A crise no mercado de caminhões já começou a provocar um ajuste significativo nas fábricas. Na comparação entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo período de 2025, as montadoras de veículos pesados passaram a empregar 2.300 trabalhadores a menos, o equivalente a cerca de 10% do efetivo do segmento, segundo informou a Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) à Agência Transporte Moderno. O dado representa a diferença no nível de emprego entre os dois semestres e não, necessariamente, o total de demissões realizadas entre janeiro e junho.
Como caminhões e chassis de ônibus são produzidos, em geral, nas mesmas plantas industriais, a entidade afirma que não é possível separar quantas dessas vagas correspondem a cada segmento.
A redução do quadro de funcionários acompanha a desaceleração da produção de caminhões, o que levou as montadoras a diminuir o ritmo das linhas de montagem ao longo dos seis primeiros meses do ano. Entre janeiro e junho, foram produzidos 56.798 caminhões, queda de 14,4% em relação às 66.371 unidades fabricadas no mesmo período de 2025.
O segmento de ônibus, por sua vez, seguiu na direção oposta e registrou crescimento de 3,2% no semestre. A produção passou de 15.742 unidades, entre janeiro e junho de 2025, para 16.241 unidades no mesmo intervalo deste ano. O avanço, porém, não foi suficiente para compensar a forte retração dos caminhões.
No consolidado, a produção de veículos pesados somou 73.039 unidades no primeiro semestre de 2026, ante 82.113 unidades registradas no mesmo período do ano passado, uma redução de 11,1%.
O desempenho dos pesados contrasta com o restante da indústria automobilística. Enquanto automóveis e comerciais leves continuam sustentando o crescimento da produção nacional, a fraqueza do mercado de caminhões tem levado as montadoras a reduzir o ritmo das fábricas. Consultada, a Anfavea não revelou qual é o nível de ociosidade das fábricas nem em quantos turnos, em média, elas estão operando.
Para o restante do ano, a perspectiva permanece de retração. A Anfavea projeta que a produção de caminhões encerre 2026 em 118.153 unidades, queda de 4,8% em relação às 124.116 produzidas em 2025. Ainda assim, a produção total da indústria deverá crescer 5,8%, alcançando 2,798 milhões de veículos, impulsionada principalmente pelos segmentos de automóveis e comerciais leves.
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Sem nova fase do Move Brasil
Nem mesmo as duas etapas do programa de renovação de frota do Governo Federal Move Brasil foram suficientes para reverter a queda nas vendas de caminhões e evitar a retração da produção. Para piorar o cenário, a Anfavea não espera uma terceira fase do programa de incentivo neste ano. Segundo o presidente da entidade, Igor Calvet, o governo informou que não há espaço fiscal nem tempo hábil para lançar uma nova rodada de estímulos.
“Já ouvi isso de autoridades tanto pela questão fiscal quanto pela questão eleitoral. A partir de determinado período, o governo também não pode lançar um novo programa”, afirmou.
De acordo com Calvet, os recursos remanescentes das duas etapas do Move Brasil serão os únicos estímulos disponíveis para o mercado de caminhões no restante do ano. Com isso, a expectativa da entidade é de um segundo semestre ainda mais desafiador.
Apesar disso, Calvet ressaltou que o Move 1 e o Move 2 ajudaram a reduzir a intensidade da retração. “O Move 1 e o Move 2 foram fundamentais este ano. O governo fez um esforço gigantesco para disponibilizar esses recursos ao setor. Infelizmente, eles não foram suficientes para reverter o quadro negativo. Conseguiram diminuir a queda.”
Segundo a Anfavea, a expectativa é de um segundo semestre ainda difícil para os próximos meses, diante da manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado, do cenário ainda desafiador para o agronegócio e da ausência de novos incentivos para a renovação da frota.
Por isso, a entidade também revisou para baixo sua projeção para a venda de caminhões em 2026 e agora estima que a indústria encerrará o ano com 106,7 mil unidades. O volume representa uma queda de cerca de 5,9% em relação às 113,4 mil unidades produzidas em 2025.
Durante a apresentação das projeções do setor automotivo, Calvet afirmou que a indústria perdeu, em apenas dois anos, um volume equivalente ao tamanho do mercado argentino de caminhões. “Em dois anos, estamos falando de menos 18 mil unidades”, afirmou.
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