Um único contêiner com cerca de 4,2 mil notebooks pode concentrar 416 kWh de energia em baterias de lítio — o equivalente à capacidade de três ou quatro veículos elétricos — e ainda assim ser transportado sem documentação de carga perigosa ou sinalização específica.
A possibilidade decorre de uma brecha nas normas internacionais de transporte marítimo, segundo o World Shipping Council (WSC), entidade que representa as principais companhias de navegação do mundo. O setor pressiona agora os governos a rever a regra diante do crescimento desses embarques e da recorrência de incêndios a bordo.
O ponto em discussão é a Disposição Especial 188 do Código Marítimo Internacional de Cargas Perigosas, conhecido pela sigla IMDG. A norma dispensa baterias de menor capacidade de algumas exigências, desde que atendam a critérios de ensaio, embalagem e potência.
A regra, porém, não estabelece um limite para a quantidade de baterias que podem ser reunidas em um mesmo contêiner. Na prática, milhares de unidades enquadradas individualmente na isenção podem formar uma carga com elevado volume de energia armazenada sem que armadores, tripulações ou terminais portuários sejam informados sobre o risco.
“A isenção não foi criada para tornar invisíveis contêineres inteiros”, alertou Joe Kramek, presidente e CEO do WSC.
Volume desconhecido
Não há uma estatística internacional consolidada sobre o volume de baterias de lítio efetivamente transportado por via marítima. A própria isenção dificulta esse levantamento, pois os contêineres enquadrados na SP188 podem ser registrados e movimentados como carga geral, sem identificação específica nos documentos de transporte.
A dimensão do mercado, no entanto, ajuda a indicar a escala potencial desses fluxos. Segundo a Agência Internacional de Energia, a utilização mundial de baterias de íons de lítio em diferentes aplicações aumentou mais de seis vezes entre 2020 e 2025.
Somente as baterias destinadas a veículos elétricos alcançaram 1,2 TWh em 2025, avanço de quase 30% em relação ao ano anterior. O segmento respondeu por mais de 70% do total utilizado no mundo.
A produção também permanece fortemente concentrada. A China detém mais de 80% da capacidade mundial de fabricação de baterias de íons de lítio, enquanto Europa e Estados Unidos concentram entre 6% e 7% cada um. Essa configuração amplia a circulação internacional do produto, tanto em contêineres com baterias quanto embarcado em veículos, notebooks, celulares e outros equipamentos.
Risco desconhecido
O WSC ressalta que as baterias são transportadas com segurança quando corretamente declaradas e submetidas aos procedimentos adequados. O problema surge quando a presença do material não é informada.
Sem esses dados, os armadores não conseguem avaliar o risco, definir a posição mais apropriada para o contêiner a bordo, mantê-lo afastado de outras cargas sensíveis ou preparar previamente uma estratégia de combate a incêndio.
A falta de informação também compromete a atuação de tripulações, terminais e equipes de emergência. Um contêiner não identificado pode ser colocado em uma área de difícil acesso ou em posição que favoreça a propagação das chamas para outras cargas.
Incêndios podem reacender
Quando danificadas, submetidas a temperaturas elevadas ou embaladas de maneira inadequada, as células de íons de lítio podem entrar em fuga térmica. Nesse processo, a elevação acelerada da temperatura libera gases inflamáveis, alimenta o fogo e pode provocar explosões.
O combate é especialmente complexo no mar. Além da dificuldade de acesso aos contêineres durante a viagem, as baterias podem voltar a pegar fogo horas ou até dias depois de uma aparente extinção.
Mais de 200 incêndios foram registrados em grandes embarcações em 2025, o segundo maior número da última década, segundo o relatório Safety and Shipping Review 2026, da Allianz Commercial.
A seguradora aponta que cargas declaradas de maneira incorreta, entre elas baterias e produtos químicos, aparecem como fator em cerca de um quarto dos incidentes relacionados às cargas. Falhas na documentação e na identificação podem resultar em estiva inadequada e dificultar o trabalho das equipes de combate a incêndio.
Limite por contêiner será discutido
Com o apoio de cinco governos e de organizações da indústria marítima, o WSC encaminhou à Organização Marítima Internacional uma proposta para revisar a isenção. Uma das alternativas é estabelecer um limite máximo de baterias ou de energia acumulada por contêiner.
Acima desse patamar, o embarque teria de ser declarado como carga perigosa e poderia ficar sujeito à identificação externa, além de regras específicas de documentação, estiva e segregação.
A proposta será analisada pelo Subcomitê de Transporte de Cargas e Contêineres da OMI, reunido esta semana em Londres. O WSC pede que o tema seja tratado com urgência e considerado na próxima revisão do Código IMDG.
Mesmo que a mudança avance, a próxima alteração mencionada pela entidade deverá entrar obrigatoriamente em vigor somente em 1º de janeiro de 2030. Até lá, o crescimento do mercado tende a ampliar o número de baterias em circulação sem que os operadores marítimos consigam identificar integralmente onde estão esses produtos e quanta energia está concentrada em cada contêiner.
Com informações publicadas originalmente pela agência chilena Mundo Marítimo e dados do World Shipping Council, da Agência Internacional de Energia e da Allianz Commercial.
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