Produzir biodiesel em larga escala exige muito mais do que tanques e reatores. Na Lapa, região metropolitana de Curitiba (PR), o Grupo Potencial está transformando sua unidade industrial em um dos mais avançados complexos integrados de agroenergia do país, combinando produção de biodiesel, esmagamento de soja, refino de glicerina, cogeração de energia e futuros projetos de biometano e etanol de milho.
A estratégia da companhia passa pela verticalização da cadeia produtiva, com o objetivo de reduzir custos, ampliar a eficiência operacional e sustentar a expansão da produção de biocombustíveis. Atualmente, o complexo possui capacidade para produzir 900 milhões de litros de biodiesel por ano, volume que deverá atingir 1,7 bilhão de litros anuais com a entrada em operação de uma terceira planta prevista para setembro de 2027.
“Não existe mais mercado de combustíveis sem biocombustíveis e o Brasil tem o DNA para a produção dos biocombustíveis. O nosso propósito é participar da transição energética mundial, que é irreversível”, afirmou Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente Comercial, de Relações Institucionais e Novos Investimentos do Grupo Potencial.

Segundo o executivo, a companhia prevê investir entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões adicionais no complexo até 2030/2032. Os recursos serão direcionados à expansão da produção de biodiesel, ampliação da capacidade de esmagamento de soja, implantação de uma planta de etanol de milho, produção de biometano e novos projetos voltados à descarbonização.
Logística em escala industrial
A operação movimenta diariamente centenas de veículos e insumos. Apenas a nova esmagadora de soja, inaugurada recentemente, possui capacidade para processar 3,5 mil toneladas por dia, o equivalente ao recebimento de cerca de 100 carretas diariamente.

Além disso, a planta registra a entrada diária de aproximadamente 100 caminhões transportando matérias-primas e insumos para a produção de biodiesel, enquanto outros 100 veículos deixam o complexo carregados com biodiesel e derivados. A expedição de farelo de soja adiciona cerca de 80 caminhões por dia à operação.
Parte importante dessa estratégia logística está na integração física entre as unidades industriais. O óleo produzido na esmagadora é transferido diretamente para a planta de biodiesel por meio de tubulações aéreas, eliminando movimentações rodoviárias dentro do complexo e reduzindo custos operacionais. “A cada nova etapa, a gente estica mais a cadeia de verticalização”, afirmou Luiz Carlos Bruzamolin Filho, diretor Industrial do Grupo Potencial.
Hoje, a primeira fase da esmagadora é capaz de suprir aproximadamente 25% da demanda interna por óleo vegetal da companhia. Uma segunda etapa, ainda sem cronograma definido, poderá elevar esse percentual para cerca de 50%.
Automação e autossuficiência energética
Outro diferencial do complexo é o elevado nível de automação. Cerca de 99% dos processos industriais são monitorados e controlados a partir de uma sala central de operações. Apenas cinco operadores acompanham, em tempo real, o funcionamento das 15 plantas industriais instaladas no site.

O complexo caminha para se tornar autossuficiente em energia elétrica. Uma nova caldeira de alta pressão equipada com sistema de cogeração deverá produzir aproximadamente 10 MW, volume suficiente para atender integralmente ao consumo do empreendimento.
A verticalização da operação também avança sobre o aproveitamento integral dos insumos e resíduos industriais. Atualmente, entre 85% e 90% das matérias-primas utilizadas na produção de biodiesel são compostas por óleo vegetal, principalmente de soja. O restante é formado por gorduras animais e óleo de cozinha usado.
O Grupo Potencial mantém há mais de uma década um programa de coleta de óleo residual, que já recolheu cerca de 33 milhões de litros do produto. Segundo a empresa, esse volume evitou a contaminação potencial de aproximadamente 750 bilhões de litros de água.
A companhia também opera duas refinarias de glicerina, coproduto gerado durante a produção do biodiesel, com capacidade anual entre 85 mil e 90 mil toneladas. O produto é destinado aos segmentos farmacêutico, alimentício e cosmético.
Como próximo passo da estratégia de economia circular, o grupo investirá cerca de R$ 120 milhões em uma planta destinada à produção de biogás a partir dos resíduos gerados no tratamento de efluentes industriais. O projeto deverá produzir até 25 mil metros cúbicos de biogás por dia e integra a meta corporativa de alcançar operações com resíduo zero.
Se um quebra, o outro quebra
Para Hammerschmidt, a combinação entre agronegócio, biocombustíveis e inovação tecnológica deverá sustentar a próxima etapa de crescimento da companhia. “Biocombustíveis e agronegócio não caminham mais separados. Se um quebra, o outro quebra”, afirmou.
Na avaliação do executivo, a verticalização da cadeia também representa uma resposta estratégica a um cenário internacional marcado por volatilidade geopolítica e incertezas no abastecimento energético. Episódios recentes, como as tensões no Oriente Médio e os impactos sobre o mercado global de petróleo, reforçaram, segundo ele, a importância de ampliar a produção doméstica de combustíveis renováveis.
“A questão dos biocombustíveis não pode ser tratada apenas como uma meta de descarbonização, mas como uma política de Estado. Ela garante soberania energética, gera emprego, renda e reduz a dependência externa”, conclui Hammerschmidt.
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