A Autoridade do Canal do Panamá começou a avaliar possíveis restrições de calado para os navios que utilizam a hidrovia diante do risco de um novo fenômeno El Niño comprometer a disponibilidade de água necessária à operação da rota interoceânica. A informação foi divulgada inicialmente pela Bloomberg.
A medida tem caráter preventivo e busca evitar a repetição da crise enfrentada entre 2023 e 2024, quando a queda dos níveis dos lagos que abastecem o sistema levou à redução do número diário de trânsitos, provocando filas de embarcações, aumento dos custos logísticos e mudanças nas rotas do comércio internacional.
Segundo o administrador do Canal do Panamá, Ricaurte Vásquez, as equipes técnicas já iniciaram a revisão das regras que determinam os limites de carga das embarcações em função da profundidade disponível. Normalmente, essa avaliação ocorre apenas em dezembro.
Atualmente, as chuvas registradas nos últimos meses permitem a operação com calado de até 50 pés. Nas eclusas Neopanamax, utilizadas por navios de maior porte, o calado médio varia entre 47 e 49,5 pés. De acordo com Vásquez, uma redução moderada de um pé poderá ser implementada já no fim de junho, caso as condições hidrológicas se deteriorem.
Rota estratégica para o comércio mundial
A preocupação da autoridade panamenha envolve uma das principais artérias do transporte marítimo global. Cerca de 5% do comércio marítimo mundial passa anualmente pelo Canal do Panamá, que conecta mais de 1.700 portos em aproximadamente 160 países.
Após a recuperação das restrições impostas pela seca, o canal encerrou o ano fiscal de 2025 com receita recorde de US$ 5,7 bilhões. No período, foram registrados 13.404 trânsitos de embarcações, alta de 19,3% em relação ao exercício anterior, com movimentação aproximada de 489 milhões de toneladas de carga.
O segmento de contêineres permanece entre os mais relevantes para a hidrovia. As eclusas Neopanamax, inauguradas na ampliação do Canal em 2016, permitem a passagem de navios com capacidade para até 14 mil TEUs, ampliando significativamente a eficiência das rotas entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
Impacto sobre a capacidade dos navios
Embora a possível redução de um pé no calado pareça limitada, especialistas do mercado marítimo apontam que a medida pode gerar impactos relevantes na capacidade de transporte.
Durante a crise hídrica de 2023, análises do setor indicaram que cada pé de redução no calado poderia representar perda de aproximadamente 400 TEUs em navios porta-contêineres de grande porte.
Na prática, isso reduz a quantidade de carga embarcada por viagem, diminui a produtividade dos serviços marítimos e pode pressionar os custos de transporte.
Em cenários mais severos, armadores podem ser obrigados a redistribuir cargas, utilizar embarcações adicionais ou buscar rotas alternativas, elevando os tempos de trânsito e os custos logísticos.
Reflexos para o Brasil
Para o comércio exterior brasileiro, eventuais restrições no Canal do Panamá são acompanhadas com atenção por exportadores, armadores e operadores logísticos. A rota é utilizada por cargas destinadas à costa oeste dos Estados Unidos, América Central e parte dos mercados asiáticos, além de integrar fluxos de contêineres, produtos químicos, fertilizantes e commodities agrícolas.
Ao iniciar as avaliações com antecedência, a Autoridade do Canal do Panamá sinaliza uma mudança de postura em relação à crise anterior. O objetivo é preservar a previsibilidade operacional de uma rota estratégica para as cadeias globais de suprimentos e reduzir o risco de novas interrupções no fluxo do comércio internacional.
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