A expansão dos caminhões movidos a gás e biometano no transporte rodoviário brasileiro esbarra em um obstáculo menos visível do que a infraestrutura de abastecimento ou o custo dos veículos: a inexistência de um mercado consolidado de seminovos.
A preocupação apareceu de forma recorrente durante os debates do CIBiogás Conecta Transporte Pesado, em São Paulo, e ajuda a explicar parte da resistência do mercado à nova tecnologia, cuja adoção ainda avança em ritmo inferior ao esperado por fabricantes, produtores de biometano e transportadoras.
No transporte rodoviário, a decisão de compra de um caminhão novo passa inevitavelmente pelo valor de revenda daqui a quatro, cinco ou seis anos. E é justamente aí que reside uma das maiores incertezas do mercado. Quem comprará um caminhão a gás usado daqui a cinco anos?
Valor residual
Para Aurélio Ferreira, diretor de Desenvolvimento da Ultragaz, o setor ainda precisa construir uma cultura em torno dos veículos movidos a gás e biometano. Segundo ele, muitas transportadoras operam com ciclos definidos de renovação de frota e dependem da revenda dos ativos para viabilizar financeiramente a aquisição de novos veículos.
“As transportadoras ficam com o caminhão por um período e depois precisam revendê-lo no mercado de segunda mão. O mercado de usados ainda tem resistência em aceitar um caminhão a gás”, afirmou durante o evento.
Na avaliação do executivo, dúvidas relacionadas à autonomia, disponibilidade de abastecimento, manutenção e valor residual ainda pesam na decisão de investimento. “Precisamos criar uma cultura do caminhão a gás”, resumiu.
O desafio chama atenção porque o Brasil já possui uma das maiores frotas de veículos leves movidos a gás do mundo. Segundo dados apresentados durante o evento, o país possui aproximadamente 2,6 milhões de veículos leves a GNV, o país possui aproximadamente 2,6 milhões de veículos leves a GNV e uma das maiores frotas do mundo. No transporte pesado, porém, o gás natural ainda representa menos de 0,1% da matriz energética do segmento, amplamente dominada pelo diesel.
Sem usados, não há escala
O raciocínio é relativamente simples. Sem compradores para os veículos usados, o valor residual cai. E com menor valor residual, o custo total de propriedade aumenta e a adoção da tecnologia desacelera.
Na avaliação dos participantes do painel, a criação de um mercado secundário será fundamental para democratizar o acesso aos veículos de baixa emissão e permitir que a tecnologia avance além das grandes transportadoras e projetos-piloto.
A questão ganha ainda mais relevância diante do peso do transporte na matriz energética brasileira. O setor responde por cerca de 33% do consumo de energia do país, superando a indústria, mas continua fortemente dependente dos combustíveis fósseis.
Rotas regionais podem formar primeiros compradores
A gerente institucional da Compagas, Ana Paula Feitoza, acredita que operações dedicadas e rotas curtas deverão ser os primeiros ambientes a absorver os caminhões usados movidos a gás e biometano. Segundo ela, corredores regionais e trajetos previsíveis oferecem condições ideais para reduzir riscos operacionais e criar liquidez para esses ativos.
“Sabemos que existe um mercado muito latente. Esse mercado pode ser justamente quem vai comprar esse caminhão de revenda”, afirmou. A executiva citou como exemplo os chamados microcorredores desenvolvidos no Paraná, aproveitando a produção descentralizada de biometano em propriedades rurais e pequenas plantas regionais para abastecer operações de curta distância.
Experiência internacional
Os participantes do evento destacaram que mercados mais maduros demonstram a importância da infraestrutura para o desenvolvimento do mercado secundário. Nos Estados Unidos, existem atualmente cerca de 175 mil veículos pesados movidos a gás, dos quais aproximadamente 94% utilizam biometano, apoiados por uma rede de 1.466 postos distribuídos por 47 estados.
Na Europa, países como Alemanha, França e Suécia também avançaram na utilização do biometano no transporte pesado por meio da combinação de incentivos regulatórios, expansão da infraestrutura e estímulos à demanda.
Na avaliação dos executivos presentes no evento, a consolidação dos corredores de abastecimento deverá desempenhar papel semelhante no Brasil, reduzindo riscos operacionais e contribuindo para a formação de um mercado secundário e aumentando a previsibilidade do valor residual desses ativos.
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