A Mercedes-Benz completou 70 anos de produção no Brasil em 28 de setembro. A empresa iniciou suas atividades industriais em São Bernardo do Campo (SP), com um caminhão a diesel, e foi a segunda marca em emplacamentos de caminhões no País de janeiro a agosto de 2026. Foram 17.654 unidades licenciadas, ante 18.988 da Volkswagen Caminhões e Ônibus, segundo a Anfavea.

A importância da Mercedes-Benz para o Brasil vai além dos veículos que colocou nas estradas. A fábrica aberta em 1956 participou da formação da indústria nacional de veículos comerciais. Com o tempo, a operação ganhou escala, estruturou equipes de engenharia e passou a atender também mercados externos. Hoje, São Bernardo abriga a maior fábrica de montagem de caminhões Mercedes-Benz fora da Alemanha, segundo a Daimler Truck.

Valeria Bursztein Terreno destinado à construçã da fabrica da Mercedes-Benz em 1953, em São Bernardo do Campo (Foto: Divulgação / MB)

A operação brasileira reúne a montagem de caminhões em São Bernardo, a produção de cabinas em Juiz de Fora (MG) e o desenvolvimento de projetos utilizados em outros países. Essa estrutura ajuda a explicar como a unidade criada para abastecer o mercado nacional ganhou uma função mais ampla dentro da fabricante.

Negócio além do mercado brasileiro

A atuação da Mercedes-Benz no País não se limita à venda de veículos de série. Entre agosto de 2015 e outubro de 2024, a área de customização de São Bernardo adaptou mais de 15 mil caminhões para aplicações específicas. Cerca de 11,5 mil foram destinados ao mercado interno e 3,5 mil à exportação, segundo a montadora.

Mineração, transporte de madeira, construção e distribuição de bebidas estão entre as atividades atendidas. Esses números se referem apenas aos caminhões customizados, não ao total de veículos exportados pela empresa.

A engenharia também ganhou espaço nessa expansão. A cabina desenvolvida no Brasil para o Novo Actros foi adotada no Actros F oferecido pela Mercedes-Benz Trucks a clientes de 24 países europeus e de outros continentes. O exemplo mostra que a operação instalada no País passou a fornecer projetos, além de fabricar veículos.

Da estreia do motor a diesel à chegada de sistemas de assistência à condução, os sete marcos a seguir ajudam a explicar como a linha brasileira de caminhões evoluiu.

1. Torpedo inaugura a produção — 1956

A fábrica de São Bernardo do Campo foi inaugurada em 28 de setembro de 1956, na presença do então presidente Juscelino Kubitschek. Dela saiu o L 312, apelidado de Torpedo pelo formato do capô. Segundo a Mercedes-Benz, foi o primeiro caminhão produzido no Brasil com motor a diesel. A unidade também iniciou a fabricação do chassi de ônibus LP 312.

2. L 1113 ganha escala — 1970

O L 1113 tornou-se um dos modelos mais conhecidos da marca nas estradas brasileiras. Junto com o antecessor L 1111, somou 240 mil unidades, de acordo com a retrospectiva da fabricante. Décadas depois, em 2009, a Mercedes-Benz atingiu a marca de 1 milhão de caminhões vendidos no Brasil, considerando todos os modelos de sua linha.

3. Mercedinho amplia a linha — 1972

Com o L 608 D, conhecido como Mercedinho, a fabricante passou a oferecer um caminhão de menor porte. A Mercedes-Benz o identifica como o primeiro caminhão leve a diesel do País. O modelo ampliou as opções da marca para operações que não exigiam veículos da capacidade do L 1113.

4. Engenharia ganha um centro próprio — 1991

A inauguração do Centro de Desenvolvimento Tecnológico, em São Bernardo do Campo, reuniu equipes de projeto e testes de veículos comerciais. A estrutura fortaleceu o desenvolvimento local de caminhões, chassis de ônibus e componentes. Anos depois, a participação da equipe brasileira no projeto da cabina do Actros F mostraria o alcance internacional desse trabalho.

5. Juiz de Fora passa a produzir caminhões — 2012

Inaugurada em 1999 para fabricar automóveis, a planta de Juiz de Fora foi convertida para a produção de caminhões em 2012. Inicialmente, recebeu modelos das linhas Accelo e Actros. Atualmente, a unidade faz a soldagem e a pintura das cabinas utilizadas nos caminhões Mercedes-Benz produzidos no Brasil.

6. Montagem entra na era digital — 2018

A Mercedes-Benz inaugurou em São Bernardo uma linha de montagem de caminhões baseada nos conceitos da Indústria 4.0. O projeto reuniu a fabricação de modelos leves a pesados e a logística de peças em um novo prédio, com integração digital dos processos. No mesmo ano, a empresa abriu o campo de provas de Iracemápolis (SP), ampliando sua estrutura de testes de veículos comerciais.

7. Novo Actros leva mais tecnologia à estrada — 2019

Apresentado em 2019 e entregue a clientes a partir de 2020, o Novo Actros trouxe painéis digitais, conectividade e sistemas de assistência à condução para a linha de extrapesados. Entre os recursos estão frenagem ativa, monitoramento de ponto cego e controle eletrônico de estabilidade. A mudança ampliou as ferramentas disponíveis ao motorista e ao gestor da frota para acompanhar o veículo e prevenir acidentes.

Para os próximos 70 anos, a Mercedes-Benz terá de responder a um desafio diferente daquele de 1956: oferecer caminhões mais eficientes e de menor emissão em um mercado no qual o investimento em frota depende de crédito e da capacidade financeira dos transportadores.

A tarefa ganha urgência em 2026: os emplacamentos de caminhões no Brasil recuaram 4,9% de janeiro a agosto, segundo a Anfavea. Ao mesmo tempo, a operação brasileira participa de testes com biocombustíveis e prepara a introdução de novas tecnologias. O peso que a montadora conquistou nas estradas será medido, daqui para a frente, pela capacidade de transformar essas alternativas em soluções viáveis para quem transporta cargas no País.

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