O novo ciclo de crédito subsidiado para renovação de frota abriu uma janela rara para o setor de transporte rodoviário em um ambiente ainda marcado por juros elevados. Com R$ 21,2 bilhões disponíveis na nova etapa do programa Move Brasil, por meio da linha BNDES Renovação de Frota, transportadoras voltaram a acelerar negociações para compra de caminhões, ônibus, implementos rodoviários e veículos comerciais. Em algumas instituições financeiras, os recursos têm sido consumidos rapidamente.
Mas, por trás do apetite pelo crédito mais barato, cresce um sinal de alerta dentro do próprio setor: parte relevante das empresas interessadas em renovar a frota já opera com margens comprimidas, fluxo de caixa pressionado e elevado grau de endividamento. Essa é a constatação do advogado Gustavo Maffioletti, sócio fundador da Mafiolletti & Arndt Advogados.
Em entrevista à Agência Transporte Moderno, o advogado explicou que o receio é que o crédito subsidiado acabe funcionando, em alguns casos, como um paliativo temporário para operações financeiramente fragilizadas — e não necessariamente como vetor de ganho de produtividade.
“O crédito barato não resolve uma operação que já nasceu desequilibrada. Muitas empresas acreditam que colocar mais caminhões na estrada automaticamente aumenta resultado. Mas, se o frete está defasado, o prazo de recebimento é longo e a margem já foi comprimida pelos custos, o financiamento pode apenas ampliar o problema”, analisa o advogado.
Dados da associação que representa o banco de montadoras, a Anef, realçam a análise e mostram que a inadimplência nas operações corporativas de financiamento de veículos voltou a ganhar força ao longo de 2025, em linha com o cenário mais desafiador enfrentado pelo setor de transporte rodoviário. Na carteira de CDC para pessoa jurídica, os atrasos entre 15 e 90 dias passaram de 4,1% em dezembro de 2024 para 4,9% em dezembro de 2025, alta de 0,8 ponto percentual em 12 meses. Já no leasing corporativo, a inadimplência subiu de 0,6% para 1,5% no mesmo período.
O movimento ocorre em um ambiente marcado por juros elevados, crédito mais caro, aumento do custo operacional e desaceleração econômica, fatores que pressionam especialmente transportadoras e frotistas, altamente dependentes de financiamento para renovação de frota.
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Mudança na dinâmica financeira
O advogado relembra que nos últimos cinco anos, o transporte rodoviário brasileiro passou por uma mudança estrutural em sua dinâmica financeira. Segundo estimativas de Maffioletti, os principais insumos da operação — diesel, pneus, peças, manutenção, pedágio e mão de obra — acumularam alta próxima de 60% no período. O frete, porém, avançou apenas entre 30% e 35%. Na prática, isso reduziu drasticamente a rentabilidade média das transportadoras.
“O setor operava historicamente com margens próximas de 12%. Hoje, uma operação considerada muito bem estruturada trabalha perto de 5%”, diz Maffioletti. “Qualquer oscilação no diesel, aumento de sinistralidade, problema trabalhista ou atraso de embarcador já compromete o caixa”, alerta.
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Excesso de oferta
A deterioração financeira ocorre justamente em um mercado extremamente pulverizado, com excesso de oferta de transporte e forte dependência comercial de grandes embarcadores. Na prática, muitas transportadoras acabam financiando seus próprios clientes ao absorver prazos longos de pagamento enquanto mantêm despesas operacionais imediatas. O descasamento é conhecido no setor: combustível, motorista, pedágio, manutenção e seguro são pagos diariamente ou semanalmente, enquanto parte relevante da receita entra em 60, 90 ou até mais dias.
“Quem define a regra muitas vezes é o embarcador”, afirma o advogado. “Existe uma dependência muito grande de poucos clientes. A transportadora assume financiamento, amplia estrutura para atender determinada operação e depois fica presa àquele contrato, mesmo sem margem adequada.”
O problema se torna ainda mais delicado quando o crescimento da frota ocorre sem planejamento financeiro ou gestão profissionalizada. Para o especialista, o setor vive hoje uma mudança cultural semelhante à que outros segmentos já enfrentaram nos últimos anos: não basta mais crescer em faturamento; é preciso preservar geração de caixa e rentabilidade operacional.
“Durante muito tempo, muitas empresas conseguiam sobreviver sem gestão financeira sofisticada. Hoje isso acabou. Quem não conhece exatamente sua margem por rota, custo financeiro, prazo médio de recebimento e necessidade de capital de giro corre risco real de entrar em um ciclo permanente de renegociação.”
Escalada de recuperação judicial
O aumento dos pedidos de recuperação judicial no país ajuda a dimensionar esse ambiente de pressão financeira. Dados da Serasa Experian mostram que o Brasil registrou quase 2.500 pedidos de recuperação judicial em 2025, no maior patamar da série recente. Embora não exista um recorte consolidado exclusivamente para transportadoras, especialistas do setor afirmam que transporte e agronegócio aparecem entre os segmentos mais pressionados.
O movimento tem sido impulsionado justamente pela combinação de juros elevados, aumento dos custos operacionais, queda de margem e alongamento do ciclo financeiro.
Segundo o advogado, além disso, parte dos financiamentos contratados entre 2022 e 2023 — muitos deles com períodos de carência — começou agora a entrar em fase mais pesada de amortização, levando empresas a renegociar parcelas ou buscar proteção judicial. Ele alerta para casos em que a recuperação judicial passou a ser vista pelo mercado quase como ferramenta automática de reorganização financeira.
“Existe hoje uma banalização perigosa da recuperação judicial em alguns segmentos”, afirma. “A RJ é importante e cumpre um papel legítimo de preservação da empresa, mas ela não cura uma operação inviável. Se a empresa não gera caixa operacional nem sem o peso do financiamento, a recuperação judicial apenas posterga um problema estrutural.”
O risco, segundo ele, é de efeito em cadeia. Quando uma transportadora entra em recuperação judicial, o impacto se espalha rapidamente para fornecedores, postos de combustível, oficinas, seguradoras, agregados e embarcadores.
Apesar do cenário de atenção, o Move Brasil pode representar uma oportunidade relevante para empresas organizadas financeiramente e com planejamento operacional sólido. “Transportadoras com boa gestão de caixa, contratos equilibrados, política de reajuste de frete e controle de custos tendem a capturar ganhos relevantes com renovação de frota, sobretudo pela redução de manutenção, maior eficiência energética e ganho operacional”, conclui. “Quem está organizado consegue transformar esse momento em ganho de produtividade e expansão”, afirma Maffioletti. “Mas quem entra no crédito apenas para ganhar fôlego, sem resolver gestão, margem e fluxo de caixa, pode ampliar o nível de endividamento.”
Na avaliação dele, o setor de transporte entra agora em uma nova fase, em que governança financeira passa a ser tão importante quanto capacidade operacional. “O caminhão continua sendo o ativo central do transporte. Mas hoje o diferencial competitivo está cada vez mais na gestão.”
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