A América Latina recebeu 349,3 mil TEUs adicionais de capacidade de transporte marítimo nos últimos 12 meses e tornou-se o terceiro principal destino mundial dos novos investimentos dos armadores. Os dados são da consultoria Alphaliner, que analisou a evolução da capacidade global da frota de contêineres entre maio de 2025 e maio de 2026. No período, a frota mundial cresceu 5,7%, alcançando 33,9 milhões de TEUs, com a incorporação de 1,84 milhão de TEUs de nova capacidade.
Embora a maior parcela desse crescimento tenha sido direcionada à rota entre Extremo Oriente e Europa, que recebeu 667,4 mil TEUs adicionais, a América Latina aparece como um dos mercados mais atrativos para as companhias marítimas, registrando expansão de 7,8% na oferta de espaço para cargas conteinerizadas.
Rotas Norte-Sul ganham relevância
Segundo levantamento da Alphaliner, a expansão da capacidade na América Latina faz parte de uma tendência mais ampla de fortalecimento dos fluxos Norte-Sul, enquanto algumas das tradicionais rotas Leste-Oeste apresentam crescimento limitado ou até redução de oferta.
Para os armadores, mercados emergentes vêm oferecendo perspectivas mais favoráveis de crescimento do que corredores maduros, especialmente diante das transformações nas cadeias globais de suprimentos e da busca por novas oportunidades comerciais. A consultoria destaca que o aumento da capacidade na América Latina foi superado apenas pelos acréscimos registrados nas rotas entre Ásia e Europa e nos serviços destinados ao continente africano.
Volume do comércio exterior chama atenção
A ampliação da oferta de espaço acompanha a evolução do comércio exterior latino-americano, especialmente em países exportadores de commodities agrícolas, minerais e produtos industrializados.
No Brasil, a movimentação de contêineres continua avançando nos principais portos. O Porto de Santos (SP) movimentou mais de 1,4 milhão de TEUs no primeiro trimestre de 2026, o melhor resultado já registrado para o período. Apenas em março, foram movimentados cerca de 485 mil TEUs, alta de 5,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
O desempenho reflete o crescimento das exportações e importações brasileiras, especialmente nos fluxos com a Ásia, principal parceira comercial do país. Além das commodities, a retomada das importações de máquinas, equipamentos, componentes industriais e bens de capital tem contribuído para sustentar a demanda por serviços marítimos regulares.
Para o mercado, a decisão dos armadores de ampliar capacidade na região sinaliza confiança na continuidade do crescimento dos fluxos comerciais latino-americanos, mesmo em um ambiente marcado por incertezas geopolíticas e mudanças nas políticas tarifárias de grandes economias.
Mais capacidade, mesmos gargalos
A chegada de novos serviços e o aumento da oferta de espaço para cargas podem ampliar a competitividade logística da região, mas também evidenciam antigos desafios estruturais que permanecem sem solução.
Nos últimos anos, operadores portuários, terminais e armadores vêm alertando para a necessidade de ampliar a capacidade dos principais complexos portuários brasileiros. Em Santos, maior complexo portuário da América Latina, representantes do setor apontam que os níveis de ocupação dos terminais já superam patamares considerados confortáveis para absorver o crescimento projetado para os próximos anos.
O desafio não se limita aos cais. O aumento da movimentação de cargas também estrangula acessos rodoviários e ferroviários, áreas retroportuárias e sistemas de armazenagem. A preocupação cresce à medida que navios cada vez maiores passam a integrar os serviços que atendem a costa leste da América do Sul, exigindo maior eficiência operacional e capacidade de processamento das cargas nos portos.
Reorganização global da frota
O levantamento da Alphaliner mostra que a redistribuição da capacidade global também está sendo influenciada pelas tensões geopolíticas. A crise de segurança no Mar Vermelho continua provocando desvios de embarcações pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando o tempo das viagens e exigindo mais navios para manter a regularidade dos serviços entre Ásia e Europa. Como resultado, a rota absorveu mais de um terço de toda a nova capacidade incorporada à frota mundial no período analisado.
Atualmente, cerca de 25% da frota global de contêineres opera nos serviços entre Extremo Oriente e Europa, acima dos 20,8% registrados há três anos. Em contrapartida, a capacidade destinada ao Oriente Médio e ao subcontinente indiano recuou 7,6% na comparação anual, refletindo os impactos das tensões regionais sobre as operações marítimas.
A rota entre Europa e América do Norte também perdeu espaço, com retração de 1,8% na capacidade disponível. Entre os fatores apontados pela consultoria estão o enfraquecimento das exportações europeias e a reorganização dos serviços promovida pelas companhias marítimas.
Para a Alphaliner, os números confirmam que o crescimento da navegação regular de contêineres está cada vez mais concentrado em mercados emergentes e nos fluxos Norte-Sul. Nesse cenário, a América Latina mantém posição estratégica para os armadores e deve continuar recebendo novos investimentos em capacidade nos próximos anos.
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