Chinesas aceleram ofensiva no Brasil: quais montadoras de caminhões já estão aqui e quais podem chegar?

Com caminhões mais tecnológicos, foco em eficiência e estratégia global agressiva, montadoras chinesas aumentam pressão sobre marcas tradicionais no Brasil

Aline Feltrin

O avanço das montadoras chinesas no Brasil entrou em uma nova fase. Depois de ganhar espaço em segmentos de entrada e crescer com modelos mais acessíveis, as fabricantes do país asiático passaram a ampliar sua atuação em segmentos de maior valor agregado e conteúdo tecnológico no mercado de veículos comerciais.

O movimento marca uma mudança importante de posicionamento. Se antes o principal argumento das marcas chinesas era preço competitivo, agora o discurso passa a incluir eficiência energética, conectividade, tecnologia embarcada, telemetria, consumo de combustível e custo total de operação — atributos tradicionalmente associados às fabricantes europeias e às marcas mais consolidadas do setor.

A ofensiva ocorre em um momento em que a China consolidou sua posição como maior exportadora mundial de caminhões e acelera sua presença na América Latina, África, Oriente Médio e Sudeste Asiático. O Brasil aparece cada vez mais no radar dessas empresas devido ao tamanho da frota circulante, à relevância do agronegócio, à necessidade de renovação de caminhões e ao potencial de crescimento em segmentos ligados à eletrificação e à transição energética.

O exemplo mais recente vem da Dongfeng Motor Corporation, uma das maiores montadoras estatais da China, que apresentou recentemente sua estratégia global para a linha G-Series de caminhões pesados. A fabricante posiciona os modelos como produtos de alto valor agregado, com foco em eficiência energética, tecnologia embarcada e durabilidade de até 2 milhões de quilômetros.

A Dongfeng Motor Corporation ainda não anunciou oficialmente planos para comercializar caminhões pesados no Brasil, mas o movimento global da companhia e sua entrada estruturada no país aumentam as especulações sobre uma futura atuação também no segmento de veículos comerciais.

A transformação da indústria chinesa de caminhões ajuda a explicar essa nova ofensiva global. Hoje, circulam pelas cidades e estradas chinesas cerca de 35 milhões de caminhões e ônibus de diferentes portes e aplicações — a maior frota comercial do mundo. Até poucos anos atrás, o diesel dominava quase integralmente esse mercado. Agora, porém, a transição energética acelera em ritmo agressivo.

Nos últimos dois anos, a participação dos veículos comerciais novos movidos a diesel caiu para menos de 50% na China, enquanto modelos movidos a gás natural e eletrificados avançam rapidamente, principalmente em operações dedicadas e urbanas.

Segundo dados da  China Association of Automobile Manufacturers (CAAM), o país comercializou cerca de 4,3 milhões de veículos comerciais novos em 2025, entre caminhões e ônibus, alta de 10,9% sobre 2024. Desse total, os modelos movidos a gás natural representaram 29% das vendas, enquanto os eletrificados responderam por 22%. A expectativa do setor é que os veículos comerciais eletrificados atinjam participação próxima de 60% nas vendas totais nos próximos anos.

Executivos chineses atribuem essa aceleração ao ganho de competitividade das novas tecnologias. Estudos locais indicam que o custo total de propriedade e operação de veículos descarbonizados já é entre 10% e 26% menor do que o de modelos equivalentes movidos a diesel.

O chairman da Great Wall Motor, Jack Wey, resumiu recentemente essa mudança ao afirmar que “a eletrificação dos veículos comerciais está sendo feita em praticamente todos os segmentos”. A própria Great Wall Motor vem ampliando investimentos em tecnologias ligadas à descarbonização do transporte, incluindo soluções baseadas em hidrogênio desenvolvidas pela divisão FTXT.

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Sem incentivos do governo chinês

Antonio Jorge Martins, coordenador de cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas, disse à Agência Transporte Moderno que o avanço internacional das fabricantes chinesas está diretamente ligado às mudanças no próprio mercado interno da China.

Segundo ele, o governo chinês reduziu parte dos incentivos financeiros que sustentavam o crescimento acelerado da indústria automotiva local, o que aumentou a necessidade de expansão internacional das montadoras. “Havia linhas de crédito para compradores e também apoio financeiro das províncias onde as fábricas estavam instaladas. Com a redução desses incentivos, as empresas passaram a buscar atuação internacional de forma muito mais agressiva”, afirma. Para Martins, trata-se de um movimento estrutural e sem volta.

“As empresas perceberam que não podem depender de um único mercado. Elas precisam gerar caixa, manter rentabilidade e continuar investindo em tecnologia”, diz.

As chinesas que já estão no Brasil

Nos últimos anos, fabricantes chinesas deixaram de atuar apenas em nichos específicos e passaram a ampliar rede, portfólio e estrutura de pós-venda no mercado brasileiro. Entre as marcas que já atuam por aqui estão: Foton, JAC Motors, XCMG, Sany Heavy Truck, Sinotruk e BYD. Todas confirmaram presença na Fenatran 2026, maior exposição do transporte de carga da América Latina, que ocorrerá em novembro, na capital paulista.

A Foton talvez seja hoje o exemplo mais claro dessa mudança de patamar. A empresa vem acelerando a expansão da rede de concessionárias no País, ampliando o portfólio e fortalecendo sua presença no agronegócio e no transporte regional. A marca também já sinaliza planos mais ambiciosos para crescimento industrial e ganho de participação.

A BYD, por sua vez, concentra esforços na eletrificação do transporte comercial e já disputa espaço em ônibus e caminhões urbanos elétricos.

Já empresas como XCMG e Sany Heavy Truck avançam principalmente em mineração, construção pesada e operações fora de estrada, aproveitando sinergias com suas operações de máquinas amarelas.

A Sinotruk, dona das marcas Howo e Sitrak, também vem ampliando sua presença global e já figura entre as maiores fabricantes de caminhões pesados da China em volume. Porém, Esta será a segunda tentativa da companhia no mercado brasileiro, embora ainda existam poucas informações concretas sobre o line-up de produtos, estrutura operacional e ritmo de expansão da rede de concessionárias.

A primeira passagem da empresa pelo Brasil, entre 2010 e 2014, deixou certa desconfiança no setor. Na época, a operação foi encerrada de forma repentina, o que gerou dificuldades relacionadas a pós-venda, peças e suporte técnico para parte dos transportadores que haviam adquirido veículos da marca.

Uma investida diferente

Martins avalia que o setor de caminhões possui uma dinâmica muito diferente da indústria de automóveis, especialmente pela importância do pós-venda. “No segmento de caminhões, o pós-venda é muito mais relevante do que no setor de automóveis. O transportador depende do caminhão rodando. Isso pesa muito mais na decisão de compra”, afirma.

Segundo ele, a primeira investida chinesa no Brasil deixou cicatrizes no mercado porque algumas marcas chegaram ao País, venderam veículos e depois reduziram operações ou abandonaram o mercado. “Isso gera sequelas no setor. Mas agora elas estão vindo de uma forma diferente, sabendo que precisam construir uma base sólida de pós-venda e suporte”, diz.

Quem pode chegar ao Brasil?

O mercado brasileiro passou a ser observado com mais atenção pelas montadoras chinesas devido ao tamanho da frota circulante, à força do agronegócio, à dependência do transporte rodoviário e ao potencial de renovação de caminhões nos próximos anos.

Além disso, segmentos ligados à mineração, infraestrutura, gás e eletrificação passaram a despertar interesse crescente das fabricantes asiáticas.

Entre as empresas que podem ampliar exportações para a América Latina — e eventualmente desembarcar ou retornar ao Brasil — estão Dongfeng , FAW Jiefang, Shacman, CAMC, Beiben Trucks, Dayun e SAIC Hongyan.

A Shacman, inclusive, já teve uma passagem pelo mercado brasileiro no mesmo período da primeira operação da Sinotruk, mas também acabou deixando o País após dificuldades para consolidar rede, pós-venda e escala operacional.

A tendência é de aumento gradual da presença chinesa no Brasil, especialmente em segmentos ligados à eletrificação, gás, mineração e operações de custo mais sensível. Contudo, Martins acredita que o avanço deve ocorrer de forma gradual, com cada fabricante priorizando inicialmente os nichos em que possui maior competitividade.

“Nem todas vão entrar rapidamente no segmento de pesados. Cada uma vai atuar primeiro nos nichos em que é mais forte, criar base e depois avançar”, afirma.

O preconceito está diminuindo?

O avanço das montadoras chinesas lembra o que ocorreu no mercado de pneus ao longo da última década. Há alguns anos, produtos chineses eram frequentemente associados apenas a baixo preço e menor durabilidade. Hoje, parte das marcas asiáticas já compete diretamente com fabricantes premium em determinadas aplicações, impulsionadas pela evolução tecnológica e pela melhora no custo-benefício.

No transporte pesado, porém, ainda pesam fatores como recapabilidade, resistência da carcaça, disponibilidade imediata, rede de assistência técnica e valor de revenda — critérios fundamentais para grandes transportadoras e frotistas.

Embora as fabricantes chinesas tenham evoluído rapidamente em tecnologia, conectividade, acabamento e eficiência energética, ainda existe cautela de parte do mercado em relação ao pós-venda, disponibilidade de peças, suporte técnico e valor residual dos veículos. Por outro lado, operadores que buscam reduzir custo operacional passaram a olhar as marcas chinesas de forma menos preconceituosa do que no passado.

“Os chineses aprendem rápido. Eles perceberam que precisam construir confiança através de pós-venda, presença local e continuidade operacional”, afirma Martins.

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