A 99 iniciou nesta terça-feira (28) uma nova etapa de sua estratégia de expansão ao lançar o 99Compras em São Paulo e em mais de 20 municípios da região metropolitana. Com investimento de R$ 100 milhões, a plataforma conecta cerca de 3 mil varejistas parceiros a uma rede de mais de 200 mil entregadores parceiros e transforma sua infraestrutura de mobilidade em uma operação de logística voltada ao comércio eletrônico de conveniência.
O momento é de forte expansão do varejo digital brasileiro. Segundo a Euromonitor International, o comércio eletrônico movimentou R$ 394,6 bilhões em 2025, alta de 18% em relação ao ano anterior. A consultoria atribui esse desempenho ao fortalecimento dos marketplaces, à maior digitalização do consumo e à evolução das redes logísticas capazes de sustentar entregas cada vez mais rápidas.
Além de lançar uma nova categoria de serviço, a companhia aproveita a infraestrutura construída ao longo da última década para ampliar sua presença nas compras do dia a dia. A proposta é utilizar a mesma base tecnológica e operacional que hoje conecta passageiros, restaurantes, entregadores e estabelecimentos comerciais para atender também supermercados, farmácias, pet shops, floriculturas, lojas de bebidas e outros segmentos de conveniência.
“A 99 tem uma visão de longo prazo para o Brasil. O 99Compras é mais um passo concreto na construção de um verdadeiro super app, reunindo serviços essenciais do dia a dia em uma única plataforma para oferecer mais conveniência, praticidade e preços acessíveis”, afirmou Bruno Rossini, diretor de Comunicação da 99.
Segundo o executivo, essa expansão se apoia na escala já alcançada pela empresa no Brasil. Atualmente, a plataforma reúne mais de 60 milhões de usuários ativos mensais, cerca de 2,5 milhões de motoristas e entregadores parceiros, 25 milhões de contas da 99Pay e já realizou mais de 2 bilhões de viagens desde o início de suas operações. “Quando olhamos para essa escala, percebemos que faz sentido conectar novos serviços ao ecossistema já existente”, disse.
Desde 2018, a 99 faz parte da chinesa DiDi Global, grupo de tecnologia que opera plataformas de mobilidade, delivery e serviços digitais em diversos mercados da Ásia e da América Latina, incluindo México e Brasil. “Hoje, o Brasil é a maior operação da DiDi Global fora da China”, afirmou Bruno Rossini. Segundo ele, é justamente essa posição estratégica que faz do País o laboratório para novos negócios, como o 99Compras.
Estratégia asset light
Se para o consumidor o lançamento representa apenas uma nova opção de compras pelo aplicativo, nos bastidores a aposta está na utilização mais eficiente da infraestrutura logística já existente. Em vez de criar uma operação paralela, a empresa optou por distribuir diferentes tipos de demanda ao longo do dia, reduzindo períodos de ociosidade e aumentando a produtividade da rede de parceiros.
Na avaliação de Luiz Felipe Gamper, diretor sênior de Logística da 99, o diferencial competitivo está menos na oferta de produtos e mais na capacidade de aproveitar a mesma rede para atender diferentes serviços em horários distintos.
“O motociclista deixa de depender apenas dos horários de pico do delivery de comida. Pela manhã ele pode fazer corridas de moto; durante o horário comercial, entregas do 99Compras e do 99Entrega; no almoço entra o food; e no fim do dia voltam as corridas de passageiros e as entregas de refeições. Quando sobrepomos essas curvas de demanda, oferecemos muito mais flexibilidade e oportunidades de ganho”, explicou.
Segundo Gamper, essa lógica aumenta a ocupação da rede de parceiros e melhora a eficiência operacional. “Com essa capilaridade e quantidade de demanda, conseguimos deixar motociclistas e motoristas ocupados por mais tempo. Isso reduz o custo por quilômetro, melhora a utilização dos ativos e permite oferecer fretes mais competitivos para consumidores e varejistas.”
Grocery exige outra operação
A entrada no segmento de supermercado exige uma estrutura logística bastante diferente daquela utilizada no delivery de refeições. Além do entregador, passa a fazer parte da operação o picker, profissional responsável por percorrer a loja, localizar os produtos, separar os itens e preparar o pedido para retirada.
Essa nova etapa exige sincronizar o trabalho dentro do estabelecimento comercial, o deslocamento do entregador e o horário escolhido pelo consumidor para receber as compras. “Na comida, se a entrega chega antes, normalmente o consumidor até fica satisfeito. Já em uma compra grande de supermercado, chegar antes do horário pode ser um problema, porque muitas vezes não há ninguém para receber ou não existe espaço para armazenar os produtos. Por isso, a estimativa de entrega precisa ser muito mais precisa”, explicou Gamper.
Algoritmos substituem a lógica da proximidade
Para garantir essa sincronização, a 99 utiliza algoritmos próprios capazes de calcular o momento ideal para acionar o entregador. Diferentemente do que ocorre em muitas plataformas de delivery, o sistema não prioriza necessariamente o motociclista mais próximo do estabelecimento, mas aquele cuja chegada coincidirá com o término da separação dos produtos.
“Nem sempre chamamos o motociclista mais próximo. Dependendo do tempo de preparação do pedido, pode ser mais eficiente acionar alguém que chegará exatamente quando a compra estiver pronta. Assim reduzimos o tempo de espera tanto para o entregador quanto para o varejista”, explicou Gamper.
Outro diferencial apontado pela companhia é o uso de mapas desenvolvidos internamente para apoiar as operações de despacho e roteirização. Segundo o executivo, as ferramentas próprias permitem calcular rotas mais precisas, aperfeiçoar as estimativas de chegada (ETA) e acompanhar indicadores operacionais relacionados à condução dos parceiros, contribuindo para aumentar a eficiência da operação.
Além das entregas imediatas, a plataforma também oferecerá entregas agendadas, modalidade em que o consumidor escolhe previamente a janela de recebimento. Nesse modelo, a precisão do planejamento passa a ser ainda mais importante para evitar atrasos ou chegadas antecipadas.
Tecnologia em vez de ativos físicos
Apesar da entrada no varejo digital, a estratégia da companhia não prevê investimentos em centros de distribuição, dark stores ou frota própria. Em resposta à Transporte Moderno, Gamper afirmou que o papel da empresa será o de integrar varejistas, consumidores e parceiros logísticos por meio da tecnologia.
“Não teremos frota própria nem estrutura de fulfillment. Nosso papel é conectar parceiros comerciais, tecnologia e logística. Se um varejista optar por operar uma dark store, podemos atendê-lo, mas não faz parte da nossa estratégia investir nesses ativos”, afirmou.
O modelo segue uma lógica asset light, na qual a empresa busca ampliar a utilização da infraestrutura existente em vez de investir na construção de ativos logísticos próprios. A expectativa é que essa estratégia permita acelerar a expansão da plataforma sem elevar, na mesma proporção, os custos operacionais.
Inicialmente, o serviço opera com motocicletas e bicicletas, atendendo principalmente compras de conveniência e pedidos de farmácia. Em uma segunda etapa, a companhia pretende incorporar carros e veículos comerciais leves para ampliar a capacidade das entregas, embora ainda não tenha divulgado um cronograma para essa expansão.
Farmácias lideram o crescimento
Entre as mais de 20 categorias disponíveis na plataforma, farmácia desponta como uma das operações de maior crescimento. Segundo a empresa, o segmento já representa 28% dos pedidos realizados em Goiânia e 22% das compras efetuadas na Grande São Paulo, com tempo médio de entrega de 24 minutos.
Entre os itens mais demandados estão produtos de higiene pessoal, fraldas, nutrição infantil, preservativos, testes de gravidez e analgésicos, reforçando o perfil de compras de conveniência e reposição rápida.
Para Talita Poleto, diretora comercial da 99Compras, a ampliação dos canais digitais tornou-se parte da estratégia de crescimento dos varejistas. “A diversificação dos canais de venda deixou de ser uma tendência para se tornar uma estratégia de crescimento. A 99Compras conecta tecnologia, logística e uma ampla base de consumidores para ajudar nossos parceiros a expandirem seus negócios e alcançarem novos públicos”, afirmou.
Maturidade operacional
A chegada à capital paulista sucede os lançamentos realizados em Goiânia, Guarulhos e municípios do ABC Paulista. Segundo a empresa, novas cidades deverão receber a plataforma ainda este ano, mas o ritmo de expansão dependerá da consolidação da operação e dos indicadores de desempenho acompanhados pela companhia.
Ao apostar na orquestração da demanda, e não na construção de ativos físicos, a 99 busca transformar a infraestrutura criada para mobilidade urbana em uma plataforma compartilhada de logística de última milha.
A estratégia pretende aumentar a utilização da rede ao longo do dia, elevar a produtividade dos parceiros e oferecer aos varejistas uma alternativa para ampliar sua presença nas vendas digitais sem investir em estruturas próprias de entrega, reduzindo também o custo logístico para consumidores e comerciantes.
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