Ferrogrão pode economizar R$ 9 bilhões em fretes

Ferrovia entre Mato Grosso e Pará promete mudar o escoamento da safra brasileira

Valeria Bursztein

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que destravou o avanço da Ferrogrão recolocou no centro da agenda de infraestrutura um dos projetos mais estratégicos para a competitividade do agronegócio brasileiro.

Com 933 quilômetros previstos entre Sinop (MT) e o terminal de Miritituba (PA), a ferrovia tem potencial para reduzir em mais de R$ 9 bilhões os custos de transporte, ampliar a participação do Arco Norte nas exportações de grãos e atrair uma nova onda de investimentos em logística no norte de Mato Grosso.

O projeto seguirá, em grande parte, o corredor da BR-163, principal rota utilizada atualmente para o transporte da safra mato-grossense rumo aos portos do Norte. O corredor rodoviário movimenta mais de 17 milhões de toneladas de grãos por ano e enfrenta gargalos operacionais durante os períodos de pico da colheita.

Com a entrada em operação da ferrovia, a expectativa é reduzir a dependência do transporte rodoviário em longas distâncias e criar uma alternativa de maior capacidade para o escoamento de soja, milho e farelo.

Estudos da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) indicam que a Ferrogrão poderá transportar mais de 50 milhões de toneladas por ano em sua capacidade plena, consolidando um novo corredor de exportação pelo Arco Norte.

Mudança na matriz logística

A Ferrogrão também representa um passo importante para reduzir a histórica dependência do Brasil do transporte rodoviário. Atualmente, cerca de 65% da movimentação de cargas do país ocorre pelas rodovias, enquanto as ferrovias respondem por aproximadamente 21%, segundo dados da CNT e da Infra S.A. A nova ferrovia é vista pelo setor como um dos projetos capazes de ampliar a participação do modal ferroviário nos corredores de longa distância, especialmente no escoamento de commodities agrícolas.

A substituição de parte dos milhares de viagens de caminhões entre Mato Grosso e os terminais portuários do Norte deve reduzir a pressão sobre a BR-163, diminuir o consumo de combustíveis fósseis e contribuir para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

A ferrovia também pode reduzir a pressão sobre a BR-163, principal corredor de exportação do norte de Mato Grosso. Com capacidade estimada superior a 50 milhões de toneladas anuais, a Ferrogrão tem potencial para transferir parte do transporte de grãos das rodovias para os trilhos, ampliando a eficiência logística, reduzindo o consumo de combustível e diminuindo as emissões associadas ao transporte de longa distância.

Sinop: epicentro da nova logística do agro

A perspectiva de avanço da Ferrogrão reforça o papel de Sinop como um dos principais polos logísticos do agronegócio brasileiro. Localizada no eixo da BR-163, principal corredor de escoamento da safra do Centro-Oeste, a cidade tornou-se uma plataforma estratégica para produtores, tradings, transportadoras e operadores logísticos que atuam no norte de Mato Grosso.

A expectativa é que a ferrovia acelere a transformação de Sinop em um hub multimodal, ampliando a demanda por armazéns, centros de distribuição, terminais de transbordo e novas indústrias ligadas à cadeia do agronegócio. A conexão entre rodovia e ferrovia pode reduzir custos logísticos e fortalecer a competitividade de uma região que concentra parte relevante da produção nacional de soja e milho.

Segundo Antonio Pereira, diretor comercial e de operações do PZ Log, complexo privado voltado à instalação de empresas de logística e agronegócio em Sinop (MT), a decisão do STF aumenta a percepção de segurança jurídica e o interesse de investidores pela região.

“A aprovação do STF mostra como a região será ainda mais impactada pela valorização patrimonial. A Ferrogrão é a principal ferrovia projetada para o transporte de grãos de Sinop até os portos do Pará e vai transformar a logística do agronegócio brasileiro”, afirma.

Na visão do executivo, a redução dos custos logísticos pode gerar um efeito multiplicador sobre a economia regional. “São mais de R$ 9 bilhões que deixarão de ser consumidos pelos custos de transporte e poderão ser direcionados a novos investimentos, geração de riqueza e desenvolvimento local. Toda essa infraestrutura ferroviária tende a valorizar ainda mais os ativos logísticos e imobiliários de Sinop”, diz.

Próximos passos

Apesar do avanço no STF, a Ferrogrão ainda terá de cumprir etapas técnicas, ambientais e regulatórias até que o processo de concessão e a construção da ferrovia sejam efetivamente iniciados. O projeto prevê investimentos estimados em cerca de R$ 25,2 bilhões ao longo do período de concessão e deverá operar por 69 anos.

Para o setor de infraestrutura, o desafio agora será transformar o avanço jurídico em um empreendimento economicamente viável, capaz de atrair investidores e consolidar um novo eixo logístico entre o Centro-Oeste e os portos do Pará.

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