O Tecon Suape enfrenta a perspectiva de uma perda de cargas maior do que a projetada inicialmente. Além da transferência dos serviços da Aliança Navegação e Logística para o novo terminal da APM Terminals, pertencente ao grupo Maersk, a ICTSI afirma ter sido comunicada de que a MSC também deixará de movimentar seus contêineres na instalação.
A mudança da Aliança já era esperada, uma vez que a companhia de cabotagem integra o grupo Maersk. A decisão da MSC, porém, amplia a perda de cargas do Tecon, operado pela ICTSI, e torna insuficiente a projeção financeira divulgada anteriormente pela empresa.
A informação sobre a saída da MSC veio a público em 21 de agosto, quando a ICTSI informou ter recebido um comunicado da armadora e anunciou que havia protocolado representações no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no Tribunal de Contas da União (TCU) e na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
Cinco dias depois, em 26 de agosto, a Aliança confirmou que começará a operar na APM Terminals Suape em 1º de setembro. A companhia programou três escalas semanais no novo terminal.
Até o momento, a MSC não confirmou publicamente a transferência nem informou quando deixará de operar no Tecon Suape. Também não foi divulgado o volume movimentado pela armadora no terminal.
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Projeção precisa ser revista
O Tecon Suape movimentou aproximadamente 720 mil TEUs em 2025. Antes da notificação da MSC, a ICTSI estimava perder entre 30% e 35% desse volume com a transferência das cargas da Maersk para o novo terminal da APM Terminals.
Pelos cálculos apresentados pela empresa, a movimentação poderia cair para cerca de 450 mil TEUs por ano. O volume ficaria 100 mil TEUs abaixo do ponto de equilíbrio da operação, estimado em 550 mil TEUs.
A projeção de 450 mil TEUs, no entanto, foi feita antes da comunicação da MSC e não representa mais o cenário completo. A ICTSI ainda não informou qual poderá ser a movimentação do Tecon depois da perda das cargas das duas companhias.
Em entrevista anterior à Agência Transporte Moderno, o CEO do Tecon Suape, Thomas Lima, explicou que o volume mínimo necessário para sustentar a atual estrutura considera os custos operacionais e os pagamentos previstos no contrato de arrendamento. “Com a configuração do terminal hoje, com o que pagamos de outorga e custos operacionais, o break-even é 550 mil TEUs”, afirmou.
Na projeção anterior, caso a movimentação caísse para 450 mil TEUs e o mercado crescesse cerca de 2% ao ano, seriam necessários aproximadamente 12 anos para o terminal voltar ao ponto de equilíbrio, sem a conquista de novos clientes ou a recuperação de participação no mercado. Esse cálculo também terá de ser revisto caso a saída da MSC se confirme.
Devolução antecipada é considerada
A ICTSI já admitia a possibilidade de devolver antecipadamente o contrato de arrendamento do Tecon Suape caso a operação se tornasse economicamente insustentável. O contrato vigora até 2031.
Durante mais de duas décadas, o Tecon foi o único terminal especializado na movimentação de contêineres no complexo portuário pernambucano. A configuração mudou com a entrada da APM Terminals Suape, instalada na área do antigo Estaleiro Atlântico Sul.
O empreendimento recebeu investimentos superiores a US$ 350 milhões e foi projetado para movimentar inicialmente até 400 mil TEUs por ano. Segundo a APM Terminals, a nova instalação ampliará em aproximadamente 55% a capacidade de movimentação de contêineres de Suape.
A Aliança afirma que a transferência permitirá ampliar a produtividade, a confiabilidade e a flexibilidade de suas operações. A companhia terá três escalas semanais no terminal, integradas aos serviços ALCT 1 e ALCT 2, que conectam Pernambuco às regiões Norte, Sudeste e Sul.
“O Nordeste é uma das regiões mais dinâmicas para o crescimento da cabotagem no Brasil. Nossa chegada à APM Terminals Suape amplia a capacidade de conectar empresas nordestinas aos principais mercados consumidores nacionais”, afirmou Luiza Bublitz, presidente da Aliança.
Caso chega ao Cade, TCU e Antaq
A ICTSI sustenta que a perda de cargas para um terminal verticalizado pode inviabilizar economicamente o Tecon Suape e, no futuro, reduzir a concorrência no complexo portuário. A operadora afirma não ser contrária à entrada de um segundo terminal. O questionamento está concentrado na transferência de volumes históricos para uma instalação pertencente ao mesmo grupo econômico de um dos maiores armadores do mundo.
À Antaq, a ICTSI solicitou uma nova análise do contrato de adesão da APM Terminals, a abertura de processo sancionador e uma medida cautelar para impedir a transferência do volume histórico de cargas da Maersk. No Cade, pediu a apuração de possível abuso de posição dominante.
A empresa havia proposto que a média das cargas da Maersk movimentadas pelo Tecon Suape nos últimos cinco anos fosse preservada no terminal arrendado. A partir dessa base, os dois operadores disputariam os novos volumes atraídos para Suape.
A saída da MSC introduz outra questão nessa disputa. Ao contrário da Aliança, a armadora não pertence ao grupo Maersk. MSC e Maersk, contudo, são sócias na Brasil Terminal Portuário (BTP), no Porto de Santos, e mantiveram durante dez anos a aliança operacional marítima 2M, encerrada em 2025.
Maersk e MSC não haviam se manifestado sobre os questionamentos da ICTSI até a conclusão desta reportagem. Sem a confirmação do volume da MSC e da data prevista para a transferência, ainda não é possível calcular o tamanho da perda. Para o Tecon Suape, porém, a projeção anterior de 450 mil TEUs já não serve mais como referência para medir o risco da operação.
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