Move Brasil 2 já libera R$ 3 bilhões em menos de uma semana e pode ficar sem recursos em julho

Scania aprovou R$ 310 milhões em apenas dois dias; Volvo prevê esgotamento da verba para frotistas na segunda quinzena de julho

Aline Feltrin

O Move Brasil 2 começou em ritmo acelerado e já contratou mais de R$ 3 bilhões em financiamentos na primeira semana de operação, segundo informações do presidente da Anfavea, Igor Calvet, durante um encontro com a imprensa especializada na manhã desta quarta-feira (3).

O volume corresponde a aproximadamente 15% dos R$ 21,2 bilhões disponibilizados pelo governo federal para a renovação de frotas de caminhões, ônibus e implementos rodoviários. Os números reforçam a percepção da indústria de que a segunda edição do programa está avançando mais rapidamente que a primeira e poderá consumir boa parte dos recursos já nas próximas semanas.

A avaliação encontra respaldo nas projeções da Volvo Caminhões. Segundo Alcides Cavalcanti, diretor da montadora, os recursos destinados aos frotistas deverão estar comprometidos até a segunda quinzena de julho. “Já esperávamos esse movimento e foi exatamente o que aconteceu. Muitos clientes que planejavam renovar a frota ao longo do ano decidiram antecipar as compras para garantir acesso aos recursos”, afirmou.

A segunda fase do programa entrou em vigor em 29 de maio com R$ 21,2 bilhões em recursos, sendo R$ 17 bilhões destinados ao segmento de caminhões, R$ 2 bilhões para ônibus e R$ 2 bilhões para transportadores autônomos.

Os primeiros resultados divulgados pelos bancos ligados às montadoras mostram a velocidade da demanda. O Scania Banco informou ter aprovado R$ 310 milhões em financiamentos nos dois primeiros dias do programa. O volume envolveu mais de 280 operações e a comercialização de 364 bens, entre caminhões, ônibus, implementos rodoviários e carrocerias.

O montante já representa cerca de 30% de tudo o que a instituição aprovou durante o Move Brasil 1, quando viabilizou mais de R$ 1 bilhão em financiamentos e a venda de mais de 1.250 caminhões.

“O Move Brasil é um catalisador importante para a modernização do transporte no país”, afirmou Oscar Jaern, presidente da Scania Serviços Financeiros Brasil.

Para Fabio D’Angelo, diretor comercial do Scania Banco, o programa oferece uma janela de oportunidade que exige rapidez dos clientes. “O Move Brasil 2 abre uma janela importante de oportunidades, com recursos relevantes e condições competitivas, mas com prazo limitado”, destacou.

Antecipação de compras acelera consumo dos recursos

Segundo Cavalcanti, da Volvo, a procura está sendo impulsionada principalmente pela antecipação de investimentos que ocorreriam ao longo do segundo semestre. Transportadoras que aguardavam uma possível queda dos juros ou planejavam renovar a frota mais adiante decidiram acelerar as decisões para garantir acesso às linhas subsidiadas.

Informações preliminares obtidas pela Volvo indicavam que cerca de R$ 2,5 bilhões já haviam sido contratados poucos dias após a abertura do programa, corroborando os números citados pela Anfavea. “O financiamento aprovado garante a reserva dos recursos, mesmo que o faturamento do caminhão ocorra posteriormente. Os clientes têm até três meses para concluir a operação”, explicou Cavalcanti.

Para a Volvo, o Move Brasil tornou-se um dos principais fatores de sustentação do mercado brasileiro de caminhões em 2026. No primeiro trimestre, os emplacamentos acumulavam retração próxima de 28% na comparação com igual período do ano passado. Com a recuperação observada em abril e maio, a queda diminuiu para cerca de 15%.

Ainda assim, a expectativa da fabricante é que o mercado encerre 2026 entre 10% e 15% abaixo do resultado registrado em 2025. “O Move Brasil está ajudando a sustentar o mercado. Sem esse recurso, a queda poderia ser muito mais acentuada”, afirmou Cavalcanti.

A avaliação é compartilhada por Calvet. Segundo ele, o programa tem sido decisivo para manter o nível de atividade em um ambiente de juros elevados e menor disposição dos transportadores para investir.

Efeito deve chegar até o fim do ano

Apesar da velocidade das contratações, os impactos nos emplacamentos ainda não apareceram integralmente. Segundo Calvet, existe um intervalo entre a aprovação do crédito, a produção dos veículos e a entrega aos clientes. Por isso, mesmo que os recursos sejam totalmente comprometidos em julho, os reflexos sobre as vendas deverão se estender até o último trimestre.

“Se o dinheiro acabar em julho, ainda haverá o processamento dos contratos, a produção e a entrega dos veículos. Isso pode gerar impacto nos emplacamentos até outubro ou novembro”, afirmou.

A expectativa agora é acompanhar se a segunda edição do programa conseguirá ampliar a participação dos transportadores autônomos ou se continuará concentrada principalmente nos grandes operadores de frota.

O forte interesse do mercado reacendeu as discussões sobre a possibilidade de transformar o Move Brasil em uma iniciativa permanente.

Para a Volvo, no entanto, essa discussão depende da disponibilidade de recursos públicos para subsidiar as taxas de financiamento. “É uma iniciativa que exige aporte de recursos. Tudo depende da capacidade de o governo e os agentes financeiros sustentarem esse subsídio ao longo do tempo”, afirmou Cavalcanti.

Enquanto isso, a indústria acompanha a velocidade das contratações. Se o ritmo atual for mantido, a segunda edição do programa poderá repetir o fenômeno observado na primeira fase: recursos esgotados em poucas semanas e forte concentração das vendas no período de vigência da linha especial de crédito.

Apesar das discussões sobre a criação de um programa permanente de renovação de frota, o presidente da Anfavea avalia que, no momento, não há perspectiva de novos aportes governamentais após o encerramento do Move Brasil 2. “A indústria continuará defendendo mecanismos que estimulem a modernização da frota nacional, mas o setor já trabalha com a possibilidade de que os recursos atuais sejam os últimos disponíveis no curto prazo.”

Na avaliação do executivo, caberá ao mercado encontrar alternativas para sustentar a demanda por caminhões e ônibus a partir do segundo semestre, quando os recursos do programa estiverem esgotados.

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