O mercado brasileiro de caminhões voltou a superar o desempenho do ano passado em agosto, mas ainda está distante de uma recuperação consistente. Foram emplacadas 10 mil unidades no mês, crescimento de 12,3% sobre as 8,9 mil registradas em agosto de 2025. No acumulado de janeiro a agosto, porém, as vendas somaram 70,7 mil veículos, queda de 4,9% em relação às 74,3 mil unidades do mesmo período do ano passado.
Os dados foram divulgados nesta terça-feira (8) pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Na comparação com julho, quando foram licenciados 11,6 mil caminhões, o mercado recuou 14,1%.
Apesar da queda mensal, agosto marcou o terceiro mês consecutivo em que os emplacamentos superaram os volumes registrados nos mesmos períodos de 2025. A sequência ajudou a reduzir uma retração que chegou a 31,1% em janeiro, mas não foi suficiente para retirar o setor do campo negativo.
“É uma fotografia do abismo em que nós estávamos e da situação ruim em que estamos agora”, afirmou o presidente executivo da Anfavea, Igor Calvet. “Chegamos a uma queda de 4,9% no acumulado de janeiro a agosto. A nossa expectativa é de que, ao final do ano, tenhamos uma queda de 6%.”
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Queda diminui, mas mercado continua no vermelho
A trajetória acumulada mostra uma recuperação gradual. A retração, que era de 31,1% em janeiro, diminuiu para 28,3% nos dois primeiros meses, 20,7% até março e 15,1% até abril. Após uma piora pontual em maio, quando a queda acumulada ficou em 16,9%, o indicador recuou para 10,5% em junho, 7,2% em julho e 4,9% em agosto.
Embora o movimento sinalize uma redução das perdas, a Anfavea avalia que ainda não há condições para falar em recuperação do mercado. “Não diria que podemos respirar aliviados. Pelo contrário, os números não apontam para isso. Estamos ainda em um ambiente muito ruim, aliás, estressante demais”, disse Calvet.
Segundo o executivo, existe demanda por renovação de frota, mas parte das negociações não avança em razão dos juros elevados e das dificuldades para aprovação de crédito. “As vendas não conseguem ser concretizadas diante da demanda que acompanhamos nesse mercado”, afirmou.
Produção também acumula retração
A produção de caminhões apresentou desempenho positivo em agosto na comparação anual, mas permanece abaixo do volume registrado em 2025. As fabricantes produziram 11,8 mil caminhões no mês, alta de 16,6% sobre as 10,1 mil unidades de agosto do ano passado. Em relação a julho, quando foram fabricados 12,1 mil veículos, houve queda de 2,8%.
No acumulado de janeiro a agosto, saíram das linhas de montagem 80,7 mil caminhões, retração de 8,9% diante das 88,5 mil unidades produzidas no mesmo intervalo de 2025. A queda da produção, mais acentuada que a dos emplacamentos, reforça a cautela da indústria diante da demanda ainda instável.
Move Brasil conteve perdas
Parte da melhora dos emplacamentos nos últimos meses é atribuída pela Anfavea às duas etapas do Move Brasil, programa de financiamento voltado à renovação de frota.
Na primeira fase, foram anunciados R$ 10 bilhões, dos quais R$ 9,4 bilhões haviam sido aprovados até julho. A segunda etapa contou com R$ 21,2 bilhões anunciados e R$ 20 bilhões aprovados no mesmo período. Ao todo, as operações aprovadas chegaram a R$ 29,4 bilhões de um montante disponibilizado de R$ 31,2 bilhões.
Para Calvet, o programa facilitou o acesso ao crédito e ajudou a conter uma queda que se mostrava muito mais acentuada no início do ano. “O Move um não resolveu o problema, longe disso. Ele arrefeceu uma queda muito grande que vínhamos presenciando”, explicou.
A segunda etapa ampliou a disponibilidade de recursos e passou a contemplar também ônibus e implementos rodoviários. De acordo com a entidade, o maior impulso sobre o mercado de caminhões foi observado entre junho e agosto. Agora, com os recursos praticamente comprometidos, a preocupação é saber se os emplacamentos conseguirão manter a trajetória de melhora.
Expectativas com a Fenatran
A indústria deposita parte de suas expectativas na Fenatran, que será realizada em novembro, em São Paulo. A feira deverá concentrar lançamentos, anúncios de investimentos e novas tecnologias, além de evidenciar a entrada de fabricantes de outras origens no mercado brasileiro.
Apesar da conjuntura adversa, as montadoras instaladas no país mantêm projetos de longo prazo e renovam seus portfólios, movimento que, segundo a Anfavea, demonstra confiança no potencial estrutural do mercado.
“As nossas empresas têm demonstrado resiliência e muita confiança, anunciando investimentos de longo prazo. O potencial do mercado é muito grande, mas temos dificuldades conjunturais que não podemos deixar que se tornem estruturais”, ressaltou Calvet.
Para a entidade, fatores como a dimensão do agronegócio, a forte dependência brasileira do transporte rodoviário e a necessidade de renovação da frota sustentam as perspectivas de longo prazo. No curto prazo, entretanto, juros elevados, restrições de crédito e a perda de impulso do Move Brasil mantêm a projeção de queda de 6% nos emplacamentos de caminhões em 2026.
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