A Cummins prepara uma nova geração de eixos para acompanhar as mudanças no mercado brasileiro de veículos comerciais. A empresa prevê iniciar em 2027 a produção de dois modelos específicos para caminhões e ônibus elétricos e, no mesmo ano, colocar no mercado um novo eixo de alta eficiência para veículos convencionais.
O MS-14X, destinado a caminhões elétricos urbanos na configuração 6×2 e com capacidade para aplicações de até 17 toneladas, tem início de produção previsto para janeiro de 2027. Da mesma forma, o MC-17X, desenvolvido para ônibus elétricos urbanos 4×2 de até 22 toneladas de Peso Bruto Total (PBT), deve começar a ser produzido em julho. Os dois projetos foram desenvolvidos pela engenharia brasileira e incorporam mudanças estruturais para atender às novas condições dos veículos eletrificados.
“Estamos diante de uma mudança estrutural na forma como os eixos são concebidos. As demandas impostas pela eletrificação e pela busca crescente por eficiência exigiram uma nova abordagem de engenharia, que vai muito além da evolução incremental dos produtos”, afirma Kleber Assanti, diretor-geral da divisão de Eixos da Cummins.

Novo eixo aumenta capacidade para caminhões elétricos
O MS-14X tem como base a arquitetura externa do MS-120, mas praticamente todo o conjunto interno foi redesenhado. O projeto recebeu um diferencial derivado da família 14X, rolamentos de maior capacidade, conjuntos de coroa e pinhão redimensionados e componentes internos reforçados para suportar os esforços provocados pela frenagem regenerativa.
A mudança também elevou a capacidade do produto. O eixo que originalmente atendia aplicações de aproximadamente 11 toneladas foi replanejado para veículos de até 17 toneladas, um aumento de cerca de 55%. Entre as tecnologias incorporadas está o tratamento por jateamento de microesferas de aço, que aumenta a resistência dos componentes à fadiga e aos carregamentos cíclicos. A produção está prevista para janeiro de 2027, com montagem do diferencial na fábrica de Osasco (SP). A estimativa inicial é produzir cerca de 200 unidades por ano.
No transporte coletivo, o projeto recebeu uma nova carcaça fundida, desenvolvida especificamente para a aplicação, além de diferencial mais robusto, rolamentos de maior capacidade, conjuntos de coroa e pinhão reforçados e tecnologia de solda a laser. A produção está prevista para julho de 2027.
Eixo busca reduzir gasto com diesel
A eletrificação é apenas uma das frentes da nova geração de produtos. A Cummins também desenvolveu uma plataforma de alta eficiência para os eixos utilizados em veículos convencionais. A proposta é reduzir as perdas mecânicas que ocorrem na transmissão da potência do motor até as rodas e, com isso, aumentar o aproveitamento da energia produzida pelo motor.
O primeiro produto dessa plataforma é o MT-17XHE, destinado a aplicações 6×4 e com início de produção previsto para julho de 2027. O projeto reúne três mudanças principais: um novo sistema interno de lubrificação, rolamentos desenvolvidos para reduzir o atrito e uma nova arquitetura do conjunto de coroa e pinhão.
Nos testes realizados pela Cummins em uma bancada dedicada na Europa, o eixo apresentou ganho próximo de 2% na eficiência em relação à geração anterior. Considerando um caminhão que percorra 100 mil quilômetros por ano, com consumo médio de 1,8 quilômetro por litro de diesel, a empresa calcula uma economia de aproximadamente 1.090 litros por veículo ao ano.
Em uma frota de 500 caminhões, a economia potencial chega a 545 mil litros de diesel por ano, equivalente a aproximadamente R$ 3,27 milhões, segundo as premissas utilizadas pela companhia.
O MT-17XHE está em fase final de homologação. Em Osasco, o laboratório de engenharia mecânica realiza ensaios de fadiga e resistência estrutural. Na Itália, a Cummins conduz as validações da plataforma, enquanto uma montadora parceira avalia o conjunto integrado ao veículo. A carcaça foi desenvolvida pela engenharia brasileira para atender às características das operações no País, como topografia, pesos brutos combinados, longas distâncias e diferentes condições de pavimentação.
A companhia prevê ampliar essa arquitetura para novas aplicações entre 2028 e 2030. Entre os próximos projetos está o 18XHE, destinado a configurações 6×2.
Cummins prevê crescimento, apesar das dificuldades
Os novos produtos chegam em um momento de recuperação ainda tímida do mercado de caminhões. Para a Cummins, a expectativa é fechar 2026 com crescimento de cerca de 1%, podendo chegar a 2% ou 3% até o fim do ano, dependendo do comportamento das encomendas e da produção das montadoras.
Segundo Kleber Assanti, a empresa já percebe sinais de melhora no último trimestre, embora o movimento ainda seja pequeno. “O mercado de caminhões está um pouco mais baixo que o ano passado. Está começando a dar um sinalzinho agora de melhora nesse último trimestre”, afirmou.
Parte desse movimento poderá estar relacionada ao aumento da produção das montadoras para atender às encomendas associadas da Fenatran, maior feira de transporte de carga da América Latina que ocorrerá em novembro, e às liberações de crédito do programa de renovação de frota, o Move Brasil. O executivo também aponta que os estoques de caminhões estão baixos e que existe uma demanda reprimida acumulada depois de dois anos de adiamento na compra de veículos.
O cenário político e econômico, no entanto, ainda dificulta uma projeção mais precisa para o restante do ano. Assanti cita as eleições e a definição da próxima política econômica entre os fatores que podem influenciar as decisões das empresas. Na avaliação do executivo, outubro e novembro podem trazer uma aceleração, enquanto o desempenho de dezembro dependerá também do ritmo de produção das montadoras. “Então, por todos esses fatores, estamos vendo um aumento tímido. Hoje eu estou falando de 1% de crescimento, mas pode ser que chegue a 2%, 3% até o final do ano”, disse Assanti.
Produção local ganha peso na estratégia
A perspectiva de recuperação do mercado ocorre enquanto a Cummins aumenta a capacidade de produção em Osasco. Em 2026, a empresa iniciou a fabricação local do MD-160, primeiro diferencial dianteiro tandem produzido no Brasil para aplicações rodoviárias 6×4, e do MT-610, desenvolvido para operações de mineração.
O MT-610 suporta até 38 toneladas de carga vertical e 150 toneladas de PBC, e mais de 80% da validação do produto foi realizada no Brasil. A nacionalização exigiu novos processos, ferramental, linha de montagem e capacitação das equipes, além de ampliar a capacidade da operação brasileira para produzir componentes de maior complexidade.
A unidade também aumentou em 12% a capacidade de corte de coroas e pinhões e passou a utilizar automação, sensores e sistemas de monitoramento para acompanhar os processos industriais em tempo real. Segundo a companhia, a tecnologia já contribuiu para evitar mais de 42 horas de paradas de linha.
O aumento da capacidade também reduziu a necessidade de importar componentes. “Nós importávamos muitos componentes, agora não mais com esse aumento de capacidade. O resultado foi mais competitividade no nosso processo”, disse Assanti.
A operação brasileira investe aproximadamente R$ 50 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento. A aquisição da Meritor, em 2022, também ampliou a estrutura da divisão e sua capacidade de desenvolvimento. Segundo Rafael Souza, diretor de Produto e PMO da Divisão de Eixos, a integração aumentou a capacidade de investimento e permitiu reforçar a capacitação das equipes de engenharia, manufatura e produção.
Esse movimento dá à fábrica uma função que vai além da montagem. Osasco participa do desenvolvimento, da validação e da industrialização de novos componentes, o que permite à Cummins adaptar produtos globais às condições brasileiras e, ao mesmo tempo, ampliar a nacionalização.
Foco nas tradicionais, de olho nas chinesas
A transformação da operação ocorre em paralelo à entrada de novos fabricantes no mercado brasileiro, especialmente empresas chinesas. A Cummins, porém, ainda não recebeu uma demanda concreta dessas novas montadoras. Questionado sobre uma estratégia específica para atender às fabricantes chinesas, Assanti respondeu: “Hoje ainda não”.
A companhia mantém o foco nas montadoras tradicionais, mas acompanha o avanço das novas fabricantes e da nacionalização da produção. Segundo Assanti, o desenvolvimento de um eixo pode começar até dois anos antes da produção do veículo, o que exige uma relação antecipada entre fornecedor e montadora. Caso os novos fabricantes avancem na nacionalização, poderão surgir oportunidades para fornecedores já instalados no País.
A competição também aumenta a pressão por produtividade. Nesse ambiente, a Cummins combina a ampliação da capacidade de Osasco com automação, nacionalização e desenvolvimento de produtos capazes de atender diferentes tecnologias. A empresa passa a disputar não apenas o fornecimento de componentes para caminhões convencionais, mas também uma posição na cadeia de eletrificação dos veículos comerciais.
Os números da nova fase da Cummins
| Indicador | Número |
|---|---|
| Operação de eixos em Osasco | 70 anos |
| Investimento anual em P&D no Brasil | R$ 50 milhões |
| Aumento da capacidade de corte de coroas e pinhões | 12% |
| Capacidade de carga vertical do MT-610 | 38 toneladas |
| PBC do MT-610 | 150 toneladas |
| Validação do MT-610 realizada no Brasil | mais de 80% |
| Aumento de capacidade do MS-14X | 55% |
| Produção inicial prevista do MS-14X | cerca de 200 unidades/ano |
| Ganho de eficiência do MT-17XHE | cerca de 2% |
| Economia potencial por caminhão | 1.090 litros/ano |
| Economia potencial em 500 caminhões | 545 mil litros/ano |
| Redução potencial de custos em 500 caminhões | R$ 3,27 milhões/ano |
| Crescimento projetado pela Cummins em 2026 | 1% a 3% |
| Início de produção do MS-14X | janeiro de 2027 |
| Início de produção do MC-17X | julho de 2027 |
| Início de produção do MT-17XHE | julho de 2027 |
| Expansão da plataforma de alta eficiência | 2028–2030 |
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