Ford forma mecânicos para nova geração de veículos

Programa gratuito terá 400 horas e prepara profissionais para manutenção de modelos a combustão, híbridos e elétricos

Valeria Bursztein

A crescente complexidade tecnológica dos veículos está mudando o perfil dos profissionais de manutenção e ampliando a necessidade de mão de obra capacitada para trabalhar com diferentes sistemas de propulsão, eletrônica e alta tensão. De olho nessa demanda, a Ford criou um programa gratuito de formação técnica que pretende preparar novos profissionais para atuar no pós-venda automotivo.

Batizado de Ford <Enter> Auto, o curso começa com 36 vagas, sendo 16 em São Paulo e 20 em Salvador, e terá formação voltada ao diagnóstico e à manutenção de veículos a combustão, híbridos e elétricos. A iniciativa é desenvolvida com a Rede de Concessionárias Ford, Rede Cidadã e Senai.

A primeira turma terá 400 horas de formação e deverá sair preparada para atuar como técnico de nível 1 nas concessionárias, segundo explicou Leandro Borsari, responsável pela Engenharia de Serviço da Ford para a América do Sul, durante apresentação realizada no Ford Academy, em São Paulo.

Esse nível de qualificação, afirmou o executivo, cobre uma parcela relevante dos serviços realizados atualmente na rede. “Hoje, 60%, 70% das passagens da concessionária é um reparo que a gente classifica como nível um”, disse. Segundo ele, o percentual pode variar conforme a região do País.

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Diferentes tecnologias

A formação reflete uma mudança importante nas oficinas. Além dos conhecimentos tradicionais de mecânica, o profissional precisa dominar diferentes tipos de motores e transmissões, sistemas eletrônicos e procedimentos específicos para veículos eletrificados.

No Ford Academy, a capacitação técnica é estruturada em quatro grandes áreas: motores, transmissões, chassi e eletrônica/alta tensão. A diversidade tecnológica aparece mesmo dentro de cada uma delas. Na motorização, por exemplo, os técnicos precisam trabalhar com diesel e gasolina e diferentes ciclos de funcionamento, além da interação entre motores a combustão e elétricos nos sistemas híbridos.

Nos veículos elétricos, a mudança vai além do conhecimento mecânico. Ferramentas específicas, equipamentos de proteção individual e procedimentos de segurança para trabalhar com sistemas de alta tensão passam a integrar a rotina de manutenção.

Foto: OTM Editora / Valeria Bursztein

Formação privilegia diagnóstico e prática

A proposta também é mudar a maneira como o profissional aprende. Em vez de concentrar a formação em aulas teóricas, o Ford Academy trabalha com treinamento prático em veículos e componentes.

“A parte mais importante é você entender as falhas, mexer no motor, mexer na transmissão, mexer no carro completo, mexer no eixo traseiro”, explicou Marcelo Barroso Santos, gerente de Pós-Venda da Ford para a América do Sul. Mais do que executar um procedimento, acrescentou, o técnico precisa aprender “a forma de pensar para raciocinar, construir uma hipótese e uma solução”.

Segundo o executivo, o princípio adotado é o da aprendizagem pela prática. “Em vez de ouvir ou ver, você participa, você mexe, você faz.”

O Ford Academy, instalado no SENAI Ipiranga, em São Paulo, reúne treinamento e outras atividades da engenharia de serviços da montadora. O centro desenvolve e valida literatura técnica, produz conteúdos de capacitação, oferece suporte técnico às oficinas e participa da validação de softwares e do desenvolvimento de acessórios.

O local opera normalmente com cerca de 50 profissionais em treinamento por dia e oferece perto de 100 cursos, dos quais aproximadamente 80% são realizados em formato de e-learning. Os demais são presenciais. “O principal foco aqui é mão na massa. Colocar alguém para sentar vendo PowerPoint é legal, mas não é a parte mais importante”, resumiu Santos.

Curso mira entrada rápida no mercado

O Ford <Enter> Auto foi estruturado como uma extensão do Ford <Enter>, programa criado em 2022 e que já capacitou mais de 2.500 pessoas em situação de vulnerabilidade social na América do Sul para o mercado de tecnologia.

A nova vertente transfere o modelo para os serviços automotivos. Na avaliação de Santos, as 400 horas permitem que uma pessoa sem formação anterior em mecânica adquira uma qualificação inicial para ingressar no setor.

“Em seis meses, pega alguém que não tem um caminho, daqui a seis meses tem uma profissão”, afirmou. O objetivo, explicou, não é formar de imediato um especialista de alta complexidade, mas entregar ao mercado um profissional capaz de realizar serviços básicos de manutenção.

Borsari reforçou que a expectativa é que os 36 participantes da primeira etapa possam ser absorvidos pelas concessionárias Ford, embora a contratação pela rede não seja uma condição do programa.

“São 36 profissionais que a gente vai formar, torcendo para que sejam absorvidos dentro das concessionárias Ford. Se não forem, está tudo bem também. O importante é que são jovens que vão chegar preparados”, afirmou.

O programa prevê expansão para mais três localidades e cerca de 100 novas vagas em 2027. Os alunos recebem ajuda de custo para alimentação e transporte e, ao final, certificação reconhecida nacionalmente e encaminhamento ao mercado de trabalho.


As inscrições para as primeiras turmas estão abertas até 3 de setembro. Podem participar candidatos com 16 anos ou mais, Ensino Médio em curso ou concluído, renda familiar de até quatro salários mínimos e residência nas regiões metropolitanas de São Paulo ou Salvador. Não é necessário conhecimento prévio em mecânica. As aulas começam em outubro.

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