Empresas que dependem do transporte fluvial para abastecer a Região Norte começaram a antecipar cargas, reforçar estoques e estruturar planos de contingência meses antes do período de estiagem na Amazônia. Após as secas históricas de 2023 e 2024, a logística da região passou a incorporar a vazante dos rios como uma variável permanente de planejamento operacional.
O movimento se intensificou após o governo do Amazonas decretar, em caráter preventivo, estado de emergência climática e ambiental diante das projeções associadas ao fenômeno El Niño para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O decreto cita riscos relacionados à redução das chuvas, queda do nível dos rios e aumento da ocorrência de queimadas no estado.
Para operadores logísticos e embarcadores, o cenário representa uma mudança estrutural. “A seca deixou de ser um evento excepcional e passou a fazer parte do planejamento da cadeia logística da região”, afirma Dagoberto Madono, diretor de Novos Negócios da Combitrans.
Segundo ele, as secas passaram a apresentar um padrão de recorrência muito diferente do observado há poucos anos. “Antes era um evento esporádico, que ocorria em intervalos maiores. Hoje já existe uma percepção de continuidade e isso muda completamente a forma de planejar as operações.”
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O histórico recente reforça a percepção de risco entre operadores e embarcadores. Em 2024, diversos rios da bacia amazônica registraram níveis mínimos históricos, enquanto 69% dos municípios da região enfrentaram algum grau de estiagem e a seca severa avançou sobre áreas antes menos afetadas.
Diante desse cenário, operadores já trabalham com aumento expressivo da demanda logística durante o período crítico da estiagem. A Combitrans projeta crescimento de aproximadamente 20% na movimentação entre setembro e novembro, impulsionado pela antecipação de embarques e pela migração de cargas tradicionalmente atendidas pela cabotagem.
Especializada em logística integrada para a Região Norte, a Combitrans está entre as principais operadoras privadas da navegação interior da Amazônia e atende o abastecimento regional e a movimentação da produção da Zona Franca de Manaus. A companhia opera terminais próprios em Manaus e Belém e utiliza balsas do tipo SW (Swimming Warehouse), modelo de armazém flutuante que amplia a capacidade de carga por viagem e reduz custos operacionais.
Impacto vai além da navegação
A preocupação não se restringe ao transporte fluvial. A Zona Franca de Manaus depende fortemente da navegação para o recebimento de insumos industriais e para o escoamento da produção de eletroeletrônicos, motocicletas, alimentos, bebidas e produtos farmacêuticos. Quando a capacidade dos rios diminui, os efeitos se espalham por toda a cadeia produtiva, pressionando custos e aumentando prazos logísticos.
Durante as secas anteriores, parte das operações precisou ser redirecionada para modais mais caros, como o transporte rodoviário e aéreo, enquanto alguns serviços de cabotagem enfrentaram restrições operacionais em função da redução do calado em determinados trechos.
Segundo Madono, produtos considerados essenciais costumam ser os primeiros a entrar nos planos de contingência dos embarcadores.
“Alimentos, bebidas, medicamentos, produtos de higiene e farmacêuticos recebem atenção especial porque existe uma responsabilidade adicional em evitar rupturas de abastecimento.”
Antecipação de embarques
A principal estratégia adotada pelas empresas tem sido antecipar cargas antes do período mais crítico da estiagem, normalmente entre setembro e novembro. A Combitrans afirma já ter registrado aumento na procura de clientes interessados em adiantar embarques e ampliar estoques regionais para reduzir riscos operacionais.
Ao mesmo tempo, embarcadores passaram a utilizar estruturas de armazenagem próximas aos mercados consumidores como forma de ganhar flexibilidade durante a seca. Na prática, esses centros funcionam como um pulmão logístico capaz de sustentar entregas fracionadas mesmo em cenários de restrição de capacidade fluvial.
“Hoje já existe uma movimentação importante de clientes antecipando volumes e utilizando estruturas avançadas de armazenagem para reduzir riscos de desabastecimento”, afirma o executivo.
Demanda deve crescer 20%
A expectativa da Combitrans é registrar um aumento de aproximadamente 20% na demanda durante o período de estiagem, impulsionado tanto pela antecipação de embarques quanto pela migração de cargas normalmente movimentadas pela cabotagem.
“Trabalhamos com nossos clientes e embarcadores com uma previsão próxima de 20% de crescimento ao longo do período da seca”, afirma Madono.
Para atender ao aumento esperado da demanda, a empresa ampliou investimentos em capacidade operacional.
Duas novas balsas com capacidade individual para 3,5 mil toneladas devem entrar em operação até o final deste mês, elevando a oferta disponível antes do período mais crítico da estiagem. Segundo a companhia, a decisão de ampliar a frota foi tomada ainda no início do ano, quando os primeiros sinais apontavam para a possibilidade de uma nova seca severa.
Hubs avançados
Outra mudança provocada pela recorrência das estiagens é o fortalecimento dos chamados hubs avançados de armazenagem. A Combitrans opera atualmente cerca de 15 mil metros quadrados de área para armazenagem em Belém e outros 20 mil metros quadrados em Manaus, estruturas utilizadas para manter produtos mais próximos dos mercados consumidores e reduzir a dependência da reposição imediata via transporte fluvial.
Além disso, a companhia adquiriu em 2025 uma segunda área portuária em Belém, com aproximadamente 95 mil metros quadrados, onde pretende implantar um novo complexo logístico nos próximos anos. O projeto prevê inclusive estruturas frigorificadas para ampliar a movimentação de cargas refrigeradas na região.
Para o executivo, a principal mudança em curso é cultural. Se antes secas severas eram tratadas como eventos extraordinários, hoje operadores e embarcadores começam a adotar uma lógica semelhante à observada em cadeias globais sujeitas a furacões, conflitos geopolíticos ou congestionamentos portuários: a gestão permanente do risco climático.
Nesse novo cenário, capacidade de armazenagem, integração modal e previsibilidade operacional passam a ter peso semelhante ao da própria infraestrutura física disponível. A tendência é que esse movimento se intensifique nos próximos anos, especialmente diante da manutenção dos incentivos da Zona Franca de Manaus após a reforma tributária e da perspectiva de expansão das atividades industriais na região. “Cada vez mais o mercado olha para a Amazônia e para a navegação fluvial como um ativo estratégico para o país”, conclui Madono.
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