A Volvo Trucks ampliou a aposta nos caminhões movidos a gás na Europa com o maior pedido já recebido pela fabricante para esse tipo de veículo. A alemã Reinert Logistics comprou 500 FH Aero a gás, com entregas previstas a partir de 2027. O negócio foi anunciado durante a IAA Transportation, em Hannover, e representa uma expansão significativa de uma tecnologia que a Volvo também avalia levar ao mercado brasileiro.
A Reinert já opera 50 caminhões Volvo a gás e decidiu ampliar a frota depois da experiência com os veículos. Os novos FH Aero poderão utilizar GNL ou bio-GNL. Para a operação da transportadora alemã, o combustível escolhido é o bio-GNL produzido a partir de esterco, resíduos orgânicos e outros resíduos biogênicos. A Volvo informa que seus caminhões a gás podem utilizar os dois combustíveis.
A venda europeia ocorre poucos meses depois de Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo Caminhões no Brasil, afirmar durante entrevista ao Videocast Transporte Moderno (assista aqui) que a fabricante prepara a chegada dos caminhões a GNL ao país. Segundo o executivo, a Volvo pretende utilizar no Brasil a mesma arquitetura tecnológica adotada na Europa e já trabalha com essa solução em mercados como Chile e Peru.
“Estamos implementando essa tecnologia em alguns mercados da América do Sul, como Chile e Peru. O Brasil também deve receber essa tecnologia em breve para começarmos a trabalhar melhor esse mercado”, afirmou Cavalcanti.
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A empresa ainda não estabeleceu publicamente uma data para o lançamento brasileiro. O que já está definido é o conceito tecnológico: um motor de ciclo Diesel alimentado por GNL, em vez do ciclo Otto utilizado por parte dos caminhões a gás disponíveis no mercado.
Segundo Cavalcanti, a escolha do ciclo diesel está relacionada às características exigidas pelo transporte pesado. “O ciclo Diesel dá muito mais eficiência energética. Você consegue ter mais torque e mais potência através do ciclo Diesel do que no ciclo Otto”, explicou.


Bio-GNL sustenta expansão europeia
A estratégia da Volvo na Europa está diretamente relacionada à disponibilidade de combustíveis renováveis. Na Alemanha, a Reinert pretende utilizar bio-GNL, produzido a partir de resíduos, em sua nova frota. O combustível é quimicamente equivalente ao gás natural liquefeito, mas tem origem renovável.
Segundo dados da associação alemã de gás e hidrogênio citados pela Volvo, o bio-GNL representou 98,5% do combustível comercializado nos postos de GNL da Alemanha em 2025. A fabricante também informa que, dependendo da matéria-prima e do processo de produção, o combustível pode reduzir de forma significativa as emissões de CO₂ no ciclo de vida.
Esse mercado combina dois fatores que ainda estão em diferentes estágios de desenvolvimento no Brasil: uma frota de caminhões a gás já consolidada e uma rede de abastecimento capaz de atender operações de longa distância. A Volvo informa que seus caminhões a gás podem alcançar até 1.000 quilômetros de autonomia, dependendo da configuração e das condições de operação.
A fabricante já entregou mais de 10 mil caminhões a gás globalmente. A tecnologia está disponível atualmente nas linhas FM, FH e FH Aero, destinadas principalmente a operações de transporte pesado e longa distância.
O desafio brasileiro
Para a Volvo, trazer essa tecnologia ao Brasil dependerá menos da disponibilidade do caminhão e mais das condições para colocá-lo em operação. O principal ponto é a infraestrutura de abastecimento, especialmente para rotas de longa distância.
Segundo Alcides Cavalcanti, sem uma rede de abastecimento adequada, o transportador corre o risco de ter um veículo parado por falta de combustível. A questão ganha importância porque o GNL exige uma estrutura diferente da utilizada para o diesel convencional.
O Brasil, por outro lado, possui potencial para ampliar a produção de biometano a partir de resíduos agropecuários, aterros sanitários e outras fontes. O desenvolvimento dessa oferta pode criar uma alternativa de combustível renovável para caminhões pesados, desde que acompanhado pela expansão da infraestrutura de distribuição e abastecimento.
É nesse ponto que a experiência europeia pode servir de referência para a estratégia brasileira da Volvo. Na Alemanha, a combinação entre caminhão a gás, rede de abastecimento e oferta de bio-GNL permite que a tecnologia seja utilizada em operações de longa distância. No Brasil, esses três elementos ainda precisam avançar de forma coordenada.
A Volvo também não trata o GNL como substituto isolado das demais tecnologias. A fabricante trabalha com diferentes rotas de redução de emissões, incluindo caminhões elétricos e motores de combustão abastecidos com combustíveis renováveis. No mercado brasileiro, Cavalcanti já apontou o B100 como uma alternativa de curto e médio prazo para o transporte pesado.
O pedido da Reinert, portanto, coloca a tecnologia a gás em uma escala que vai além de projetos-piloto. São 500 caminhões de uma só vez para uma operação de transporte de carga na Europa. Para o Brasil, a questão agora é quando a Volvo transformará a intenção anunciada por Cavalcanti em uma oferta comercial e quais condições serão necessárias para que o GNL — especialmente o bio-GNL — encontre espaço nas operações brasileiras de longa distância.
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