Dinheiro parado: autônomos ignoram crédito do Move Brasil e revelam o verdadeiro problema

Enquanto algumas montadoras e agentes financeiros já relatam o esgotamento dos recursos destinados às empresas, caminhoneiros autônomos continuam sem aderir ao programa

Aline Feltrin

O programa Move Brasil chegou a um paradoxo. Enquanto algumas montadoras e agentes financeiros afirmam que os recursos destinados às empresas já se esgotaram ou estão praticamente no fim, cerca de R$ 1,7 bilhão da verba reservada exclusivamente aos caminhoneiros autônomos continua sem utilização.

O contraste evidencia que o principal desafio do programa deixou de ser a oferta de crédito e passou a ser a capacidade financeira dos transportadores autônomos de assumir uma nova dívida em um momento de incerteza para o setor.

Até o fim de junho, aproximadamente 75% dos recursos destinados às pessoas jurídicas já haviam sido comprometidos. Entre os caminhoneiros autônomos, porém, apenas cerca de R$ 300 milhões dos R$ 2 bilhões reservados para esse público haviam sido utilizados.

O comportamento repete o observado na primeira fase do Move Brasil, quando a maior parte da verba destinada aos Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) também ficou sem utilização.

Na tentativa de mudar esse cenário, montadoras, concessionárias, bancos e entidades do setor passaram a promover ações específicas para esse público.

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Um exemplo foi o Feirão Move Brasil Caminhões, realizado nos dias 2 e 3 de julho, nos Arcos do Valongo, em Santos (SP), reunindo fabricantes, bancos e concessionárias para oferecer condições especiais de financiamento, como juros reduzidos, possibilidade de entrada zero e prazo de até dez anos para pagamento. A Mercedes-Benz participou do evento por meio da concessionária Divena Litoral.

Para Jefferson Ferrarez, vice-presidente de vendas, marketing e peças & serviços caminhões da Mercedes-Benz do Brasil, a renovação da frota é fundamental para aumentar a competitividade do transporte rodoviário. “Essa ação promocional de vendas alcança um tema essencial para o futuro do transporte e da logística: a renovação da frota circulante. Atualmente, mais de 300 mil caminhões que circulam pelo país têm mais de 20 anos de uso”, afirmou.

Segundo o executivo, uma frota mais nova reduz custos operacionais, aumenta a segurança nas rodovias e contribui para diminuir as emissões de poluentes.

“O caminhoneiro não sabe se conseguirá pagar”

Se para as montadoras o desafio é estimular a renovação da frota, para quem está atrás do volante a preocupação é outra: conseguir manter o caminhão atual rodando.

José Cavalcanti, presidente do Sindigran, entidade que representa cerca de 3.500 caminhoneiros autônomos da Baixada Santista, afirma que a baixa adesão ao Move Brasil não está relacionada à falta de interesse, mas à dificuldade de assumir uma prestação mensal sem ter garantia de renda. “O caminhoneiro não tem condições de assumir uma dívida mensal que ele não sabe se vai conseguir pagar.”

Segundo ele, a escassez de fretes tornou a atividade muito mais instável. “Hoje há motoristas que ficam até 15 dias parados esperando para carregar fertilizante. Não falta vontade de trabalhar. Falta carga.”

Ao mesmo tempo, os custos da operação dispararam.”O diesel subiu, os pneus ficaram mais caros, as peças aumentaram, a manutenção pesa cada vez mais. O custo de operar um caminhão cresceu muito.”

Na avaliação do dirigente, assumir um financiamento de oito ou dez anos tornou-se inviável para boa parte da categoria. “Para quem não sabe quanto vai faturar no mês seguinte, assumir um financiamento desse tamanho é um risco muito grande.”

Para Cavalcanti, o problema não está no nome do programa, mas na realidade econômica dos caminhoneiros. “Esse programa é igual a tantos outros que já existiram. Só muda o nome.”

Segundo ele, enquanto não houver recuperação do mercado de fretes e maior previsibilidade de renda, linhas de crédito subsidiadas continuarão encontrando baixa adesão entre os autônomos.

Falta informação ou falta acesso?

Além da insegurança financeira, muitos caminhoneiros afirmam que sequer sabem como acessar as condições oferecidas pelo Move Brasil. O caminhoneiro Anderson Cavalcanti diz que tentou buscar informações, mas encontrou dificuldade para entender como funciona a linha de crédito.

“Eu não fui atrás porque também não sabia como fazer. Conversei com colegas e ninguém conseguiu. Um foi ao Banco do Brasil, outro à Caixa Econômica, outro procurou uma financeira, mas acabou encontrando apenas financiamento comum.”

Segundo ele, entre os profissionais que conhece, praticamente ninguém conseguiu contratar o financiamento nas condições divulgadas pelo governo. “Esses auxílios do governo eu não conheço ninguém que tenha conseguido. Lá atrás teve gente que conseguiu financiamento pelo BNDES com juros bons, mas agora ninguém sabe direito onde procurar.”

Na avaliação do caminhoneiro, a falta de informação acaba afastando potenciais interessados. “Você chega na financeira, na garagem ou na concessionária e oferecem apenas financiamento tradicional. A gente fica perdido. Automaticamente ninguém adere. É um ou outro, e mesmo assim casos bem isolados.”

Onde está o gargalo?

Além das dificuldades econômicas relatadas pelos caminhoneiros, permanece outra dúvida: parte da baixa utilização dos recursos decorre das exigências para aprovação do crédito? A Agência de Notícias Transporte Moderno procurou a Caixa Econômica Federal, um dos agentes financeiros que operam o Move Brasil, para saber quantas propostas de caminhoneiros autônomos foram apresentadas, quantas foram aprovadas, qual o volume financeiro contratado e quais são os principais motivos para a negativa das operações.

A reportagem também questionou se a instituição identificou aumento da demanda após a realização de feirões e ações promocionais promovidas pelas montadoras. Até o fechamento desta edição, a Caixa não havia respondido aos questionamentos.

As respostas poderão ajudar a esclarecer se o principal entrave está na demanda reprimida, nas exigências para obtenção do crédito ou na própria situação econômica enfrentada pelos caminhoneiros.

Enquanto isso, o Move Brasil expõe uma realidade que vai além da disponibilidade de recursos. Se para as empresas o crédito se tornou escasso diante da forte procura, entre os autônomos o dinheiro continua disponível, mas falta o principal: segurança financeira para assumir uma nova dívida.

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