Argentina aposta em múltiplas tecnologias para descarbonizar caminhões

Movimento reúne indústria e agro para defender biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio e gás natural em uma frota com idade média de 16 anos

Valeria Bursztein

A Argentina lançou uma nova iniciativa para acelerar a descarbonização do transporte a partir de uma estratégia baseada em múltiplas rotas tecnológicas. Apresentado durante o Congresso Maizar 2026, em Buenos Aires, o Movimiento por la Transición Energética de la Movilidad reúne montadoras, representantes da agroindústria e entidades técnicas em torno de uma agenda que combina biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio de baixa emissão de carbono, biogás, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e tecnologias de captura de carbono.

Liderado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), o movimento conta com o apoio de empresas como Toyota, Bosch, John Deere e Stellantis, que defendem uma abordagem de neutralidade tecnológica para reduzir as emissões sem estabelecer uma única solução energética.

O debate ganha especial relevância no transporte de cargas. Assim como o Brasil, a Argentina possui uma logística fortemente apoiada no transporte rodoviário. Estimativas de mercado indicam que o modal representa cerca de 76% da receita do setor de transporte de cargas e logística do país.

Ao mesmo tempo, a renovação da frota representa um desafio: os veículos pesados, categoria que inclui caminhões e ônibus, têm idade média de aproximadamente 16 anos, acima da média geral da frota argentina, de 14,8 anos em 2025. argentina, que alcançou 14,8 anos em 2025.

De acordo com dados da Associação de Fábricas Argentinas de Componentes (AFAC), a frota circulante argentina soma aproximadamente 15,8 milhões de veículos, dos quais cerca de 3% correspondem a caminhões. O país possui ainda aproximadamente 12,9 milhões de automóveis e 2,3 milhões de comerciais leves, cenário que reforça o desafio de acelerar a renovação tecnológica e reduzir emissões em um mercado marcado pelo envelhecimento da frota.

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Biocombustíveis e eletrificação

A indústria global debate qual é o caminho mais eficiente para reduzir as emissões do transporte pesado. Enquanto a eletrificação avança em determinadas aplicações, principalmente urbanas, operações de longa distância continuam exigindo soluções alternativas devido a fatores como autonomia, peso das baterias, infraestrutura de recarga e custo total de propriedade.

Apesar da forte dependência atual dos combustíveis fósseis no setor de transportes, países com grande vocação agrícola, como Brasil e Argentina, enxergam nos biocombustíveis uma vantagem competitiva. A disponibilidade de matérias-primas como soja, milho e resíduos agroindustriais abre espaço para a expansão do biodiesel, do biogás e de outros combustíveis renováveis, que podem complementar a eletrificação e outras rotas tecnológicas, como o hidrogênio de baixa emissão de carbono.

“O movimento que surge na Argentina é um exemplo concreto de como o modelo de cooperação que construímos no Brasil pode ser replicado para outros países. Isso mostra que uma transição energética inclusiva, competitiva e adaptada à realidade de cada território é possível quando se adota uma abordagem multitecnológica, que combina biocombustíveis, eletrificação e outras rotas, fortalecendo a indústria e a economia locais”, afirma José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil, organização multissetorial dedicada à descarbonização da mobilidade no Brasil e que participou do lançamento da iniciativa argentina.

Gás natural amplia alternativas energéticas

A Argentina possui uma das maiores frotas movidas a GNV do mundo, com cerca de 1,8 milhão de veículos convertidos, sustentada por uma ampla infraestrutura de abastecimento com aproximadamente 2 mil postos de GNV espalhados pelo país.

Esse histórico está diretamente ligado à grande disponibilidade de gás natural argentino, especialmente após o desenvolvimento da formação de Vaca Muerta, uma das maiores reservas de gás não convencional do mundo, localizada na província de Neuquén.

O desafio está nos caminhões

Apesar da forte presença do gás no transporte leve, sua participação nos caminhões ainda é limitada. Nos últimos anos, porém, a Argentina vem incentivando o uso de gás natural comprimido (GNC) e gás natural liquefeito (GNL) em veículos pesados, especialmente em operações de longa distância.

A vantagem é econômica e ambiental: o gás natural pode reduzir as emissões de CO₂ em relação ao diesel, além de diminuir a emissão de material particulado e óxidos de nitrogênio. A expansão de Vaca Muerta também reforça o interesse do país em substituir parte do diesel importado por um combustível produzido internamente.

Fabricantes de veículos comerciais como a Iveco têm atuado fortemente nesse movimento na Argentina, com caminhões movidos a gás e projetos de corredores de abastecimento voltados ao transporte de longa distância.

Descarbonização em rota múltipla

A iniciativa argentina reforça um dos principais debates da atual transição energética no transporte: a busca por soluções capazes de reduzir emissões sem comprometer a competitividade da indústria, a eficiência logística e a viabilidade econômica das operações.

Para o transporte de cargas, especialmente em países de dimensões continentais e forte dependência rodoviária, a tendência é que diferentes tecnologias convivam por décadas, combinando ganhos de eficiência dos motores a combustão, combustíveis renováveis, eletrificação, hidrogênio e sistemas de gestão mais inteligentes.

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