Caminhões a biometano ganham força na descarbonização do transporte no Brasil

Estudo mostra avanço dos caminhões a gás no transporte pesado, enquanto montadoras e transportadoras ampliam investimentos em biometano e infraestrutura de abastecimento

Aline Feltrin

Desde que a empresa iniciou as vendas de caminhões a gás no Brasil, em 2019, a maior parte dos pedidos de caminhão a gás vem de transportadores que atuam com cargas industriais

Apesar de ainda representarem menos de 1% dos emplacamentos do transporte rodoviário de carga no Brasil, os caminhões movidos a gás começam a ganhar espaço em operações estratégicas e acelerar a transição energética do setor logístico.

Levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) mostra que, em 2025, foram registrados quase 3,7 mil novos veículos comerciais movidos por combustíveis alternativos no país — mais que o dobro do volume observado em 2023 e cerca de sete vezes acima do registrado em 2021.

Dados da Anfavea, associação que representa as montadoras no Brasil, reforçam esse movimento. Entre janeiro e dezembro de 2025, os emplacamentos de caminhões e ônibus movidos a gás chegaram a 669 unidades no Brasil. Já em 2026, até abril, o segmento acumulava 236 licenciamentos, com participação de mercado subindo de 0,5% para 0,8%.

Apesar do crescimento, os veículos a diesel ainda dominam amplamente o mercado brasileiro. Em 2025, foram mais de 135,5 mil licenciamentos, equivalentes a 98,6% do total.

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Plano ambicioso

A mudança de perfil das frotas já começa a sair do campo dos testes e ganhar escala operacional. Um dos exemplos mais relevantes vem da Copersucar, que trabalha para substituir gradualmente cerca de 500 caminhões movidos a diesel por modelos abastecidos com biometano no transporte de açúcar e etanol.

A companhia já opera aproximadamente 70 veículos a gás na chamada operação BioRota e afirma que o custo operacional do biometano pode ser entre 20% e 25% menor que o do diesel, além de reduzir em até 90% as emissões de CO₂.

O avanço reflete uma mudança gradual no perfil das frotas brasileiras, impulsionada por metas de descarbonização, pressão de embarcadores por operações de menor emissão e ampliação da oferta de veículos pelas montadoras.

Na avaliação do ILOS, porém, a transição não ocorrerá por meio da substituição completa do diesel por uma única tecnologia. O cenário que começa a se consolidar é de coexistência entre diferentes matrizes energéticas conforme o perfil operacional das rotas.

Avanço nas rotas longas

Entre as alternativas ao diesel, os caminhões a gás aparecem como opção mais aderente ao transporte de média e longa distância. Segundo o ILOS, esse movimento está diretamente ligado à expansão dos corredores de abastecimento, ao crescimento da oferta de biometano e à necessidade das transportadoras de reduzir emissões sem comprometer autonomia e produtividade operacional.

Na prática, os modelos movidos a gás conseguem atender operações rodoviárias mais extensas com características próximas às do diesel, incluindo tempo de abastecimento reduzido e maior alcance em comparação aos veículos elétricos pesados.

O avanço do biometano também fortalece o interesse do setor. Produzido a partir de resíduos orgânicos, o combustível vem sendo incorporado às estratégias ESG de embarcadores e operadores logísticos interessados em reduzir a pegada de carbono do transporte.

Disputa entre marcas

O movimento também começa a acirrar a disputa entre montadoras. A Scania lidera atualmente o segmento de caminhões a gás no Brasil, com cerca de 2,5 mil veículos emplacados desde o início da operação comercial da tecnologia no País.

A Iveco também atua nesse nicho, com aproximadamente 50 unidades comercializadas, enquanto novas concorrentes começam a entrar na disputa.

Mais recentemente, a JAC Motors passou a operar caminhões a gás em uma operação dedicada em parceria com a Green Cargo, ampliando sua presença no segmento de combustíveis alternativos no Brasil.

Já a Volkswagen Caminhões e Ônibus iniciou há alguns meses testes de seu caminhão movido a biometano, o Constellation 26.280, desenvolvido inicialmente para aplicações de coleta de resíduos. O modelo começou a operar em São Paulo com um cliente estratégico da montadora e foi apresentado como conceito durante a Fenatran 2024.

Elétricos avançam na distribuição urbana

Os veículos eletrificados também seguem em expansão no país, principalmente em operações urbanas e regionais, onde há menor distância percorrida e maior previsibilidade para recarga.

Dados da Anfavea mostram que os emplacamentos de caminhões e ônibus elétricos somaram 1.255 unidades em 2025. Já nos primeiros quatro meses de 2026, o segmento acumulou 307 unidades licenciadas, elevando sua participação de mercado de 0,9% para 1%.

Segundo a análise do ILOS, aplicações como distribuição urbana, entregas de última milha e operações dedicadas oferecem ambiente mais favorável para a eletrificação, especialmente pela possibilidade de centralizar a recarga em centros de distribuição e garagens.

Além da redução de emissões, empresas apontam ganhos com menor custo de manutenção e redução de ruído nas operações urbanas. Ainda assim, o alto custo inicial dos caminhões elétricos e a limitação da infraestrutura pública de recarga seguem como obstáculos para expansão mais acelerada no transporte pesado de longa distância.

Transição aumenta complexidade logística

O ILOS avalia que a entrada de novos combustíveis aumenta a complexidade operacional das empresas de transporte. A adoção de diferentes tecnologias exige revisão de malha logística, planejamento de abastecimento e recarga, análise detalhada de custo total de propriedade (TCO) e adaptação da infraestrutura operacional.

Também entram na conta fatores como disponibilidade regional de combustível, treinamento de equipes, valor residual dos veículos e integração das metas ambientais dos embarcadores à estratégia logística.

Apesar do avanço das alternativas, o diesel continuará predominante no curto e médio prazo. Para o ILOS, a tendência é de uma transição gradual e híbrida no transporte rodoviário de cargas, com diferentes tecnologias convivendo conforme o tipo de operação, disponibilidade de infraestrutura e necessidade de redução de emissões.

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