Tecnologia pode ajudar a resolver principal gargalo do Free Flow: a inadimplência

Parceria traz ao Brasil tecnologia já testada nos Estados Unidos que transforma celulares em identificadores de pagamento automático em rodovias

Aline Feltrin

O avanço do sistema de pedágio eletrônico sem cancelas (Free Flow) no Brasil pode ganhar um novo capítulo nos próximos meses. A norte-americana TransCore e o Grupo Pumatronix anunciaram uma parceria para introduzir no país uma tecnologia capaz de substituir as tradicionais tags de pedágio por smartphones, reduzindo custos operacionais e ampliando o acesso ao sistema para motoristas que ainda não utilizam dispositivos de identificação automática.

A solução, que já está em fase de operação e homologação nos Estados Unidos, utiliza a comunicação via Bluetooth para transformar o celular do usuário em um identificador eletrônico. Na prática, o motorista baixa um aplicativo e cadastra seu veículo. Ao se aproximar do pórtico de cobrança, o sistema reconhece automaticamente o smartphone e realiza a cobrança sem necessidade de uma tag física instalada no para-brisa. Segundo Sylvio Calixto, presidente do Grupo Pumatronix, a expectativa é iniciar ainda neste ano os processos necessários para viabilizar a adoção da tecnologia no Brasil.

“Já temos um parceiro que se dispôs a participar dos testes e, neste momento, estamos aguardando a conclusão do piloto que está sendo realizado nos Estados Unidos. A expectativa é avançar com essa iniciativa ainda este ano”, afirmou.

A tecnologia é patenteada pela TransCore, empresa que atua há mais de 80 anos no setor de mobilidade e infraestrutura viária e que possui presença no mercado norte-americano de pedágio eletrônico.

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Alternativa para ampliar adesão ao Free Flow

A proposta surge em um momento em que o Brasil enfrenta desafios para ampliar a adesão ao modelo Free Flow. Embora a tecnologia elimine as praças físicas de pedágio e permita a cobrança automática sem redução de velocidade, muitos usuários ainda encontram dificuldades relacionadas ao pagamento, especialmente motoristas autônomos e proprietários de veículos que não utilizam tags.

O tema ganhou relevância nos últimos meses diante do aumento das discussões sobre inadimplência nos sistemas de livre passagem. Um dos principais desafios apontados por concessionárias e órgãos reguladores é justamente a dificuldade de parte dos usuários em identificar cobranças, localizar canais de pagamento e regularizar débitos dentro dos prazos estabelecidos.

Segundo os executivos da TransCore, os problemas observados no Brasil não são exclusivos do país. Durante a expansão do Free Flow nos Estados Unidos, questões relacionadas à comunicação com os usuários, interoperabilidade entre operadores e adaptação dos motoristas aos novos meios de pagamento também precisaram ser enfrentadas. “Chegamos à conclusão de que o principal problema é a comunicação”, afirmou Rodrigo DePaula, vice-presidente de operações da TransCore para a América Latina.

Nos Estados Unidos, a complexidade é ainda maior. Diferentes estados operam sistemas próprios de cobrança eletrônica, com múltiplos fornecedores de tags, protocolos de radiofrequência e regras distintas de interoperabilidade. Segundo a empresa, a experiência acumulada ao longo de décadas permitiu desenvolver soluções capazes de simplificar a experiência do usuário e ampliar a eficiência operacional.

De acordo com os executivos, a substituição da tag pelo smartphone pode reduzir significativamente os custos de emissão, distribuição e manutenção dos dispositivos eletrônicos, além de facilitar a adesão de novos usuários. “A maior parte das pessoas já possui um smartphone. Isso permite oferecer um serviço com custo praticamente zero para o usuário e para os operadores”, explicou DePaula,

A solução também mantém a leitura de placas como mecanismo complementar de identificação, aumentando a confiabilidade das transações e ajudando a combater fraudes. Além disso, o modelo busca atender um público que hoje apresenta baixa adesão às tags, como caminhoneiros autônomos e pequenos transportadores. Segundo a Pumatronix, a eliminação da necessidade de instalação de dispositivos físicos e de cobranças recorrentes pode contribuir para ampliar o uso do pagamento automático nas rodovias brasileiras.

Inteligência artificial e dupla validação

Além do uso do smartphone, a plataforma combina tecnologias de visão computacional, inteligência artificial e sensores para identificar características físicas dos veículos, contar eixos, medir dimensões e validar a categoria tarifária de forma automática. A combinação de múltiplas tecnologias permite alcançar índices de precisão superiores aos obtidos apenas com a leitura de placas, afirmam as empresas.

“O sistema utiliza análise de imagens, sensores tridimensionais e identificação eletrônica para realizar uma dupla validação, aumentando a confiabilidade da cobrança e reduzindo erros de classificação”, afirmou DePaula. A tecnologia também pode ser integrada a sistemas de pesagem em movimento (WIM), permitindo verificar excesso de peso, identificar eixos suspensos e auxiliar ações de fiscalização.

De acordo com os executivos, a utilização de inteligência artificial permite identificar características como marca, modelo, cor e categoria dos veículos, reduzindo falhas de classificação e ajudando a evitar cobranças incorretas, uma das reclamações recorrentes em operações de Free Flow.

Benefícios para a logística

A experiência acumulada pela TransCore nos Estados Unidos aponta ganhos operacionais relevantes com a adoção do Free Flow em larga escala. Segundo a empresa, projetos implementados na Flórida registraram redução próxima de 30% nos acidentes de trânsito após a eliminação das praças convencionais de pedágio. Outros benefícios observados incluem diminuição do tempo de viagem, redução do consumo de combustível e menor emissão de poluentes, já que os veículos deixam de desacelerar e acelerar repetidamente ao longo do percurso.

“O Free Flow traz ganhos para a fluidez do tráfego e para a eficiência logística. Quando eliminamos os pontos de parada, reduzimos congestionamentos e aumentamos a capacidade da rodovia”, DePaula.

Os executivos afirmam que a migração para o modelo sem cancelas exigiu um longo processo de adaptação nos Estados Unidos, envolvendo campanhas de comunicação, integração dos meios de pagamento e aprimoramento dos sistemas de cobrança. Para eles, o Brasil passa por uma etapa semelhante e deverá evoluir à medida que os usuários se familiarizem com o novo formato.

Mercado em expansão

A parceria prevê uma divisão clara de responsabilidades. A TransCore será responsável pelas tecnologias embarcadas nos pórticos de captura de dados, enquanto o Grupo Pumatronix atuará nas camadas de processamento, integração, meios de pagamento e adaptação das soluções às exigências regulatórias brasileiras.

O grupo brasileiro reúne empresas especializadas em monitoramento de tráfego, pesagem dinâmica, sensores ambientais, gestão de infraestrutura urbana e soluções de pagamento para pedágios.

A estrutura do Free Flow é composta por três camadas tecnológicas: a captura de dados em campo, o processamento e validação das informações e o back office responsável pela integração financeira e pelos meios de pagamento. A parceria une a experiência da TransCore na operação dos pórticos com a atuação da Pumatronix e da Movvia nos sistemas de processamento e cobrança.

Para as empresas, o crescimento das concessões rodoviárias e a expansão dos projetos de Free Flow criam um cenário favorável para a introdução de novas tecnologias no país.

“Acreditamos que o mercado brasileiro ainda está apenas começando. O desafio agora é reduzir custos, simplificar a experiência do usuário e aumentar a confiabilidade dos sistemas”, conclui Calixto.

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