A Scania concluiu os investimentos industriais necessários para produzir caminhões elétricos no Brasil. A fábrica de São Bernardo do Campo (SP) já está preparada para iniciar a fabricação dos veículos, mas a montadora aguarda que o mercado alcance uma escala suficiente para justificar o início da produção local.
“Estamos prontos. A questão é atingir uma massa crítica que justifique finalizar esse investimento”, afirmou Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania Latin America, em entrevista à Agência Transporte Moderno, na manhã desta quarta-feira (1º), durante o Fórum Transporte Sustentável 2026, promovido pela OTM Editora.
Segundo o executivo, a unidade brasileira já produz chassis de ônibus elétricos e toda a estrutura industrial para a fabricação de caminhões elétricos está concluída. A linha de montagem poderá ser ativada assim que houver demanda consistente. Hoje, a Scania comercializa no país o modelo elétrico 30 G, importado da Suécia, voltado principalmente para operações urbanas e regionais. Segundo a Scania, apenas uma unidade foi vendida até o momento para a transportadora Reiter Log.
A declaração antecipa o cronograma que o próprio executivo havia antecipado à Transporte Moderno em 2025. Na ocasião, Podgorski revelou que a produção nacional dos caminhões elétricos deveria começar em novembro de 2027, com um ritmo inicial de uma unidade por dia. Segundo ele, a estratégia permitirá acompanhar a evolução da demanda e ampliar gradualmente o volume de produção conforme o mercado amadurecer.
O projeto integra o ciclo de investimentos de R$ 2 bilhões anunciado pela Scania para o período de 2024 a 2028, embora a montadora não detalhe quanto desse montante foi destinado especificamente à linha de caminhões e ônibus elétricos.
Para Podgorski, o caminho da eletrificação deverá seguir uma trajetória semelhante à percorrida pelos veículos movidos a gás natural e biometano, tecnologia que a Scania introduziu no país há sete anos e que agora começa a atrair novos fabricantes. “A maturação de uma nova solução exige a criação de um ecossistema. O do gás já está praticamente formado. O do elétrico ainda precisa ser construído”, disse.
Ele acredita que os primeiros mercados com potencial para adoção em maior escala estarão concentrados nos grandes corredores logísticos do Sul e Sudeste, especialmente nos eixos entre Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, onde as operações apresentam características mais favoráveis à tecnologia.
Na avaliação do executivo, parte dos transportadores que hoje investem em caminhões a gás poderá futuramente adquirir veículos elétricos, à medida que evoluírem a infraestrutura de recarga, os custos e a demanda. O cenário, segundo ele, reforça a estratégia da Scania de manter um portfólio multienergia para atender diferentes etapas da transição energética no transporte rodoviário de cargas.
Avanço da concorrência do gás
Enquanto o mercado de caminhões elétricos engatinha, Podgorski avalia que a chegada de novos fabricantes ao segmento de caminhões movidos a gás natural e biometano demonstra que a tecnologia alcançou viabilidade econômica e deixou de ser um projeto experimental para se consolidar como uma alternativa comercial ao diesel no transporte pesado.
“Apresentamos essa solução há cinco anos. Fizemos todos os testes de viabilidade e hoje ela é uma solução de prateleira, com todas as opções de especificação disponíveis também para os veículos a gás”, afirmou. Segundo ele, os caminhões a gás deixaram de atender apenas nichos, como a coleta de resíduos, e hoje já podem operar em praticamente todas as aplicações do transporte rodoviário de cargas.
“O fato de outros fabricantes entrarem mostra que o ecossistema tem viabilidade econômica e existe demanda”, disse. Após a Scania liderar o desenvolvimento da tecnologia no Brasil, outras montadoras passaram a anunciar investimentos em caminhões movidos a gás, incluindo projetos voltados ao gás natural liquefeito (GNL). Para o executivo, o avanço da concorrência, incluindo a chinesa, beneficia todo o setor ao ampliar investimentos em infraestrutura de abastecimento e acelerar a adoção do combustível.
Ele também destacou a expansão da oferta de biometano, considerado uma alternativa renovável ao gás natural. “O biometano já é uma realidade. Existem investimentos importantes sendo feitos nessa cadeia. É a mesma tecnologia, mas com uma solução já descarbonizada”, disse. Na avaliação da companhia, a experiência acumulada ao longo dos últimos anos representa uma vantagem competitiva diante da chegada de novos participantes.
“Nossa solução já foi testada, aprovada e está pronta para operação. Não é mais um projeto piloto ou uma prova de conceito. É uma realidade.”
Atualmente, a Scania possui mais de 2 mil caminhões movidos a gás em operação no Brasil e projeta encerrar 2026 com uma frota de aproximadamente 2.500 unidades.
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