Caminhoneiros autônomos acessam apenas 2,2% da verba reservada no Move Brasil 2

Apenas R$ 43,8 milhões foram aprovados até agora; entidades questionam condições de acesso ao financiamento

Aline Feltrin

Em uma semana após o lançamento do Move Brasil 2, os caminhoneiros autônomos haviam acessado R$ 43,8 milhões dos R$ 2 bilhões reservados pelo governo federal para financiar a renovação de suas frotas. O valor representa 2,2% da verba destinada à categoria e evidencia os desafios para transformar a demanda por crédito em contratos efetivamente aprovados.

O desempenho dos autônomos contrasta com o observado entre as empresas de transporte. Em apenas cinco dias após a abertura do programa, os frotistas obtiveram aprovação de R$ 6,58 bilhões em financiamentos, valor cerca de 150 vezes superior ao destinado aos caminhoneiros independentes. Enquanto as empresas responderam por aproximadamente 4,8 mil operações, os autônomos somaram apenas 104 contratos.

A diferença chama atenção porque o governo criou uma reserva exclusiva de R$ 2 bilhões para transportadores autônomos de cargas e cooperados pessoa física justamente para ampliar a participação desse público na renovação da frota nacional. Apesar disso, a utilização dos recursos avança em ritmo muito inferior ao registrado entre as empresas.

Entidades representativas da categoria atribuem o resultado a uma combinação de fatores que inclui exigências bancárias, dificuldades na comprovação de renda e custos adicionais associados às operações de crédito.

O baixo volume de contratações preocupa porque os caminhoneiros autônomos concentram justamente a parcela mais envelhecida da frota nacional. Segundo o Anuário do Transporte Rodoviário de Cargas 2025 da ANTT, a idade média da frota dos Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) é de 24,4 anos, contra 9,8 anos das empresas transportadoras. A idade média geral da frota registrada no RNTRC é de 16,8 anos. Seja como for, a renovação dessa frota é um dos principais objetivos do Move Brasil

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Fundo garantidor gera insatisfação

A principal reclamação apresentada pelos representantes dos caminhoneiros diz respeito ao Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), mecanismo utilizado para reduzir o risco das operações.

Durante reunião promovida pela Secretaria-Geral da Presidência da República com representantes do BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e lideranças do transporte rodoviário, dirigentes sindicais manifestaram preocupação com o impacto da cobrança sobre o custo final dos financiamentos. Segundo informações apresentadas pelo BNDES durante o encontro, a taxa relacionada ao fundo pode partir de 3% sobre o valor financiado e ser incorporada às parcelas do contrato.

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) afirma que a cobrança surpreendeu parte da categoria. A entidade argumenta que “o anúncio do programa criou a expectativa de condições mais favoráveis para os caminhoneiros, especialmente após o governo ampliar a participação da União no mecanismo de garantia das operações.”

Para os representantes dos autônomos, o custo adicional pode reduzir a atratividade da linha justamente para os profissionais com menor capacidade financeira.

Bancos mantêm análise rigorosa

Outro ponto levantado pelas entidades é que a existência de recursos reservados não elimina as exigências das instituições financeiras responsáveis pela concessão do crédito.

A análise de risco continua considerando histórico financeiro, capacidade de pagamento, movimentação bancária e eventuais restrições cadastrais. Na prática, caminhoneiros com renda irregular ou dificuldade para comprovar faturamento podem enfrentar obstáculos para aprovação.

Segundo dirigentes sindicais, muitos profissionais procuraram informações sobre o programa desde o lançamento, mas ainda encontram dificuldades para avançar nas negociações junto aos agentes financeiros. A avaliação das entidades é que a reserva de recursos, por si só, não garante que o dinheiro chegue ao público-alvo caso os critérios de aprovação permaneçam distantes da realidade da categoria.

Seminovos são aposta para ampliar adesão

Uma das principais novidades do Move Brasil 2 foi a autorização para financiamento de caminhões e caminhões-tratores seminovos fabricados a partir de 2012 e enquadrados na fase P-7 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve).

A medida atende uma reivindicação antiga dos autônomos, já que os preços dos seminovos são significativamente inferiores aos dos veículos novos e exigem menor capacidade de endividamento.

A expectativa do governo era que a mudança ampliasse o alcance do programa e aumentasse o número de caminhoneiros aptos a contratar financiamento. No entanto, representantes da categoria avaliam que a iniciativa ainda não foi suficiente para superar as barreiras relacionadas ao acesso ao crédito.

No entanto, a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) avalia que o novo desenho do Move Brasil tem impacto direto no mercado de seminovos. Segundo o presidente da entidade, José Éverton Fernandes, o programa passou a permitir o financiamento de seminovos para autônomos, o que ajuda a sustentar o giro do mercado. Ainda assim, o principal gargalo permanece sendo o acesso ao crédito. “O pequeno transportador ainda enfrenta muita dificuldade para aprovar financiamento, mesmo com subsídio”, diz.

Desafio é fazer a reserva chegar aos caminhoneiros

O ritmo das aprovações mostra que os recursos destinados aos autônomos estão longe de se esgotar. Dos R$ 2 bilhões reservados para a categoria, mais de R$ 1,95 bilhão permanece disponível.

O cenário é bem diferente do observado entre as empresas de transporte, que concentraram R$ 6,58 bilhões em aprovações poucos dias após a abertura do programa.

Em outras palavras, para cada R$ 1 aprovado para caminhoneiros autônomos, os frotistas receberam aproximadamente R$ 150 no mesmo período. Para sindicatos e federações, os próximos meses serão decisivos para avaliar se o Move Brasil 2 conseguirá cumprir a promessa de ampliar o acesso dos autônomos ao crédito ou se repetirá as dificuldades observadas em programas anteriores de renovação de frota.

Enquanto isso, entidades ligadas ao setor intensificam ações de orientação sobre documentação, cadastro e condições de financiamento, numa tentativa de aumentar a participação dos caminhoneiros independentes e acelerar a utilização dos recursos reservados pelo governo federal.

FGI vira principal foco de críticas

O Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) tornou-se o principal ponto de divergência entre os caminhoneiros autônomos e os operadores do Move Brasil 2. Segundo a CNTA, a cobrança do mecanismo não estava clara para parte da categoria e pode elevar o custo efetivo das operações.

Durante reunião com entidades do setor, o BNDES apresentou uma simulação indicando que um financiamento de R$ 200 mil em 80 meses pode alcançar taxa final próxima de 13,2% ao ano após a inclusão dos custos associados ao fundo. As lideranças defendem maior participação da União nas garantias para reduzir o impacto financeiro sobre os transportadores independentes e ampliar o acesso ao crédito.

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