Armadores suspendem cargas para Cuba após sanções dos EUA

Hapag-Lloyd e CMA CGM interrompem reservas e ampliam pressão logística sobre comércio marítimo cubano

Valeria Bursztein

A suspensão de novas reservas de cargas com destino a Cuba pelas armadoras alemã Hapag-Lloyd e francesa CMA CGM intensificou a atenção do setor marítimo internacional para os efeitos das novas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos ao governo cubano e a empresas ligadas à estrutura estatal da ilha.

As duas companhias interromperam temporariamente a aceitação de novas reservas de embarque enquanto avaliam os impactos da Ordem Executiva 14404, assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A medida amplia o alcance das sanções norte-americanas contra entidades associadas ao governo cubano e ao conglomerado estatal Gaesa, grupo controlado pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR).

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Impacto imediato

Segundo informações divulgadas inicialmente pelo portal Cibercuba e repercutidas pela agência EFE, a Hapag-Lloyd ativou um mecanismo de “stop booking”, suspendendo o registro de novas reservas de espaço para cargas destinadas à ilha até 5 de junho. A data coincide com o prazo estabelecido pelas autoridades norte-americanas para que empresas potencialmente afetadas revisem ou encerrem atividades relacionadas a Cuba.

No transporte marítimo, esse tipo de medida costuma ser adotado de forma preventiva diante de mudanças regulatórias, sanções internacionais ou aumento do risco jurídico e financeiro das operações. A suspensão temporária permite que armadores revisem contratos, riscos regulatórios e impactos comerciais antes de manter serviços em mercados sujeitos a restrições.

No caso da CMA CGM, agentes ligados à companhia em Cuba informaram que não houve comunicação formal de paralisação das operações. Ainda assim, os sistemas da empresa deixaram de processar novas reservas relacionadas à ilha, indicando uma interrupção prática das novas reservas.

As medidas aumentam a pressão sobre a logística cubana, fortemente dependente do transporte marítimo para abastecimento de alimentos, combustíveis, medicamentos e produtos industrializados. A maior parte das importações do país chega por via marítima, o que torna o funcionamento regular das rotas de contêineres essencial para o abastecimento da ilha.

Preocupação com o Porto de Mariel

A principal preocupação das companhias marítimas está na ligação entre o sistema portuário cubano e o grupo Gaesa, conglomerado controlado pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e responsável por atividades consideradas estratégicas pelos Estados Unidos. O grupo atua em áreas como infraestrutura portuária, terminais marítimos, logística, serviços aduaneiros e na Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel.

O Porto de Mariel se consolidou nos últimos anos como o principal projeto logístico cubano voltado ao comércio exterior. O terminal foi estruturado para atuar como plataforma regional de transbordo no Caribe, conectando serviços feeder e rotas internacionais, e recebeu investimentos brasileiros durante sua implantação, incluindo financiamento do BNDES e participação da Odebrecht nas obras.

Geopolítica pressiona armadores

A Ordem Executiva 14404, assinada em 1º de maio, prevê congelamento de ativos em território norte-americano de pessoas físicas ou jurídicas ligadas ao governo cubano, além de penalidades para empresas que mantenham relações comerciais com setores classificados como estratégicos, entre eles energia, defesa, finanças, mineração e segurança.

O endurecimento das medidas reforça o impacto crescente das disputas geopolíticas sobre a navegação internacional. Nos últimos anos, armadores passaram a conviver com restrições operacionais relacionadas a mercados como Rússia, Irã e Venezuela, cenário que elevou o peso das análises de compliance e risco regulatório dentro das grandes companhias marítimas.

Na prática, muitas empresas passaram a adotar medidas preventivas antes mesmo da aplicação efetiva de sanções, buscando reduzir riscos financeiros, jurídicos e reputacionais, além de evitar problemas de acesso ao sistema bancário internacional e ao mercado norte-americano.

O cenário também pode provocar ajustes nas rotas marítimas do Caribe. Operadores do setor avaliam que parte das cargas pode migrar para serviços feeder ou armadores regionais menos expostos ao mercado dos Estados Unidos. A tendência ainda pode pressionar custos logísticos, seguros marítimos e disponibilidade de capacidade para operações envolvendo Cuba.

Empresas exportadoras da América Latina que utilizam Cuba como destino ou ponto logístico regional acompanham o movimento com atenção diante do risco de redução da oferta marítima e aumento dos custos operacionais.

O tema ganha relevância em um momento de forte expansão do comércio exterior brasileiro. Em 2025, a corrente de comércio do Brasil utltrapassou os US$ 620 bilhões, maior patamar da série histórica, em um cenário de crescente sensibilidade das cadeias logísticas a tensões geopolíticas e restrições comerciais.

Embora Cuba não figure entre os principais parceiros comerciais do Brasil, o fluxo bilateral envolve principalmente alimentos, proteína animal, grãos e produtos industrializados transportados por via marítima. Em 2022, o comércio entre os dois países somou cerca de US$ 292,6 milhões, com forte superávit brasileiro.

As mudanças também atingem um momento de expansão dos investimentos das grandes companhias marítimas em logística integrada, terminais portuários e transporte multimodal. Tanto a CMA CGM quanto a Hapag-Lloyd vêm ampliando presença em operações terrestres, armazenagem e infraestrutura portuária, o que aumentou a necessidade de controle sobre riscos regulatórios e exposição geopolítica.

O episódio evidencia como fatores políticos passaram a influenciar diretamente decisões operacionais da navegação internacional. Além da dinâmica tradicional de oferta e demanda, armadores passaram a incorporar variáveis como sanções econômicas, acesso ao sistema financeiro, exposição reputacional e alinhamento regulatório na definição de rotas, mercados atendidos e estratégias comerciais.


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