O mercado brasileiro de combustíveis para veículos pesados pode ganhar uma nova alternativa nos próximos anos. O BeVant, biocombustível desenvolvido pela Be8 para substituir o diesel em caminhões e equipamentos movidos a motores de combustão, deve começar a chegar aos postos no início de 2028, segundo revelou Sandro Tapparo, head da unidade de negócios Be8 BeVant, à reportagem da Agência Transporte Moderno. “Estamos em uma etapa de venda B2B, mas nossa visão estratégica é que, em não muito tempo, exista a venda nos postos.”
Atualmente, a comercialização do combustível ocorre principalmente em contratos diretos entre a empresa e grandes consumidores. A expectativa da companhia é que a evolução da regulamentação pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) permita uma transição para o varejo. O movimento ampliará o acesso ao produto para transportadores que hoje precisam abastecer suas frotas em estruturas próprias.
A expansão ocorre em um momento em que empresas de transporte passaram a olhar para a dependência do diesel não apenas como uma questão ambiental, mas também como um risco operacional. A recente instabilidade no mercado de combustíveis aumentou o interesse por alternativas, segundo o executivo. “Quando houve aquela situação de dificuldade de abastecimento, muitos transportadores perceberam que, se não tiver combustível, a frota não roda e o negócio para. Isso trouxe uma preocupação de não depender exclusivamente de uma única fonte”, disse.
Segundo Tapparo, a crise do diesel funcionou como um alerta para o setor. Embora não tenha representado uma mudança definitiva no comportamento das empresas, estimulou projetos de descarbonização e de diversificação energética. “Ela trouxe para muitos transportadores essa visão de que a dependência é muito grande. Se você não tiver combustível, você não fatura”, afirmou.
Mais de 100 clientes e disputa por mercado de descarbonização
Com cerca de um ano de comercialização, o BeVant já foi utilizado por mais de 100 clientes, segundo a Be8. A carteira reúne empresas de diferentes segmentos, incluindo transporte rodoviário, mineração, agricultura, geração de energia, setor marítimo e ferroviário.
A companhia estima que o mercado brasileiro de combustíveis voltados à descarbonização possa alcançar cerca de 1,5 bilhão de litros por ano. O cálculo considera o potencial de substituição de parte do mercado de diesel, que movimenta aproximadamente 70 bilhões de litros anuais no país. “A nossa ambição é sermos líderes da transição energética com o BeVant”, afirmou Tapparo.
Um dos instrumentos usados pela empresa para demonstrar o desempenho do combustível tem sido a participação na Copa Truck. A parceria, iniciada nesta temporada, prevê quatro anos de presença no campeonato de caminhões e funciona, segundo o executivo, como uma vitrine para apresentar ao mercado resultados que já haviam sido obtidos em testes de laboratório e projetos com clientes.

Para medir os resultados na competição, a Be8 contratou uma consultoria especializada que utiliza a metodologia do GHG Protocol, referência internacional para contabilização de emissões. Nas quatro primeiras provas da temporada, a empresa afirma ter registrado redução de 99,3% das emissões de gases de efeito estufa, evitando mais de 84 toneladas de CO₂.
Além da redução de carbono, Tapparo destaca a menor emissão de fumaça preta e particulados observada durante as provas. Segundo ele, a competição ajuda a demonstrar uma característica considerada estratégica pela companhia: a possibilidade de reduzir emissões sem exigir uma troca imediata da frota.
“A Copa Truck é uma forma de levar ao grande público uma condição que a gente já conhecia em laboratório: a simplicidade da transição do diesel para um combustível descarbonizante, sem fazer investimentos e sem alterar a operação do dia a dia”, afirmou.
Combustível busca vantagem sobre diesel e novas tecnologias
Esse é um dos principais argumentos da Be8 para disputar espaço no mercado de transporte pesado. Diferentemente de tecnologias que dependem da compra de novos veículos, como caminhões elétricos, o BeVant pode ser utilizado em equipamentos movidos a diesel compatíveis.
“Quando a gente olha todas as matrizes de descarbonização, todas têm vantagens e desvantagens. O BeVant se encaixa de uma forma em que o mesmo equipamento que hoje usa diesel pode passar amanhã a ser um veículo que esteja descarbonizando 99,3%”, disse Tapparo.
Segundo o executivo, não existe um corte relacionado ao ano de fabricação do caminhão. A empresa afirma já ter realizado projetos com veículos mais antigos e equipamentos modernos, embora a utilização dependa das especificações e homologações aplicáveis.
Na prática, o transportador troca o combustível sem precisar substituir o ativo. Essa característica é apontada pela companhia como uma vantagem em relação a alternativas que exigem investimentos elevados, como eletrificação ou mudança para outras tecnologias.
O preço ainda é um dos desafios para a expansão. Segundo Tapparo, o BeVant custa atualmente cerca de 15% mais do que o diesel, mas a comparação precisa considerar outros fatores, como investimentos em novos equipamentos, custos operacionais e possíveis ganhos comerciais associados ao transporte descarbonizado. “O BeVant é muito competitivo em relação a outras matrizes de descarbonização, principalmente porque não exige capex para troca do veículo”, afirmou.
A empresa também aponta ganhos indiretos relacionados à operação. Segundo Tapparo, o combustível apresenta menor formação de resíduos, pode contribuir para redução de manutenção e tem características que diminuem custos associados ao manuseio do diesel.
Outro fator considerado pela companhia é a possibilidade de transportadores obterem contratos com embarcadores que buscam reduzir emissões em suas cadeias logísticas. “Hoje, o transportador consegue oferecer para o embarcador um transporte descarbonizado de uma forma simples, rápida e com custo acessível”, disse.
Be8 prepara expansão da produção e avanço para exportação
Para atender a uma eventual expansão da demanda, a Be8 aposta na capacidade já instalada da cadeia de biodiesel. A empresa possui seis plantas no Brasil que atualmente produzem biodiesel, matéria-prima do BeVant, e podem ser adaptadas para fabricar o novo combustível.
Hoje, a companhia produz cerca de 150 milhões de litros de biodiesel por mês. Segundo Tapparo, com investimentos, seria possível alcançar capacidade semelhante de produção de BeVant. A primeira planta anunciada para produzir o combustível será no Piauí. A empresa também já informou anteriormente que outras unidades poderão ser adaptadas, conforme o avanço da demanda. Entre os projetos avaliados estão contratos de grande volume, especialmente no setor de mineração.

“Existem projetos importantes na mineração que podem exigir que a gente transforme rapidamente uma unidade para atender grandes contas”, afirmou. A Be8 também avalia ampliar a produção por meio de parcerias com outros produtores de biodiesel. Segundo Tapparo, como o BeVant é uma tecnologia patenteada, a empresa estuda modelos de licenciamento caso a demanda avance.
No mercado externo, a companhia afirma que já iniciou conversas para exportação do combustível para países da Europa, América Central e América do Sul. A Be8, que atua há duas décadas com biocombustíveis, já possui operações internacionais com outros produtos da cadeia.
A relação com as montadoras também é considerada estratégica para a expansão do combustível. Segundo Tapparo, fabricantes de veículos pesados acompanham o desenvolvimento do BeVant por meio de testes de motores e avaliações de campo.
A Copa Truck também se tornou uma plataforma de aproximação com as montadoras, já que equipes ligadas aos fabricantes participam diretamente da competição. Para avançar para uma adoção em larga escala, o executivo avalia que ainda será necessário evoluir em quatro frentes: regulamentação, distribuição, logística e capacidade produtiva.
A regulamentação da Lei do Combustível do Futuro pela ANP abriu espaço para que consumidores interessados utilizem o combustível mediante comunicação ao órgão regulador. Segundo Tapparo, a venda em postos será uma consequência natural desse processo. “O mercado já está demandando, já estamos fornecendo e temos condição técnica. Agora é uma evolução de produção e distribuição”, afirmou.
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