Caminhões destoam do mercado com queda prevista de 7,8%

Fenabrave projeta 102,2 mil unidades em 2026, ante expectativa inicial de crescimento; Move Caminhões ajudou a conter retração

Valeria Bursztein

O mercado brasileiro de caminhões deve encerrar 2026 com 102.245 unidades emplacadas, queda de 7,8% sobre as 110.873 registradas em 2025, segundo projeção da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).

O resultado contrasta não apenas com o crescimento esperado para o mercado automotivo como um todo, mas também com a expectativa da própria entidade no início do ano, quando previa alta de 3,5% e 114.752 caminhões vendidos.

A estimativa de queda, revisada pela Fenabrave em julho, foi mantida nesta terça-feira (18), durante coletiva de imprensa no 34º Congresso & ExpoFenabrave, em São Paulo. Segundo o presidente da entidade, Arcelio dos Santos Jr., os programas de financiamento com juros mais baixos contribuíram para evitar uma retração ainda mais acentuada no segmento.

Ao comentar a projeção de queda de 7,8%, Arcelio afirmou que o desempenho seria pior sem os recursos disponibilizados pelo Move Caminhões. “Se não fosse o Move Caminhões, seria muito maior”, disse, referindo-se à retração esperada para o mercado.

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Mercado de caminhões ensaia reação

Os dados parciais de agosto mostram sinais distintos. Até o décimo dia útil do mês, os emplacamentos de caminhões apresentavam queda de 6,4% em relação a julho, mas crescimento de 8,6% sobre igual período de agosto de 2025. No acumulado de 2026, entretanto, o segmento ainda registrava retração próxima de 6%.

Segundo a Fenabrave, a intensidade dessa queda vem diminuindo, movimento que a entidade relaciona, entre outros fatores, às linhas de financiamento destinadas aos veículos pesados.

O comportamento dos caminhões destoa do mercado automotivo de maneira geral. A projeção atual da Fenabrave aponta para 5,383 milhões de veículos emplacados em 2026, crescimento de 8,6% sobre 2025. No início do ano, a expectativa era de alta de 6,1%, para 5,260 milhões de unidades.

Entre automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, a previsão é de 2,902 milhões de unidades, avanço de 7,9%. Para os caminhões, ao contrário, a perspectiva passou de crescimento de 3,5% no começo do ano para retração de 7,8%.

Juros limitam recuperação

Na avaliação de Arcelio, o custo do crédito permanece como um dos principais entraves à recuperação do mercado de veículos pesados. A velocidade de utilização dos recursos disponibilizados pelas linhas de financiamento, segundo ele, mostrou a existência de demanda por crédito em condições mais favoráveis.

O presidente da Fenabrave afirmou que a primeira etapa do programa destinou R$ 10 bilhões aos caminhões e teve os recursos consumidos em aproximadamente 45 dias. Na segunda etapa, foram disponibilizados mais R$ 21,2 bilhões, com inclusão dos ônibus, e os recursos se esgotaram em cerca de 60 dias.

“Nosso mercado está muito sensível aos juros”, afirmou Arcelio. “Se nós tivéssemos esse Move Brasil para caminhões, se tivesse disponibilidade de verba, o mercado estaria se recuperando de uma forma tremenda.”

A compra de caminhões envolve ainda um intervalo maior entre a decisão do cliente e o registro do veículo. Arcelio destacou que é preciso considerar o tempo necessário para fechamento do negócio, aprovação do cadastro, entrega, emissão da nota fiscal e posterior emplacamento. Por isso, os efeitos das condições de crédito não aparecem imediatamente nas estatísticas.

Eletrificação com pequena participação

Os caminhões também seguem à margem do forte crescimento observado na eletrificação de outros segmentos. Segundo os números apresentados pela Fenabrave, 194 caminhões eletrificados foram emplacados no acumulado de 2026, ante 225 no mesmo período de 2025, queda próxima de 14%.

O volume ainda é reduzido diante do tamanho do mercado brasileiro de pesados e contrasta com a expansão dos eletrificados no conjunto do setor automotivo.

Cautela nas projeções

Apesar de alguns segmentos apresentarem desempenho superior às estimativas feitas anteriormente, a Fenabrave decidiu manter, por enquanto, suas projeções para 2026. Arcelio admitiu que a entidade poderá realizar algum ajuste para cima em outubro ou novembro, mas afirmou que uma revisão neste momento seria prematura. Segundo ele, a Fenabrave procura adotar uma postura conservadora diante das incertezas que ainda cercam a economia.

Para os caminhões, portanto, permanece a previsão de 102.245 unidades e queda de 7,8% em 2026, depois de a entidade ter iniciado o ano esperando crescimento de 3,5%. O comportamento dos próximos meses deverá indicar se a reação recente conseguirá reduzir ainda mais essa diferença ou se os juros elevados continuarão limitando as decisões de renovação e ampliação das frotas.

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