A possibilidade de uma nova estiagem severa na Amazônia em 2026 levou o governo federal a antecipar medidas para tentar reduzir impactos sobre a navegação, o abastecimento de cidades e o transporte de cargas na região Norte.
Depois das crises registradas em 2023 e 2024, quando rios atingiram níveis historicamente baixos, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) ampliaram o planejamento de dragagens, manutenção hidroviária e monitoramento das condições de navegabilidade.
A movimentação logística na região Norte acontece em ritmo acelerado, daí a crescente preocupação do governo. Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) mostram que os portos nortistas movimentaram 163,3 milhões de toneladas em 2025, alta de 10,3% sobre o ano anterior, impulsionados principalmente pelo avanço do agronegócio e da navegação ligada ao chamado Arco Norte.
Nas hidrovias amazônicas e do sistema Tocantins-Araguaia, a movimentação superou 107 milhões de toneladas, consolidando a navegação interior como eixo estratégico para abastecimento regional, exportações e integração logística da Amazônia.
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Medidas emergênciais e preventivas
A estratégia federal inclui reforço da sinalização náutica, acompanhamento contínuo das cotas dos rios e definição antecipada de trechos prioritários para intervenções. O objetivo é evitar a repetição dos gargalos logísticos que afetaram o transporte de passageiros, o envio de alimentos, combustíveis e medicamentos e a operação de cargas na região amazônica nos últimos anos.
Entre as iniciativas em preparação está o lançamento do Painel de Monitoramento das Hidrovias, ferramenta da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação (SNHN) que permitirá acompanhar, em tempo real, as condições de navegabilidade em diferentes corredores hidroviários do país. O sistema reunirá dados hidrológicos, informações operacionais e alertas para apoiar decisões sobre dragagem e manutenção de canais durante períodos críticos.
Segundo o ministro de Portos e Aeroportos, Tomé Franca, a antecipação das ações busca reduzir os impactos econômicos e sociais da estiagem na Amazônia. “Estamos atuando de forma preventiva para reduzir os impactos de uma possível nova seca na região. Fortalecer o acompanhamento das hidrovias e preparar previamente as ações operacionais é fundamental para garantir abastecimento, mobilidade e segurança à população que depende dos rios no dia a dia”, afirmou.
Estiagens elevam custos operacionais
As secas registradas em 2023 e 2024 expuseram a vulnerabilidade logística da região Norte diante da redução do nível dos rios. Municípios como Manacapuru, Tabatinga, Itacoatiara e Parintins enfrentaram dificuldades de abastecimento e restrições de mobilidade com a queda acentuada das cotas fluviais.
Em Itacoatiara, o Rio Amazonas chegou a atingir apenas 83 centímetros em 2024. Já em Parintins, o nível do rio caiu para 1,9 metro, menor marca em quase cinco décadas. O cenário afetou desde o transporte de combustíveis e mercadorias até atividades ligadas à pesca e à agricultura familiar, além de isolar comunidades ribeirinhas e indígenas.
Os impactos também atingiram diretamente a logística de cargas. Durante os períodos mais críticos, armadores e operadores hidroviários precisaram reduzir o volume transportado para evitar encalhes, operar com restrições de calado e reorganizar rotas em corredores considerados estratégicos para a navegação interior brasileira.
Em diversos trechos, empresas recorreram a operações emergenciais de transbordo, ampliando custos operacionais e tempo de trânsito. A estiagem também elevou a pressão sobre modais alternativos, principalmente o rodoviário e o aéreo, em uma região altamente dependente das hidrovias para abastecimento e integração regional.
A crise afetou inclusive cadeias industriais relevantes para a economia brasileira. Empresas instaladas na Zona Franca de Manaus enfrentaram atrasos na chegada de insumos e dificuldades no escoamento de produtos acabados, enquanto distribuidoras de combustíveis precisaram reorganizar operações para evitar desabastecimento em municípios isolados.
O agronegócio também sentiu os efeitos da seca, especialmente em rotas ligadas ao Corredor Norte, onde limitações operacionais em rios estratégicos comprometeram a movimentação de grãos e pressionaram custos logísticos.
Mudanças no planejamento do setor
A recorrência das secas na Amazônia começa a alterar o planejamento operacional de empresas de navegação, operadores logísticos, embarcadores e tradings. Eventos climáticos extremos passaram a ser considerados uma variável permanente para definição de estoques, rotas, contratos de transporte e estratégias de contingência na região Norte.
Especialistas do setor apontam que a combinação entre mudanças climáticas e fenômenos como o El Niño tende a ampliar a frequência e a intensidade das estiagens na Amazônia, aumentando a pressão sobre a infraestrutura hidroviária brasileira.
Nesse cenário, cresce a preocupação com a necessidade de investimentos permanentes em dragagem, monitoramento hidrológico e manutenção dos canais de navegação, principalmente em corredores utilizados para transporte de combustíveis, contêineres, grãos e cargas de projeto.
Dragagem e contratos permanentes
Para ampliar a capacidade de resposta durante períodos críticos, o Dnit afirma ter estruturado contratos permanentes de manutenção hidroviária, modelo que permite maior previsibilidade para intervenções preventivas e emergenciais.
De acordo com o diretor-geral do órgão, Edme Tavares, a estrutura atual permite atuação mais rápida em comparação aos anos anteriores. “Hoje temos uma estrutura mais preparada para agir preventivamente. Os contratos em vigor permitem maior planejamento das intervenções necessárias para manter a navegabilidade e reduzir impactos logísticos e sociais na região amazônica”, afirmou.
O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, destacou que a dependência do transporte fluvial na Amazônia torna a antecipação das ações uma necessidade estratégica. “A Amazônia depende diretamente dos rios para garantir abastecimento, mobilidade e integração regional. Por isso, o governo federal vem atuando de forma preventiva, com acompanhamento contínuo das condições de navegabilidade e planejamento das ações necessárias para reduzir impactos à população e à logística da região”, disse.
Já o diretor de Gestão Hidroviária, Eliezé Bulhões, afirmou que a integração de dados hidrológicos e operacionais deverá acelerar a identificação de pontos críticos e melhorar a coordenação das respostas durante períodos de estiagem.
O cenário cria um paradoxo para a política logística brasileira: ao mesmo tempo em que o país busca ampliar o uso das hidrovias para reduzir custos e emissões, os eventos climáticos extremos aumentam a vulnerabilidade operacional desses corredores.
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