30 milhões de pneus ganham nova vida nas rodovias brasileiras

Tecnologia da Greca Asfaltos que completa 25 anos transforma resíduo em pavimentos mais duráveis, reduz emissões e muda a lógica da engenharia rodoviária

Valeria Bursztein

Trinta milhões de pneus que antes representavam um dos maiores passivos ambientais da cadeia automotiva brasileira passaram a cumprir uma nova função: reforçar a durabilidade de rodovias, aeroportos e outras infraestruturas de transporte. A marca foi alcançada pela Greca Asfaltos, empresa que atua na produção de asfalto-borracha no Brasil, exatamente quando a tecnologia completa 25 anos no país. Mais do que um número simbólico para a reciclagem, o volume revela uma transformação silenciosa na engenharia rodoviária, que passa a priorizar pavimentos mais duráveis, sustentáveis e econômicos ao longo de todo o seu ciclo de vida.

A conservação da infraestrutura viária se tornou um dos principais desafios logísticos do país. A Pesquisa Confederação Nacional do Transporte (CNT) de Rodovias estima que seriam necessários R$ 101,1 bilhões para reconstrução, restauração e manutenção dos 114.197 quilômetros avaliados, enquanto mais de 60% da malha analisada ainda apresenta algum tipo de deficiência. Para concessionárias e órgãos públicos, ampliar a vida útil dos pavimentos passou a ser uma estratégia tão importante quanto construir novas estradas.

Nesse contexto, materiais reciclados, novos ligantes asfálticos, inteligência de dados e controle tecnológico em tempo real começam a mudar a forma como as rodovias são projetadas e mantidas. O asfalto-borracha tornou-se uma das soluções que simbolizam essa mudança ao transformar pneus inservíveis em matéria-prima para pavimentos de alto desempenho.

Alexandre Castanho, diretor de Novos Negócios da GRECA Asfaltos / Foto: Divulgação

De passivo ambiental a ativo da infraestrutura

Produzido com aproximadamente 15% de pó de borracha proveniente de pneus reciclados incorporado ao ligante asfáltico, o asfalto-borracha é um dos exemplos mais sólidos de economia circular aplicada à infraestrutura viária.

Em entrevista à Agência Transporte Moderno, Alexandre Castanho, diretor de Novos Negócios da GRECA Asfaltos, detalhou que o desenvolvimento da tecnologia exigiu quase três anos de pesquisas para solucionar um desafio considerado complexo pela engenharia de materiais: integrar de forma estável a borracha ao ligante asfáltico.

“O grande desafio era fazer a borracha conversar com o asfalto. Depois de desenvolvermos o processo industrial e toda a cadeia de fornecimento do pó de borracha, a tecnologia atingiu um estágio de maturidade e continua evoluindo.”

Ao longo desse período, a empresa reciclou 30 milhões de pneus que, em vez de permanecerem descartados por décadas no meio ambiente, passaram a integrar obras rodoviárias em diferentes regiões do país. Entre elas estão trechos das rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Régis Bittencourt, Imigrantes, BR-470, BR-282 e a Ponte de Guaratuba.

Nova engenharia

Além de incorporar um material reciclado, a tecnologia reflete uma mudança na forma como o setor avalia investimentos em pavimentação. Durante décadas, a decisão sobre qual revestimento utilizar esteve concentrada no custo inicial da obra. Hoje, de acordo com Castanho, concessionárias e gestores públicos passaram a considerar o desempenho ao longo de toda a vida útil da rodovia.

“Quando se olha apenas o preço do ligante modificado, ele é mais caro. Mas essa comparação muda completamente quando se considera quantas vezes aquela rodovia precisará ser restaurada ao longo dos anos.”

Segundo o executivo, esse raciocínio explica a crescente adoção dos asfaltos modificados nas rodovias concedidas, onde a durabilidade do pavimento influencia diretamente os custos de manutenção, a disponibilidade da via e o cumprimento dos indicadores de desempenho exigidos pelos contratos de concessão.

O que muda para quem utiliza a rodovia

Embora boa parte da discussão sobre pavimentação permaneça restrita à engenharia, seus efeitos chegam diretamente aos usuários das estradas. Pavimentos mais resistentes tendem a reduzir a formação de trincas, buracos e deformações permanentes provocadas pelo tráfego intenso de caminhões e pelas variações de temperatura.

Isso significa menor necessidade de obras de recuperação, menos interdições de faixas, maior fluidez do tráfego e maior previsibilidade das viagens — fatores que impactam diretamente a produtividade das transportadoras e o custo logístico.

Além disso, segundo Castanho, o asfalto-borracha proporciona menor acúmulo de água sobre a pista, melhora a aderência dos pneus e reduz em até cinco decibéis o ruído provocado pela rolagem dos veículos. Estudos conduzidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Universidade de São Paulo (USP), citados pela empresa, apontam resistência à reflexão de trincas até 5,5 vezes superior à do pavimento convencional.

Castanho acrescenta que a interação entre pneu e pavimento tende a ser mais suave do que em superfícies mais rígidas, como o concreto, o que pode contribuir para reduzir o desgaste dos pneus ao longo do tempo. O executivo ressalta, porém, que a empresa ainda não dispõe de estudos que quantifiquem o benefício.

Foto: Divulgação / Greca

Economia circular e descarbonização

Os ganhos ambientais vão além da destinação adequada dos pneus. Castanho explica que parte da redução das emissões decorre da substituição de uma parcela do ligante asfáltico derivado do petróleo pelo pó de borracha reciclado. Outro benefício está no reaproveitamento de um resíduo que, de outra forma, permaneceria por décadas no ambiente.

A empresa cita estudo da Politécnica de Torino segundo o qual o Ecoplex, nome comercial da solução de asfalto-borracha desenvolvida pela GRECA Asfaltos, pode reduzir em até 35,9% as emissões de CO₂ por metro de camada aplicada.

O setor também avança na utilização de misturas mornas, produzidas em temperaturas mais baixas, e na reciclagem de pavimentos fresados (RAP), tecnologias que reduzem o consumo de energia, preservam agregados minerais e diminuem a necessidade de extração de novas jazidas.

Estrada deixa de ser apenas asfalto

A marca de 30 milhões de pneus reciclados representa um avanço da economia circular e simboliza uma mudança de paradigma na infraestrutura rodoviária brasileira. Se antes o pavimento era tratado apenas como uma camada de revestimento, hoje passa a ser encarado como um ativo de engenharia, capaz de combinar maior durabilidade, menor impacto ambiental e menor necessidade de intervenções ao longo do tempo.

Para um país cuja logística depende majoritariamente das rodovias, tecnologias que prolongam a vida útil dos pavimentos significam mais do que inovação. Representam a possibilidade de reduzir custos de manutenção, aumentar a disponibilidade da infraestrutura e tornar o transporte de cargas mais eficiente. Além de marco ambiental, os 30 milhões de pneus reciclados passam a representar uma nova forma de pensar a infraestrutura viária brasileira.

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