De dois para nove aviões cargueiros: como o Mercado Livre mudou o negócio da Gollog

Parceria iniciada em 2022 levou a companhia a uma operação de até 700 voos mensais e abriu espaço para a expansão internacional da Gollog

Aline Feltrin

O avanço do comércio eletrônico está mudando a lógica do transporte aéreo de cargas no Brasil. Um dos principais exemplos é a Gollog, operação de cargas da Gol, que passou de duas aeronaves cargueiras, em 2022, para nove atualmente após iniciar uma parceria com o Mercado Livre. A operação movimenta hoje entre 650 e 700 voos mensais e se tornou parte central da estratégia da companhia.

Em entrevista à Agência Transporte Moderno, durante o Mercado Livre Experience 2026, Patricia Bello, diretora da Gollog, afirmou que a empresa espera crescer cerca de 10% em volume de carga transportada em 2026. O desempenho contrasta com o mercado de belly cargo, que, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) citados pela executiva, registra queda de cerca de 5% no ano.

A diferença está no modelo de operação. Enquanto o belly cargo aproveita o espaço disponível no porão de aeronaves de passageiros, a Gollog criou com o Mercado Livre uma estrutura dedicada de cargueiros. As nove aeronaves fazem parte dessa operação, que começou com o primeiro voo em setembro de 2022.

No ano passado, a Gollog adicionou três aeronaves à frota cargueira: uma no início do ano, outra no meio do ano e uma terceira para funcionar como aeronave de reserva.

A parceria com o Mercado Livre não surgiu como uma contratação convencional de capacidade aérea. Segundo Patricia, as duas empresas construíram conjuntamente o modelo de operação, adaptado às necessidades do comércio eletrônico brasileiro.

A criação de uma operação cargueira dedicada exige uma estrutura que, segundo ela, não está disponível pronta no mercado. Por isso, a Gollog e o Mercado Livre desenvolveram o modelo em conjunto, em uma solução customizada para a operação brasileira.

Hoje, a Gollog é a única companhia aérea que atende o Mercado Livre no Brasil no modelo de operação cargueira dedicada, de acordo com Patricia. A plataforma também trabalha com diferentes modalidades aéreas em outros mercados, como Chile e Colômbia. Na Colômbia, por exemplo, o Mercado Livre utiliza a rede da Avianca, que, assim como a Gol, também faz parte do Grupo Abra.

A diferença em relação ao transporte rodoviário, onde o Mercado Livre trabalha com diversos fornecedores, está justamente na complexidade de estruturar uma operação aérea dedicada. Para Patricia, a parceria não é resultado de uma simples concorrência por preço, mas de um modelo de negócio desenvolvido pelas duas empresas.

O cargueiro como estratégia

A expansão da frota também mudou a maneira como a Gollog enxerga a operação. Segundo Patricia, os cargueiros deixaram de ser apenas uma estrutura adicional para atender à demanda e passaram a fazer parte do modelo de negócio da companhia.

Um exemplo é Manaus. Há quatro anos, segundo a executiva, o comércio eletrônico ainda representava uma parcela pequena do mercado na região. A entrada do Mercado Livre, com a promessa de entregas em dois dias, ajudou a criar demanda. Hoje, a Gollog opera dez voos cargueiros por semana para Manaus. A ocupação também aumentou no sentido inverso. Em Manaus, os voos de retorno apresentam aproveitamento de cerca de 80% a 90%, segundo Patricia.

A Gollog possui uma frota de nove cargueiros para atender o Mercado Livre (Divulgação)

A decisão ganha peso em um cenário de maior incerteza para a aviação. Em 2026, os efeitos de questões macroeconômicas e geopolíticas aumentaram a pressão sobre os custos do setor, incluindo o combustível. Mesmo assim, a Gollog não cancelou voos cargueiros, segundo Patricia. A lógica é que a frequência aérea faz parte da estratégia do Mercado Livre para ampliar o mercado e sustentar a promessa de entrega rápida — e, portanto, é tratada como investimento, não apenas como custo operacional.

A estratégia também está relacionada ao potencial de expansão do e-commerce brasileiro. Patricia estima que a penetração do comércio eletrônico no Brasil esteja em torno de 15%, ante 30% nos Estados Unidos e 50% na Ásia. Para a executiva, a diferença mostra que ainda existe espaço para crescimento no país. Esse potencial pode naturalmente ampliar a demanda por capacidade de transporte aéreo e, consequentemente, criar a necessidade de mais aeronaves cargueiras. Patricia, porém, não revela se a Gollog terá novos cargueiros nem quando eventuais investimentos poderiam ocorrer.

A própria operação de Manaus é apresentada como exemplo desse efeito. A disponibilidade de voos e a redução do prazo de entrega ajudaram a estimular as compras na região, criando uma demanda que antes, segundo a executiva, praticamente não existia.

É uma mudança importante na lógica da aviação de cargas: em vez de simplesmente transportar uma demanda já existente, a infraestrutura logística passa a ajudar a criar novos mercados.

Apesar do aumento no número de aeronaves, Patricia afirma que o principal desafio da Gollog não é apenas ampliar a frota. A prioridade é garantir eficiência operacional suficiente para cumprir os prazos cada vez menores exigidos pelo comércio eletrônico.

Segundo ela, a companhia monitora a operação de perto, trabalha com sistemas de gestão e precisa ter capacidade para responder rapidamente a desvios. O Mercado Livre participa desse planejamento e compartilha informações com a Gollog.

A executiva considera a relação uma parceria, e não apenas uma relação tradicional entre fornecedor e cliente. O planejamento é compartilhado e, segundo ela, existe uma atuação conjunta para manter o nível de serviço.

A associação com o Mercado Livre também tem efeito sobre a marca Gollog. Patricia afirma que estar ligada a uma empresa com forte reconhecimento no comércio eletrônico funciona como uma vitrine para a companhia aérea e como uma espécie de selo de eficiência.

A aposta internacional

A próxima etapa da estratégia é ampliar a presença internacional. Em 2026, a Gollog adicionou Nova York, pelo aeroporto JFK, e Lisboa à operação. Para o próximo ano, estão previstos os destinos de Paris, pelo Charles de Gaulle, e Orlando.

Nessas rotas, a companhia utiliza aeronaves Airbus A330, de fuselagem larga. A capacidade do compartimento de carga chega a cerca de 20 toneladas, segundo Patricia, contra aproximadamente 1,8 tonelada disponível, em média, no porão de um Boeing 737 de passageiros.

Na prática, a capacidade de carga disponível no A330 se aproxima da capacidade de um cargueiro tradicional da Gollog, segundo a executiva. Isso permite ampliar significativamente o volume transportado sem necessariamente adicionar uma aeronave cargueira específica àquela rota.

A expansão internacional também abre espaço para aproveitar a integração com o Grupo Abra, do qual a Gol e a Avianca fazem parte. A Avianca Cargo já atende o Mercado Livre na Colômbia, incluindo operações entre Estados Unidos e Bogotá. Para Patricia, há oportunidades de combinar as redes das duas empresas.

O cenário de 2026, no entanto, não é simples para a aviação. Patricia classifica o ano como desafiador diante dos impactos macroeconômicos e geopolíticos. Ainda assim, a Gollog mantém uma perspectiva positiva.

A projeção de crescimento de aproximadamente 10% no volume transportado considera os dados da Anac e a evolução da própria operação cargueira. Segundo Patricia, quando a carga transportada em aeronaves de passageiros é somada à movimentação dos cargueiros, a retração observada no belly cargo deixa de aparecer no mercado como um todo.

Para 2027, a estratégia será concentrada nos fatores que a companhia consegue controlar: eficiência operacional, gestão próxima das bases, sistemas de acompanhamento e redução de desvios. A ideia é preparar a operação para reagir às variáveis macroeconômicas sobre as quais a empresa não tem controle.

Patricia também aponta resultados da integração entre Gol e Abra, especialmente na aproximação entre Gollog e Avianca Cargo. Segundo ela, já existem sinergias concretas entre as duas operações.

Com a expansão internacional da Gollog, a executiva vê espaço para combinar as redes das duas empresas e ampliar as possibilidades de atendimento à plataforma em diferentes mercados. “Apesar desse movimento, a Gol continuará tendo o mercado brasileiro como foco, enquanto a expansão internacional amplia as possibilidades da operação dentro da estrutura do Grupo Abra”, finaliza a principal executiva da Gollog.

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