Scania testa na Europa tecnologia que transforma caminhões elétricos em “usinas móveis” de energia

Montadora sueca realiza uma das primeiras demonstrações do mundo de um sistema que permite devolver energia dos veículos para a rede elétrica, com carregamento em megawatts para caminhões pesados

Aline Feltrin

A Scania realizou na Europa uma das primeiras demonstrações do mundo de tecnologia vehicle-to-grid (V2G) — sistema que permite que veículos elétricos devolvam energia para a rede elétrica — aplicada a caminhões pesados utilizando o sistema de carregamento ultrarrápido Megawatt Charging System (MCS). O projeto marca um novo passo da eletrificação no transporte pesado ao mostrar que os veículos poderão deixar de ser apenas consumidores de energia para atuar também como ativos do sistema elétrico.

Na prática, os caminhões passam a funcionar como grandes baterias móveis conectadas à rede elétrica. Quando estacionados em centros logísticos ou garagens, os veículos conseguem devolver energia para a rede ou utilizá-la dentro da própria operação da transportadora, ajudando no equilíbrio energético e na redução de picos de consumo.

A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a TRATON Group e surge em um momento em que o avanço da eletrificação do transporte pesado começa a elevar a pressão sobre as redes elétricas em diferentes mercados.

Segundo a Scania, o sistema permite que as frotas participem de serviços de flexibilidade energética, como balanceamento da rede, armazenamento de energia e redução de demanda em horários de pico. A tecnologia também pode ajudar operadores logísticos a reduzir custos operacionais relacionados à eletricidade, um dos principais desafios para a viabilidade econômica dos caminhões elétricos.

“Os caminhões elétricos não apenas consumirão eletricidade, mas também poderão se tornar um recurso ativo no sistema energético”, afirmou Tobias Ejderhamn, gerente global de transformação e novos negócios da Scania.

A demonstração utilizou o padrão MCS, tecnologia considerada estratégica para viabilizar operações elétricas de longa distância no transporte pesado. O sistema alcançou potência de até 750 kW e corrente de 1.000 amperes, permitindo tanto o carregamento ultrarrápido quanto o fluxo bidirecional de energia.

Além da transferência de energia em duas direções, o projeto também integra comunicação em tempo real entre caminhão, carregador e sistemas de gerenciamento energético. Segundo Yorben Muller, gerente de produto de carregamento da TRATON, o diferencial está justamente na combinação entre recarga em megawatts e inteligência energética.

“O caminhão, o carregador e o sistema energético conseguem se comunicar em tempo real, criando as bases para que veículos pesados elétricos se tornem ativos controláveis do sistema energético”, afirmou.

A Scania destaca que o conceito pode melhorar o aproveitamento de fontes renováveis, como energia solar gerada nos próprios centros logísticos, além de aumentar a flexibilidade das operações em relação à infraestrutura elétrica disponível.

Inicialmente, a tecnologia deve ser aplicada principalmente em operações de carregamento em depósitos logísticos, onde os veículos permanecem estacionados por períodos mais longos e o gerenciamento energético pode ser coordenado de forma mais eficiente.

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Estratégia de eletrificação no Brasil

O desenvolvimento europeu também conversa diretamente com a estratégia que a Scania vem desenhando para a expansão dos caminhões elétricos em outros mercados, incluindo a América Latina. A montadora já afirmou que pretende repetir nos elétricos a mesma lógica utilizada no desenvolvimento dos caminhões a gás: avanço gradual, construção de infraestrutura e desenvolvimento conjunto com clientes e parceiros.

A produção nacional de caminhões elétricos da Scania no Brasil está prevista para começar em 2027, na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Atualmente, os modelos elétricos da marca chegam ao país por importação, com foco inicial em operações urbanas e rotas regionais previsíveis.

A empresa também já vem discutindo com distribuidoras de energia e clientes questões ligadas à infraestrutura elétrica necessária para suportar grandes frotas eletrificadas, tema que ganha ainda mais relevância diante de tecnologias como o vehicle-to-grid.

O movimento reforça como a eletrificação do transporte pesado deixou de envolver apenas motores e baterias e passou a incluir também infraestrutura energética, inteligência de rede e novos modelos de negócios para transportadoras e operadores logísticos.

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