De Curitiba*
A Volvo avalia que os recursos destinados aos frotistas na segunda fase do programa Move Brasil deverão se esgotar até a segunda quinzena de julho. Segundo Alcides Cavalcanti, diretor da Volvo Caminhões, a demanda pelo crédito subsidiado está ocorrendo em ritmo ainda mais acelerado do que na primeira edição do programa, impulsionando uma antecipação das compras de caminhões por parte das transportadoras.
A nova etapa do Move Brasil entrou em vigor em 29 de maio com R$ 21 bilhões em recursos, dos quais R$ 17 bilhões foram reservados para o segmento de caminhões, R$ 2 bilhões para ônibus e R$ 2 bilhões para transportadores autônomos.
“Já esperávamos esse movimento e foi exatamente o que aconteceu. Muitos clientes que planejavam renovar a frota ao longo do ano decidiram antecipar as compras para garantir acesso aos recursos”, afirmou Cavalcanti.
Segundo o executivo, a antecipação envolve tanto empresas que deixariam a renovação para o segundo semestre quanto aquelas que tradicionalmente distribuem as aquisições ao longo do ano. “Havia transportadores aguardando uma possível redução das taxas de juros ou planejando compras para mais adiante. Com a abertura da linha, optaram por acelerar as decisões para assegurar o financiamento”, explicou.
De acordo com Cavalcanti, os sinais iniciais mostram uma velocidade de contratação superior à observada na primeira fase do programa. Informações preliminares apontavam que cerca de R$ 2,5 bilhões já haviam sido contratados poucos dias após a abertura da nova rodada de crédito. “A expectativa é que os recursos para frotistas estejam comprometidos até a segunda quinzena de julho”, disse.
O executivo lembra ainda que a aprovação do financiamento garante a reserva dos recursos mesmo que o faturamento do caminhão ocorra posteriormente. Após a aprovação do crédito, os clientes contam com prazo de até três meses para concluir o faturamento dos veículos.
Embora não divulgue o volume de caminhões financiados na primeira fase do Move Brasil, Cavalcanti afirmou que a Volvo Financial Services (VFS) foi a terceira instituição financeira que mais utilizou os recursos do programa. Entre os bancos ligados a montadoras, a operação financeira da Volvo liderou a contratação dos financiamentos subsidiados.
Programa sustenta o mercado
Para a Volvo, o Move Brasil tornou-se um dos principais fatores de sustentação do mercado brasileiro de caminhões em 2026, em um cenário ainda marcado por juros elevados e menor apetite para investimentos.
No primeiro trimestre do ano, o mercado registrou queda de aproximadamente 28% em relação ao mesmo período de 2025. Com a recuperação observada nos meses de abril e maio, a retração acumulada diminuiu para cerca de 15%.
Apesar da melhora, a fabricante mantém uma visão cautelosa para o restante do ano. “Continuamos entendendo que o mercado deverá fechar entre 10% e 15% abaixo do registrado no ano passado”, afirmou Cavalcanti.
Segundo ele, sem o programa de financiamento subsidiado, a retração poderia ser significativamente maior. “O Move Brasil está ajudando a sustentar o mercado. Sem esse recurso, a queda poderia ser muito mais acentuada, podendo chegar a 30% de retração”, avaliou.
Demanda antecipada não justifica expansão industrial
Embora a nova rodada de crédito esteja impulsionando os negócios, a Volvo não vê o movimento atual como suficiente para justificar expansões permanentes da capacidade produtiva. Para Cavalcanti, o aumento das vendas decorre principalmente da antecipação de compras que ocorreriam mais adiante, e não de uma expansão estrutural da demanda.
“Não se trata de uma demanda nova. É uma demanda que está sendo antecipada. Por isso, não faz sentido tomar decisões estruturais, como abrir um terceiro turno de produção, para atender um movimento temporário”, explicou. Segundo ele, ampliar a capacidade industrial diante de um estímulo de curto prazo poderia gerar dificuldades futuras caso os recursos se esgotem e o mercado volte a desacelerar.
Mesmo com o aumento da demanda impulsionado pelo Move Brasil 2, a Volvo ainda opera abaixo de sua capacidade instalada nas linhas de caminhões produzidas em Curitiba (PR). O complexo industrial da montadora na capital paranaense, que reúne as fábricas de cabines, caminhões e motores, emprega atualmente cerca de 1.500 funcionários.
A linha F trabalha em dois turnos e produz aproximadamente 85 veículos por dia. A capacidade instalada, porém, permite alcançar até 100 unidades diárias sem necessidade de expansão da estrutura produtiva. Já a linha VM opera em um único turno, com produção de cerca de 40 caminhões por dia, também abaixo de sua capacidade máxima.
Como explicou o diretor da Volvo Caminhões, o aumento da demanda observado nas últimas semanas está diretamente relacionado à antecipação de compras estimulada pelo Move Brasil 2. Como se trata de um movimento pontual e dependente da disponibilidade dos recursos subsidiados, a montadora não vê justificativa para ampliar permanentemente a operação.
Programa permanente ainda é incerto
O executivo afirmou que existem discussões no mercado sobre a possibilidade de transformar o Move Brasil em um programa permanente, mas ressaltou que a viabilidade da proposta depende da disponibilidade de recursos para subsidiar as taxas de financiamento. “É uma iniciativa que exige aporte de recursos. Tudo depende da capacidade de o governo e os agentes financeiros sustentarem esse subsídio ao longo do tempo”, disse.
Enquanto isso, a expectativa da Volvo é que a segunda fase do programa continue impulsionando as vendas nos próximos meses e contribua para reduzir a queda prevista para o mercado brasileiro de caminhões em 2026.
*A jornalista viajou a convite da Volvo Caminhões.
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