A Anjun vai investir US$ 20 milhões no Brasil ainda em 2026 para ampliar sua malha logística, automatizar hubs e expandir a frota própria. Desde que iniciou a atual fase de expansão no país, em 2022, a companhia já aplicou mais de R$ 200 milhões na operação brasileira e prepara agora uma nova etapa, que inclui a descentralização dos fluxos concentrados em São Paulo e a integração da estrutura nacional a uma rede logística latino-americana conectada à China.
O Brasil já está entre as maiores operações da multinacional chinesa e é, atualmente, seu principal alvo de investimentos, segundo Fernando Lima, diretor de Planejamento e Expansão de Rede da Anjun. “O Brasil hoje para a Anjun é uma das maiores operações e é o maior alvo de investimentos no momento”, afirma.
A dimensão alcançada em pouco mais de quatro anos ajuda a explicar o apetite da companhia pelo mercado brasileiro. A Anjun conta hoje com 35 centros de distribuição estratégicos, 70 filiais operacionais e mais de 1.100 pontos de operação, entre unidades próprias e parceiros. São mais de 200 mil metros quadrados de área de armazenagem, 2 mil colaboradores, 600 veículos próprios e uma rede de mais de 2.500 cooperados.
Dos Correios à construção de uma malha própria
A operação brasileira começou, no entanto, com uma configuração bastante diferente. Até 2022, a presença da Anjun estava concentrada principalmente no cross-border. Um escritório em Curitiba organizava as encomendas que chegavam por via aérea e eram posteriormente distribuídas pelos Correios.
Segundo Lima, a Anjun chegou a repassar à estatal 3 milhões de mercadorias em uma única semana. Com o crescimento dos volumes, a empresa decidiu construir uma rede própria para reduzir a dependência dos Correios na distribuição doméstica. “A questão da Anjun dentro do Brasil nesse momento foi construir sua malha para tirar a dependência do Correio”, afirma.
A mudança começou a ganhar forma em 2023, quando a companhia lançou sua operação Express e avançou sobre first mile e last mile. Em 2024 e 2025, os investimentos se concentraram em estrutura própria, filiais e frota, dando escala nacional ao negócio.
A estratégia também acompanhou as mudanças no mercado de encomendas internacionais. A Anjun está habilitada pela Receita Federal para operar na modalidade de Remessa Expressa em Guarulhos e Recife, regime aduaneiro utilizado por empresas de courier para o transporte e desembaraço de encomendas internacionais.
Essa atuação permite à companhia participar da operação desde a chegada da mercadoria ao país e seu processamento aduaneiro até a distribuição doméstica e a entrega ao consumidor. A empresa também integra a cadeia logística de plataformas certificadas no Programa Remessa Conforme, criado pela Receita Federal para estabelecer novas regras tributárias e aduaneiras para compras internacionais realizadas por comércio eletrônico.
Na prática, a construção dessa estrutura ajudou a Anjun a ganhar autonomia na etapa doméstica e avançar sobre diferentes elos da cadeia, conectando o cross-border à malha própria de distribuição e última milha.
Recife vira nova porta de entrada para cargas da China
A próxima etapa será marcada pela descentralização da operação. Segundo Lima, a rede de distribuição regional deverá passar dos atuais 41 hubs operacionais para 53 nos próximos seis meses, com sorting centers em São Paulo, Curitiba, Goiânia, Contagem (MG), Feira de Santana (BA), Recife e Rio de Janeiro.
Um dos movimentos mais importantes ocorrerá já em setembro, quando Recife receberá um novo hub de cross-border. A estrutura permitirá que parte das mercadorias procedentes da China destinadas ao Nordeste entre diretamente pela região, em vez de desembarcar em São Paulo para depois percorrer milhares de quilômetros até o destino. Brasília está nos planos para uma etapa posterior. A intenção é criar uma porta de entrada aérea para abastecer Centro-Oeste e Norte.
O objetivo é construir uma operação cada vez mais multiorigem, na qual diferentes regiões funcionem simultaneamente como polos de captação e distribuição, reduzindo a concentração logística em São Paulo.
Para Lima, reduzir o prazo de entrega é estratégico não apenas para diminuir custos logísticos, mas também para estimular o próprio consumo no e-commerce. “Quanto mais rápido você recebe, mais você é estimulado a comprar”, afirma.
Frota própria pode chegar a mil veículos
Parte dos US$ 20 milhões previstos para este ano será destinada justamente a essa ampliação de capacidade. A frota própria, atualmente superior a 600 veículos, deverá se aproximar de mil unidades em 2027. A empresa também utiliza fornecedores e veículos locados.
Outro destino dos recursos será a automação dos hubs, com incorporação de tecnologia aos processos de separação e distribuição. A capilaridade também deverá crescer por meio de novos modelos de parceria. A companhia se habilitou como franqueadora no Brasil e pretende integrar franquias, unidades próprias e parceiros em uma rede que reúna pontos de entrega e coleta em diferentes regiões.
A estratégia é ampliar a micrologística e aproximar a estrutura da Anjun tanto dos vendedores quanto dos consumidores.
Grande escala em Guarulhos
Um dos principais ativos da operação brasileira está no terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Guarulhos. A Anjun mantém no complexo uma área de 25 mil metros quadrados com capacidade projetada para processar até 1 milhão de pedidos por dia.
A localização permite que a mercadoria desembarcada das aeronaves siga diretamente para a estrutura da companhia dentro do aeroporto, reduzindo etapas entre a chegada ao país, o processamento aduaneiro e a distribuição.
A empresa atua em diferentes elos da cadeia, do transporte internacional e desembaraço aduaneiro à armazenagem, fulfillment, distribuição e última milha. Além do e-commerce internacional, atende operações domésticas de marketplaces, grandes varejistas, marcas e sellers.
Rede latino-americana
A expansão não termina nas fronteiras brasileiras. A Anjun pretende conectar a estrutura construída no país a uma malha latino-americana integrada à China. A companhia está replicando parte do modelo brasileiro no Peru, onde iniciou a implantação de sua operação de cross-border. A estratégia abre, na visão da empresa, a possibilidade de combinar conexões logísticas pelos lados Atlântico e Pacífico da América do Sul.
“Um dos planos que a Anjun tem é conectar a América Latina num eixo de logística com a China”, afirma Lima. O executivo cita ainda, como visão de futuro, a possibilidade de conectar essa malha às novas rotas comerciais e de infraestrutura entre China e América do Sul. A ambição é unificar progressivamente as operações latino-americanas, com o Brasil ocupando posição central nessa expansão.
Demanda ainda está por vir
O apetite por investimentos está apoiado em uma visão particularmente otimista sobre o comércio eletrônico brasileiro. Lima estima que o país gere, em média, cerca de 10 milhões de entregas de e-commerce por dia, com picos entre 40 milhões e 50 milhões em períodos de grande demanda. Os números são estimativas da própria Anjun.
Na avaliação do executivo, a expansão do acesso digital, a incorporação de novos consumidores e formatos como o live commerce ainda podem ampliar significativamente o mercado, especialmente fora dos grandes centros. “A demanda de hoje é forte em crescimento, mas a verdadeira está por vir”, afirma.
Essa expectativa explica por que a companhia considera que sua expansão brasileira está apenas começando. “Considero a Anjun ainda uma criança que começou a andar agora. Nós temos muito para construir”, diz Lima. Entre os próximos passos, ele cita a unificação das malhas da América Latina, a conexão entre vendedores e compradores em diferentes regiões brasileiras e a expansão logística no Norte e Centro-Oeste. “Somos construtores de caminhos. Se não tem o caminho, a gente vai lá e constrói.”
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