A previsão de um novo episódio do fenômeno El Niño em 2026 voltou a acender o sinal de alerta no Rio Grande do Sul, especialmente entre empresas de transporte e logística que ainda carregam os impactos da tragédia climática registrada no início de maio de 2024. Uma nota técnica divulgada pelo Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Estado aponta cerca de 80% de chance de formação do fenômeno entre julho e agosto deste ano, com possibilidade de intensificação no segundo semestre.
O cenário preocupa porque o El Niño historicamente aumenta a frequência de chuvas intensas e tempestades severas na região Sul do Brasil. Segundo o documento, o Rio Grande do Sul poderá registrar precipitações acima da média, além de episódios mais frequentes de granizo, alagamentos e eventos extremos.
O temor não é apenas meteorológico. Para o setor de transporte, a memória operacional e financeira da enchente histórica de 2024 segue viva. Naquele episódio, rodovias foram destruídas, portos tiveram redução de movimentação e milhares de veículos pesados sofreram perdas totais.
Dados divulgados na época mostraram que as enchentes provocaram perdas de aproximadamente 6 mil veículos pesados entre caminhões, ônibus e implementos rodoviários. O impacto também atingiu diretamente a infraestrutura logística do Estado. A movimentação portuária da região caiu 24% durante o período de calamidade pública, enquanto dezenas de trechos rodoviários federais precisaram ser interditados ou reconstruídos.
Entre os casos mais emblemáticos está o da Transportes Gabardo, transportadora gaúcha especializada no transporte de veículos. A empresa teve 257 caminhões submersos durante as enchentes. Em entrevista ao Videocast Transporte Moderno, o CEO da companhia, Sérgio Gabardo, relembrou o impacto emocional e operacional da tragédia. “Eu tive que fugir, para não ver que foram toneladas de bens jogadas no lixo. Muitos caminhões. Eu tive que lutar comigo mesmo para eu ter coragem de voltar lá e recomeçar de novo”, afirmou o executivo.
Segundo Gabardo, o trauma foi muito além das perdas financeiras. Parte dos colaboradores também perdeu casas e bens pessoais durante a enchente. “A enchente para mim não foi nada. Porque eu vou dizer uma coisa para você: a empresa não é minha. Eu administro ela. Os bens a gente reconquista. As vidas, não”, disse.
O empresário afirma que a tragédia transformou a visão da companhia sobre gestão de risco, resiliência operacional e apoio humano dentro das empresas. A reconstrução da frota contou com o apoio de parceiros da cadeia automotiva, especialmente da Volvo.
“A Volvo chegou para a gente e disse assim: ‘não, isso aqui é conosco’. Ainda tinha água no pátio e eles já estavam trabalhando. O que cobraram da gente foi insignificante perto do custo que tiveram. Isso é parceria”, afirmou Gabardo.
O caso da Gabardo passou a ser citado no setor como exemplo de reconstrução e adaptação climática. Em 2026, a companhia conquistou certificação internacional de carbono negativo, tornando-se a primeira transportadora do mundo a alcançar o selo.
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Planos de contingência
Agora, diante da nova previsão de El Niño, empresas do setor logístico começam novamente a revisar planos de contingência, rotas operacionais e protocolos de emergência. A preocupação cresce porque o transporte rodoviário é um dos segmentos mais vulneráveis a eventos climáticos extremos no país.
Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostra que a região Sul concentrou 41,5% dos desastres causados por chuvas nos últimos 13 anos. O governo gaúcho já iniciou uma mobilização preventiva. Neste mês, o governador Eduardo Leite reuniu-se com a Defesa Civil Estadual para atualização dos prognósticos climáticos e determinou a antecipação do fluxo de governança integrada com municípios considerados mais vulneráveis.
Segundo os modelos meteorológicos apresentados pelo governo, há 83% de probabilidade de que a temperatura do Oceano Pacífico fique entre 1,5°C e 2°C acima da média, patamar semelhante ao registrado durante o forte El Niño de 2015/2016.
“A ocorrência de um El Niño intenso se aproxima hoje de um consenso técnico. Não há dúvida de que enfrentaremos um período de maior instabilidade climática. Mas também não há dúvida de que o Estado está hoje muito mais preparado do que esteve no passado”, afirmou Leite.
A meteorologista da Defesa Civil, Cátia Valente, explicou que o aquecimento acelerado do Oceano Pacífico já indica a formação do fenômeno. Segundo ela, a temperatura passou de -0,4°C no fim de 2025 para 0,5°C em maio deste ano.
Além disso, o aquecimento anômalo do Oceano Atlântico aumenta a probabilidade de formação de frentes frias e ciclones extratropicais, o que pode potencializar os impactos climáticos no segundo semestre.
Apesar do alerta, especialistas ressaltam que a ocorrência do El Niño não significa necessariamente a repetição da tragédia de 2024. O impacto depende de fatores como infraestrutura urbana, ocupação de áreas de risco, capacidade de drenagem e velocidade de resposta das autoridades públicas.
Ainda assim, o Rio Grande do Sul tenta mostrar uma estrutura mais robusta para enfrentar novos eventos extremos. O efetivo técnico da Defesa Civil foi ampliado em quatro vezes desde as enchentes de 2024. Um novo radar meteorológico já opera em Porto Alegre e outros três devem entrar em funcionamento nos próximos meses, ampliando a cobertura de monitoramento no território gaúcho.
Além disso, os 497 municípios do Rio Grande do Sul passaram a contar com planos estruturados de contingência e resposta a eventos climáticos extremos, algo que não existia de forma consolidada antes das enchentes.
Para as transportadoras gaúchas, porém, a relação com a gestão climática mudou definitivamente. O tema deixou de ser tratado apenas como uma questão ambiental e passou a integrar diretamente a estratégia operacional, financeira e de continuidade dos negócios.
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