O programa Move Brasil – Caminhões e Ônibus (Move Brasil 2) entrou oficialmente em operação nesta sexta-feira (29), com a abertura do protocolo de financiamentos pelo BNDES. A nova etapa da iniciativa disponibiliza até R$ 21,2 bilhões para renovação da frota nacional de veículos pesados, incluindo caminhões, caminhões-tratores, ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários.
Coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o programa amplia o escopo da primeira fase, que era voltada principalmente ao transporte rodoviário de cargas. Agora, além dos caminhões, o crédito subsidiado contempla também ônibus urbanos, micro-ônibus e implementos, buscando acelerar a modernização da frota brasileira.
Do total disponibilizado, R$ 14,5 bilhões têm origem em recursos da União, via Tesouro Nacional, enquanto até R$ 6,7 bilhões serão aportados pelo BNDES. O programa também reservou R$ 2 bilhões para aquisição de ônibus e micro-ônibus e outros R$ 2 bilhões para transportadores autônomos e cooperados.
A iniciativa foi estruturada para enfrentar um dos principais gargalos logísticos do país: o envelhecimento da frota de veículos pesados. A expectativa do governo é estimular a substituição de veículos mais antigos por modelos mais modernos, eficientes e menos poluentes, reduzindo custos operacionais, emissões e acidentes.
O programa permite o financiamento de veículos novos fabricados no Brasil e credenciados no BNDES, além de caminhões seminovos produzidos a partir de 2012 para transportadores autônomos e cooperativas. Os financiamentos poderão ter prazo de até 120 meses para autônomos e empresas de transporte de passageiros, com taxas que giram em torno de 13% ao ano, abaixo das linhas tradicionais de mercado.
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Esgotamento rápido dos recursos?
Como já adiantou a reportagem da Agência Transporte Moderno, a Volkswagen Caminhões e Ônibus, por exemplo, avalia que a nova etapa do programa deverá provocar uma forte aceleração das vendas nos próximos meses. Segundo o vice-presidente de vendas e marketing da montadora, Ricardo Alouche, existe uma demanda reprimida acumulada durante o período em que o programa ficou suspenso aguardando regulamentação.
A expectativa da fabricante é comercializar entre 4,5 mil e 5 mil caminhões dentro das duas fases do Move Brasil. Somente na primeira etapa, a marca estima ter financiado cerca de 3 mil veículos por meio das linhas subsidiadas.
De acordo com Alouche, muitos transportadores adiaram decisões de compra enquanto aguardavam a confirmação da segunda fase do programa. Com a retomada dos financiamentos, a tendência é de forte aquecimento das vendas em junho e julho.
A montadora acredita que os R$ 21,2 bilhões disponibilizados pelo governo podem ser consumidos rapidamente, possivelmente antes mesmo do encerramento oficial das contratações previsto para agosto. O executivo observa que parte dos negócios que normalmente seriam fechados apenas no segundo semestre ou durante a Fenatran está sendo antecipada para aproveitar as condições mais favoráveis de financiamento.
Para a Volkswagen, o Move Brasil tornou-se um dos principais sustentáculos do mercado brasileiro de caminhões em 2026. A avaliação é que, sem o programa, o setor poderia registrar retração próxima de 10% em comparação com 2025, diante do atual cenário de juros elevados e restrição de crédito.
Apesar do otimismo com a demanda, a fabricante defende que a iniciativa se transforme em uma política permanente. Segundo a empresa, o atual formato ainda apresenta barreiras para os caminhoneiros autônomos, especialmente em razão das exigências documentais e dos critérios de aprovação de crédito.
Crédito mais barato não elimina riscos
Embora o novo ciclo de financiamentos tenha sido recebido com entusiasmo pela indústria e pelos transportadores, especialistas alertam para os riscos de endividamento em um setor que vem operando com margens cada vez mais apertadas.
O advogado Gustavo Maffioleti, sócio-fundador da Maffioletti & Arndt Advogados, avalia que parte das empresas interessadas em renovar a frota já enfrenta dificuldades financeiras decorrentes da alta dos custos operacionais e da dificuldade de repassar esses aumentos ao valor do frete.
Segundo ele, o crédito subsidiado pode melhorar as condições de financiamento, mas não resolve problemas estruturais de rentabilidade. Em operações financeiramente fragilizadas, a aquisição de novos veículos pode ampliar o comprometimento financeiro sem necessariamente gerar aumento proporcional de receita.
A taxa de inadimplência da carteira de financiamento de caminhões deve ultrapassar 5% nos próximos trimestres, aproximando-se do pico registrado durante a recessão de 2015 e 2016, quando o indicador chegou a 5,8%, segundo alerta Francisco Maqueda, diretor de risco do Banco Traton, braço financeiro da Volkswagen Caminhões e Ônibus. “Estamos voltando para um período de estresse semelhante ao de 2016”, afirmou Maqueda à Agência Transporte Moderno. “Hoje a taxa está em 4,7%, segundo os últimos dados do Banco Central, mas com certeza vai passar de 5%.”
O movimento ocorre em um ambiente de juros elevados, crédito seletivo e aumento dos custos operacionais, fatores que afetam diretamente transportadoras e frotistas, tradicionalmente dependentes de financiamentos para renovação da frota.
Margens cada vez menores
A pressão financeira sobre as empresas de transporte tem origem em uma mudança estrutural observada nos últimos anos. De acordo com estimativas apresentadas por Maffioletti, custos como diesel, pneus, manutenção, pedágios e mão de obra acumularam aumento próximo de 60% nos últimos cinco anos.
No mesmo período, os reajustes do frete ficaram entre 30% e 35%, reduzindo significativamente a rentabilidade das operações.
Na avaliação do advogado, transportadoras que historicamente trabalhavam com margens próximas de 12% passaram a operar com rentabilidades em torno de 5%, mesmo em estruturas consideradas eficientes.
Nesse contexto, o Move Brasil surge como uma oportunidade para modernizar a frota e reduzir custos operacionais de manutenção e consumo de combustível. Entretanto, especialistas ressaltam que o sucesso dos investimentos dependerá da capacidade das empresas de equilibrar crescimento, geração de caixa e gestão financeira.
A expectativa do setor é que a nova rodada de financiamentos impulsione a produção da indústria, fortaleça concessionárias, fabricantes de implementos e fornecedores de autopeças. O desafio será garantir que a renovação da frota venha acompanhada de sustentabilidade financeira para os transportadores, evitando que o crédito subsidiado se transforme em um novo fator de pressão sobre um segmento já bastante alavancado.
Regras de acesso
Podem participar do Move Brasil 2 transportadores autônomos de cargas, pessoas físicas associadas a cooperativas, empresários individuais e empresas de transporte rodoviário ou urbano de cargas e passageiros.
Para veículos novos, é obrigatório que sejam fabricados no Brasil, credenciados no BNDES e atendam às exigências ambientais da fase P-8 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Já os caminhões e caminhões-tratores seminovos, disponíveis apenas para autônomos e cooperados, devem ter sido fabricados a partir de 2012 e atender à fase P-7 do Proconve.
Os prazos variam conforme o perfil do tomador:
- Transportadores autônomos e cooperados: até 120 meses para pagamento, com carência de até 12 meses.
- Empresas de transporte de cargas: até 60 meses para pagamento, com carência de até seis meses.
- Empresas de transporte de passageiros: até 120 meses para pagamento, com carência de até seis meses.
As taxas de juros devem ficar próximas de 13% ao ano, abaixo das praticadas em financiamentos convencionais. O limite de crédito é de até R$ 50 milhões por cliente. Além dos veículos e implementos, o financiamento pode incluir despesas associadas à operação, como seguro do bem, seguro prestamista e custos relacionados a fundos garantidores, desde que contratados juntamente com a operação principal.
Os interessados devem procurar um banco ou instituição financeira credenciada ao BNDES. O Banco não realiza a contratação diretamente com o cliente final. Cabe ao agente financeiro analisar o crédito, definir as condições da operação e encaminhar a proposta para aprovação. O prazo para protocolar pedidos vai até 28 de agosto de 2026, enquanto a contratação deverá ser comunicada ao BNDES até 28 de setembro. Os recursos, porém, podem se esgotar antes dessas datas, caso a demanda supere a dotação orçamentária disponível.
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