A inclusão dos implementos rodoviários na segunda fase do programa Move Brasil, do BNDES, começou a gerar demanda para fabricantes, mas ainda está longe de provocar uma retomada consistente do mercado. A avaliação é de José Carlos Sprícigo, presidente da Associação Nacional das Fabricantes de Implementos Rodoviários (Anfir). O executivo vê o programa mais como um mecanismo de antecipação de compras do que como um indutor de crescimento estrutural.
“O Move pode ajudar no curtíssimo prazo, mas não vemos isso como algo que vá acrescentar mercado. O que está acontecendo é uma antecipação de compras”, afirmou Sprícigo em entrevista exclusiva à Agência Transporte Moderno.
Lançado no fim de maio, o Move Brasil 2 destinou R$ 21 bilhões para renovação de frota de caminhões, ônibus e máquinas. Pela primeira vez, os implementos rodoviários passaram a ser contemplados pela linha de crédito subsidiada. Segundo o executivo, os primeiros dias do programa tiveram impacto limitado. Como muitas empresas aguardaram a entrada em vigor das novas condições de financiamento, houve até represamento de faturamentos no fim de maio.
Leia mais
Move Brasil 2 já libera R$ 3 bilhões em menos de uma semana e pode ficar sem recursos em julho
Avanço das chinesas leva transportadora a investir em 300 caminhões e mirar R$ 1,4 bi em receita
Brasil injeta R$ 15 bilhões em hidrovias e construção naval
“O início de junho trouxe um reflexo mais positivo, mas ainda aquém do esperado”, disse. Entre os associados da entidade, a participação do programa nas vendas varia significativamente. Algumas fabricantes registram cerca de 30% dos pedidos vinculados ao Move Brasil, enquanto a maioria reporta percentuais entre 10% e 15%. “Esperávamos algo próximo de 20% para todo o setor. Seria um número bastante satisfatório”, afirmou.
Apesar da cautela em relação aos efeitos do programa sobre o mercado, a Anfir estima que os fabricantes de implementos rodoviários deverão acessar cerca de R$ 5 bilhões dos R$ 21 bilhões disponibilizados pelo Move Brasil. O valor corresponde a quase um quarto dos recursos da linha e reforça a relevância do programa para a indústria, ainda que, na avaliação da entidade, seu principal efeito seja antecipar investimentos já planejados pelos transportadores.
Em nota divulgada na tarde desta terça-feira (16), o BNDES informou ter aprovado R$ 10 bilhões em financiamentos para a renovação das frotas de caminhões e ônibus nos primeiros 12 dias de operação do programa BNDES Mais Mobilidade. O montante equivale a 47,1% dos R$ 21 bilhões disponibilizados pela iniciativa, criada para estimular a modernização do transporte rodoviário de cargas e do transporte coletivo de passageiros.
Até o momento, a linha reúne 8.377 operações aprovadas, com valor médio de R$ 1,2 milhão por contrato, alcançando 1.373 municípios em todas as regiões do país. A maior parte dos recursos — R$ 9,8 bilhões — foi direcionada a empresas transportadoras, dos quais R$ 1,6 bilhão destinou-se à aquisição de ônibus. Já os caminhoneiros autônomos contrataram 315 operações, somando R$ 139,8 milhões em financiamentos.
Juros altos continuam sendo obstáculo
Mesmo com taxas mais competitivas oferecidas pelo programa, o setor continua enfrentando um ambiente de negócios desafiador. Sprícigo cita a combinação de juros elevados, incertezas econômicas, questões geopolíticas e a perda de rentabilidade do agronegócio como fatores que mantêm os transportadores cautelosos na hora de investir.
“O nosso mercado se move muito por confiança. O custo do dinheiro continua muito alto. Quando a Selic está em torno de 14%, na ponta o financiamento chega a mais de 20% ao ano”, afirmou. Outro fator de preocupação é a pressão de custos. O presidente da Anfir afirma que a indústria do aço tenta repassar reajustes após medidas de proteção comercial adotadas pelo governo para alguns produtos siderúrgicos importados.
“Mesmo com a demanda fraca, existe uma pressão para aumento de preços dos insumos”, disse. Apesar da entrada do programa, a Anfir mantém uma projeção conservadora para o mercado interno. A entidade estima que o setor encerrará 2026 com cerca de 140 mil implementos vendidos, entre pesados e leves, resultado aproximadamente 7% inferior ao registrado no ano passado.
A avaliação é que o programa ajudará a sustentar parte da demanda, mas não será suficiente para alterar a tendência geral do mercado. Segundo Sprícigo, a indústria instalada possui capacidade para produzir cerca de 200 mil implementos por ano, volume muito superior à demanda atual. “Neste momento as empresas estão focadas em eficiência operacional e não em expansão de capacidade”, afirmou.
Exportações são principal motor de crescimento
Se o mercado doméstico segue fraco, as exportações surgem como principal fonte de crescimento para o setor em 2026. A Anfir projeta embarques entre 6 mil e 7 mil implementos neste ano, um dos melhores resultados da história recente da indústria. A recuperação da economia argentina, a retomada das compras pelo Chile e a manutenção da demanda em países como Paraguai sustentam as expectativas.
“A exportação virou nosso 13º salário”, disse Sprícigo. Segundo ele, a Argentina deve se tornar um dos principais motores da demanda externa não apenas para implementos rodoviários, mas também para fabricantes brasileiros de autopeças.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



