Brasil injeta R$ 15 bilhões em hidrovias e construção naval

Desde 2023, o Fundo da Marinha Mercante financia 849 projetos e acelera expansão da navegação interior e do Arco Norte

Valeria Bursztein

O Fundo da Marinha Mercante (FMM), principal mecanismo de financiamento da indústria naval brasileira, apoiando projetos de construção de embarcações, modernização de estaleiros e expansão da infraestrutura aquaviária, comprometeu aproximadamente US$ 2,8 bilhões — cerca de R$ 15 bilhões pelo câmbio atual — para financiar 849 projetos entre 2023 e 2026, reforçando a retomada da indústria naval brasileira e a expansão da navegação interior no país.

Os financiamentos são operados por instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, com recursos provenientes principalmente do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), tributo incidente sobre o transporte aquaviário.

Os recursos estão sendo direcionados à construção e modernização de embarcações, ampliação da infraestrutura hidroviária e fortalecimento da logística aquaviária, considerada estratégica para reduzir custos de transporte e ampliar a competitividade das exportações brasileiras.

Os projetos financiados pelo fundo estão distribuídos por diferentes regiões do país. O Amazonas concentra o maior número de iniciativas apoiadas, com 233 projetos e investimentos de aproximadamente US$ 324 milhões. Na sequência aparecem Pará, com 173 projetos e US$ 313 milhões, e Rio de Janeiro, com 135 empreendimentos e cerca de US$ 315 milhões.

Quando o critério é o volume de recursos, Santa Catarina lidera o ranking nacional. O estado reúne 91 projetos que somam aproximadamente US$ 1,1 bilhão em investimentos. Bahia, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul também figuram entre os principais beneficiários da carteira.

O protagonismo dos estados da Região Norte traduz a crescente relevância da navegação interior para o escoamento de commodities e insumos industriais. Corredores hidroviários como os rios Amazonas, Madeira e Tapajós vêm ganhando importância na expansão do Arco Norte, responsável por uma parcela cada vez maior das exportações brasileiras de grãos e minérios.

Embora o Brasil possua uma das maiores redes hidrográficas do mundo, a participação das hidrovias na matriz de transportes ainda é considerada modesta quando comparada ao potencial disponível. Nos últimos anos, governos e operadores logísticos têm ampliado investimentos em embarcações, terminais e infraestrutura fluvial com o objetivo de aumentar a eficiência dos corredores de exportação e reduzir a dependência do transporte rodoviário em longas distâncias.

Construção naval ganha impulso

Entre os empreendimentos apoiados pelo fundo está a Juruá Estaleiro e Navegação, localizada em Iranduba (AM), na região metropolitana de Manaus. A empresa atua na construção de embarcações e estruturas voltadas à navegação interior, incluindo barcaças, rebocadores, empurradores e sistemas de transbordo de cargas.

Atualmente, o estaleiro executa a construção de 108 barcaças destinadas à operação da LHG Mining, projeto avaliado em cerca de US$ 148 milhões. Também está em andamento a construção de três empurradores fluviais, iniciativa estimada em aproximadamente US$ 63 milhões.

Os recursos se somam a outros movimentos que impulsionam a retomada da indústria naval brasileira, entre eles as novas encomendas da Transpetro, a expansão da navegação interior na Região Norte e a demanda crescente por embarcações para o transporte de granéis, combustíveis e cargas do agronegócio e da mineração.

Além da geração de empregos diretos nos estaleiros, os investimentos movimentam uma extensa cadeia de fornecedores de aço, motores, sistemas de propulsão, equipamentos eletrônicos e serviços especializados.

Transpetro lidera investimentos

Além da carteira já contratada, o Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante aprovou, nos primeiros meses de 2026, cerca de US$ 2,25 bilhões para novos projetos voltados à construção e modernização de embarcações, estruturas de transbordo e infraestrutura de apoio à navegação interior.

Entre as iniciativas aprovadas está a construção de 36 embarcações para a Transpetro, subsidiária logística da Petrobras responsável pelo transporte e armazenamento de combustíveis. O programa prevê a fabricação de 18 barcaças em Manaus e 18 empurradores em estaleiros de Santa Catarina.

A encomenda integra o plano de renovação e ampliação da frota da companhia e é considerada um dos principais vetores da retomada da construção naval brasileira. Além de ampliar a capacidade operacional da navegação interior, o projeto deverá gerar demanda para estaleiros nacionais e fortalecer a cadeia produtiva do setor.

Apesar da retomada dos investimentos, a indústria naval ainda enfrenta desafios relacionados à formação de mão de obra especializada, ampliação da capacidade produtiva dos estaleiros e manutenção de uma carteira contínua de encomendas capaz de sustentar novos ciclos de expansão.

Para o governo e para os operadores logísticos, a ampliação da navegação interior é vista como uma alternativa para reduzir a pressão sobre corredores rodoviários estratégicos, especialmente nas rotas de exportação do agronegócio que ligam o Centro-Oeste aos portos do Arco Norte.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]

Newsletter O que move o mercado, primeiro para você

Receba as principais notícias, análises e tendências do transporte moderno diretamente no seu e-mail e acompanhe atualizações em tempo real pelo nosso canal oficial.