Avanço dos importados acende alerta no setor automotivo

Fenabrave e Anfavea cobram equilíbrio concorrencial, previsibilidade tributária e crédito; avanço dos veículos importados amplia preocupação da indústria

Valeria Bursztein

O avanço dos veículos importados no mercado brasileiro colocou o equilíbrio concorrencial no centro das discussões da abertura do 34º Congresso & ExpoFenabrave, nesta terça-feira (18), em São Paulo. Ao lado dos juros elevados e das incertezas da Reforma Tributária, o crescimento das importações levou representantes da indústria e da distribuição de veículos a cobrar regras mais equilibradas, previsibilidade para os investimentos e uma política permanente de renovação da frota.

O evento reúne representantes das concessionárias, montadoras, instituições financeiras e empresas ligadas à cadeia automotiva. A organização espera receber mais de 9 mil participantes ao longo dos três dias de programação.

O presidente da Fenabrave, Arcelio Jr., colocou a valorização das redes de distribuição e a isonomia entre os diferentes participantes do mercado entre os pontos centrais da agenda da entidade. Segundo ele, o setor reúne mais de 8,5 mil concessionárias, presentes em quase mil municípios, e gera mais de 380 mil empregos diretos.

“Não somos meros intermediários, somos o elo vital que conecta a indústria ao cidadão brasileiro. Nossos investimentos importam e não vamos sair do país amanhã se os negócios não forem bem. Ao contrário, vamos lutar como temos feito para crescer aqui, pois o Brasil é a nossa matriz. Não estamos em busca de lucros, mas de expansão de negócios. Por isso, embora estejamos de braços abertos para todas marcas e origens, defendemos a isonomia, cumprimento de nossas leis e, acima de tudo, o respeito aos nossos investimentos. Porque não importa a procedência da marca da marca que representamos. A maior bandeira de um concessionário sempre será verde e amarela”, disse.

Importações preocupam

A preocupação com as condições de competição ganhou contornos ainda mais concretos na manifestação do presidente da Anfavea, Igor Calvet. Embora tenha reconhecido o bom momento da produção e o avanço dos veículos eletrificados, o executivo chamou atenção para o crescimento dos automóveis importados.

Segundo Calvet, 344 mil veículos importados entraram no Brasil nos primeiros sete meses do ano, volume que, segundo ele, supera a produção anual de mais de uma fábrica instalada no País. “Parte relevante do crescimento gera emprego e lucro de fornecedores aqui dentro. Outra parte não gerou nada disso”, afirmou. O presidente da Anfavea ressaltou que a entidade não se opõe à concorrência nem à chegada de novas marcas, mas defende condições equivalentes para quem atua no mercado.

Na avaliação da entidade, empresas que decidiram instalar fábricas no Brasil assumiram riscos de longo prazo e, por isso, a política comercial e regulatória precisa oferecer estabilidade. “Estamos em uma cruzada a favor do equilíbrio de regras”, disse Calvet, ao incluir nesse debate a política tarifária, as regras de emissões e a regulação do setor.

A defesa encontra eco na Fenabrave. Arcelio Jr. ressaltou que os concessionários mantêm investimentos permanentes em instalações, equipamentos, mão de obra e treinamento e argumentou que a rede não pode ser tratada apenas como intermediária entre fabricantes e consumidores.

“Nós, concessionários, somos e devemos ser valorizados como os primeiros clientes das montadoras representadas”, afirmou.

Reforma Tributária aumenta incerteza

Outro ponto de convergência entre indústria e distribuição é a necessidade de maior previsibilidade tributária. Calvet afirmou que, apesar da proximidade da entrada em vigor do novo modelo, a cadeia automotiva ainda não conhece com precisão a incidência que recairá sobre cada veículo.

Segundo ele, a indefinição afeta tanto o planejamento de produtos e da produção nas fábricas quanto decisões de estoque, compras e contratações das concessionárias. “O equilíbrio nos interessa, a indefinição nos constrange”, afirmou

A preocupação também apareceu na manifestação do vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth. Ao comentar a Reforma Tributária, ele reconheceu que ainda existem dúvidas relevantes sobre seus efeitos para empresas e consumidores.

“Se alguém disser para vocês que sabe o que vai acontecer a partir da Reforma Tributária, desconfie. Hoje nós temos mais incertezas do que certezas”, afirmou.

Juros limitam capacidade de reação do mercado

O custo do crédito foi outro tema recorrente na cerimônia. Ao representar o governo federal, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços destacou que os juros continuam sendo um dos principais obstáculos ao investimento e ao consumo.

“Dinheiro caro não vai para o investimento, ele fica no banco”, afirmou, ao defender a redução das taxas ou a criação de instrumentos que permitam oferecer linhas de financiamento mais acessíveis para pessoas físicas e jurídicas.

Ramuth também classificou os juros como um dos grandes desafios enfrentados atualmente pelo comércio e pela atividade econômica.

A questão é particularmente sensível para o mercado automotivo porque grande parte das vendas depende de financiamento, ao mesmo tempo em que caminhões, ônibus, implementos rodoviários e máquinas agrícolas vêm enfrentando desempenho mais fraco que automóveis, comerciais leves e motocicletas. A própria Fenabrave destacou essa diferença entre os segmentos durante a abertura.

Renovação da frota volta à pauta

Fenabrave e Anfavea também defenderam uma política permanente de renovação da frota. Para Calvet, a substituição de veículos antigos não deve ser tratada apenas como instrumento de estímulo ao mercado, mas como política associada à segurança, à redução de emissões e à estratégia industrial brasileira.

“Descarbonização não depende apenas do que sai da fábrica, depende da velocidade com que o que já está na rua é substituído. Nenhuma meta ambiental brasileira se cumpre com uma frota que envelhece todo ano. E é por consequência, uma questão também econômica, porque frota que gira sustenta a produção, a rede, autopeças, serviços e também a arrecadação”, afirmou.

ACalvet continuou: “O Move Brasil já mencionado aqui por algumas vezes, cumpre papel fundamental, mas nós, setor unido, precisamos de mais e precisamos na ordem certa. Renovação de frota só entrega ao Brasil o retorno que promete se as regras de competição estiverem equilibradas antes. Renovação de frota e política industrial caminham juntas, separadas, uma neutraliza a outra”.

Lei Ferrari reforça debate sobre segurança jurídica

A segurança jurídica das relações entre montadoras e concessionárias também foi tema na abertura, após o Supremo Tribunal Federal ter reafirmado, em abril, a constitucionalidade da Lei 6.729/1979, conhecida como Lei Ferrari, que disciplina a relação entre fabricantes e distribuidores de veículos.

Arcelio Jr. afirmou que a decisão representa uma garantia para os investimentos das redes e destacou que o próximo passo será avançar na consolidação e atualização da convenção da categoria econômica.

Já a Anfavea sinalizou disposição para conduzir esse debate em conjunto com a Fenabrave. Calvet afirmou que fabricantes e distribuidores atuaram juntos no processo que resultou na decisão do STF e defendeu que eventuais aperfeiçoamentos sejam discutidos pelas duas entidades.

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