A Sinotruk prepara uma nova ofensiva no mercado brasileiro de caminhões pesados com modelos a gás natural e propulsão elétrica. Depois de interromper as vendas no país em 2014, a fabricante chinesa retorna com uma estrutura própria e uma estratégia que inclui a apresentação de novas tecnologias na Fenatran, de 9 a 13 de novembro, em São Paulo. A empresa levará à feira dois caminhões da linha Sitrak C7H: um cavalo mecânico 6×4 movido a gás natural liquefeito (GNL), com motor de 560 cv, e uma versão elétrica equipada com bateria de 600 kWh.
A retomada ocorre por meio de uma subsidiária integral do grupo chinês, aberta em novembro de 2025 e vinculada à Sinotruk International. Na primeira passagem pelo Brasil, entre 2010 e 2014, a marca era representada pela importadora Elecsonic, de Curitiba (PR). Agora, a fabricante pretende conduzir diretamente a operação brasileira, com controle sobre a distribuição e o desenvolvimento da rede de concessionárias e dos serviços de pós-venda.
“Estamos muito mais preparados, com muito mais musculatura, para vir por nossas próprias pernas para o Brasil”, afirmou Elmer John Hartman Jr., responsável pela operação brasileira, em entrevista exclusiva à Transporte Moderno. Segundo ele, a Sinotruk é hoje mais de dez vezes maior do que na época em que deixou o mercado nacional.
A decisão de interromper as vendas em 2014, de acordo com o executivo, resultou de uma combinação de fatores. Entre eles estavam as dificuldades para atender às exigências do mercado brasileiro, as mudanças no ambiente regulatório e as regras de conteúdo nacional do programa Inovar-Auto. A fabricante ainda não tinha experiência suficiente para cumprir todos os requisitos necessários à operação no país. Diante da complexidade do ambiente de negócios, o grupo decidiu suspender o projeto brasileiro e concentrar esforços em outros mercados.
A empresa, segundo Hartman, nunca desistiu definitivamente do Brasil. O retorno foi reavaliado enquanto a fabricante ampliava sua presença internacional e desenvolvia capacidade industrial e tecnológica. A mudança também acompanha uma transformação mais ampla da indústria chinesa, que deixou de atuar apenas como receptora de tecnologia estrangeira e passou a desenvolver produtos, marcas e soluções próprias.
Na avaliação de Hartman, as fabricantes chinesas alcançaram escala de produção e capacidade de inovação para competir em mercados mais exigentes, inclusive nos países desenvolvidos. O movimento já ocorreu nos segmentos de máquinas de construção, automóveis e ônibus e tende a ganhar força também entre os fabricantes de caminhões pesados.






Expansão na América Latina
Enquanto o projeto brasileiro estava suspenso, a Sinotruk avançou em outros mercados da América Latina. No Paraguai, onde chegou em 2017, mantém uma concessionária e realiza a montagem de veículos a partir de kits importados no sistema CKD. Segundo Hartman, a fabricante está entre as poucas montadoras com vendas significativas de caminhões novos naquele país, cujo mercado é dominado por veículos usados, principalmente provenientes da Europa.
No Peru, a companhia afirma ocupar a vice-liderança no segmento de caminhões pesados. No México, tem participação relevante, sobretudo em veículos destinados à construção, e mantém negócios com grandes clientes, como a fabricante de cimento Cemex. No Equador, a Sinotruk diz ser líder de mercado.
A expansão regional contribuiu para fortalecer a estrutura internacional da fabricante antes da retomada brasileira. O grupo também passou a atuar com maior autonomia tecnológica e capacidade de desenvolver produtos para diferentes mercados, em vez de depender exclusivamente de parcerias com empresas estrangeiras.
Gás natural e eletrificação na Fenatran
A Sinotruk decidiu concentrar sua participação na Fenatran em duas tecnologias: gás natural e eletrificação. Como entrou tardiamente na organização da feira, conseguiu espaço para expor apenas dois caminhões e optou por apresentar as versões a GNL e elétrica da linha Sitrak.
O modelo a gás será um Sitrak C7H 6×4, equipado com motor de 560 cv e ciclo Otto. De acordo com Hartman, a potência e o torque permitem sua utilização em operações com rodotrens. A fabricante pretende oferecer uma configuração competitiva para o mercado brasileiro, embora ainda não tenha divulgado preços ou condições comerciais.
Os motores utilizados nas aplicações a gás são fornecidos pela Weichai, empresa que pertence ao mesmo grupo da Sinotruk. A companhia tem presença consolidada no fornecimento de motores para máquinas de construção, equipamentos agrícolas e grupos geradores. Seus propulsores também equipam os caminhões da fabricante chinesa nas versões movidas a gás natural liquefeito e comprimido (GNC).
A Sinotruk considera que o mercado brasileiro oferece oportunidades para essas motorizações, diante da ampliação da oferta de gás natural e do desenvolvimento de projetos de produção de biometano. Hartman destaca que a abertura do mercado de gás e a participação da iniciativa privada têm estimulado novos investimentos no setor.
Um dos fatores considerados importantes para a expansão do GNL é a construção de plantas de liquefação e de estruturas de distribuição do combustível. O processo aumenta a densidade energética do gás e permite armazenar mais energia em menor volume, característica que favorece operações de longa distância. Segundo o executivo, essa configuração também reduz o peso do sistema de armazenamento no cavalo mecânico.
A fabricante vê o biometano como uma alternativa para ampliar o uso de caminhões a gás no transporte de cargas. Segundo Hartman, o combustível pode proporcionar redução de até 90% nas emissões de CO₂ equivalente, dependendo da comparação considerada. A empresa avalia que a combinação entre produção de biometano, liquefação e distribuição poderá favorecer a adoção de veículos pesados movidos a gás no país.
A versão a GNC, porém, deverá chegar depois. De acordo com Hartman, sua introdução depende de um processo regulatório específico do Inmetro para sistemas de combustível a gás, o que torna a homologação mais demorada. No caso do GNL, armazenado em estado líquido em tanques criogênicos, o executivo afirma que não se aplica a mesma exigência normativa. Por isso, a fabricante considera mais simples avançar com a homologação dessa configuração.
O segundo caminhão que estará na feira será o Sitrak C7H elétrico, equipado com bateria de 600 kWh instalada atrás da cabine. A disposição do conjunto permite a substituição da bateria por meio de um guindaste, sistema conhecido como battery swap. Em vez de aguardar a recarga, a operação pode trocar o conjunto de baterias, reduzindo o tempo de parada do veículo. A empresa não informou a autonomia do caminhão nem quando pretende iniciar sua comercialização no Brasil.
Oferta também inclui caminhões a diesel
Apesar do destaque para as novas fontes de energia na Fenatran, a estratégia da Sinotruk também inclui caminhões a diesel. Na linha Sitrak, a fabricante trabalha com o motor MC13, desenvolvido pela própria empresa a partir da arquitetura do MAN D26. O propulsor será oferecido em configurações 6×2 de 480 cv e 6×4 de 540 cv.
A companhia tem um portfólio que inclui veículos semileves, leves, semipesados, pesados e caminhões para mineração. Sua especialidade, porém, está nos pesados, que representam aproximadamente dois terços das vendas globais do grupo.
Internacionalmente, a Sinotruk trabalha principalmente com duas linhas de produtos: Howo, mais antiga, e Sitrak, posicionada como sua marca premium. Nesta última, a fabricante destaca o conforto para o motorista, o acabamento interno, a tecnologia embarcada, a eficiência energética e os recursos de segurança. Segundo Hartman, os caminhões têm arquitetura com características próximas às dos modelos europeus, predominantes no mercado brasileiro.
Atualmente, a Sitrak representa aproximadamente 30% das vendas globais da Sinotruk. A linha surgiu em 2009, a partir de um acordo de colaboração tecnológica firmado com a alemã MAN, baseado na plataforma TGA. Na ocasião, os caminhões passaram a ser produzidos na China com suporte tecnológico da fabricante europeia.
Em contrapartida pela parceria, a MAN recebeu 25% das ações da Sinotruk e se tornou um dos principais acionistas da companhia. Segundo Hartman, a empresa alemã vendeu uma pequena parcela de sua participação em 2025, mas continua entre os acionistas relevantes do grupo.
O acordo de colaboração tecnológica terminou em 2024, quando a Sinotruk assumiu integralmente a responsabilidade pelo desenvolvimento de motores, cabines e chassis da linha Sitrak. A fabricante chinesa passou, assim, a controlar a pesquisa e o desenvolvimento desses componentes, mantendo a arquitetura e a identidade de uma linha destinada a diferentes mercados.
Planos para o mercado brasileiro
A estratégia de retorno ao Brasil não se limita à importação de caminhões. A Sinotruk estuda uma futura operação industrial, que poderá envolver montagem local e integração progressiva de fornecedores e componentes brasileiros. A empresa também trabalha na formação de uma rede de concessionárias e serviços, com fornecimento de peças, capacitação técnica e contratos de manutenção.
Para viabilizar a expansão, a fabricante busca alternativas de financiamento com instituições nacionais e internacionais, incluindo possibilidades de capital de origem chinesa. O objetivo é facilitar tanto a aquisição dos caminhões pelos clientes quanto o financiamento dos estoques das concessionárias.
A companhia identifica oportunidades em operações rodoviárias de médias e longas distâncias, construção, infraestrutura, transporte pesado e aplicações vocacionais. Também considera segmentos como serviços urbanos, saneamento e operações logísticas especializadas.
A Sinotruk vê espaço para ampliar a renovação da frota brasileira. A empresa cita dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) segundo os quais, no primeiro bimestre de 2025, foram negociados aproximadamente três caminhões usados para cada veículo novo emplacado. Na avaliação da fabricante, essa relação indica demanda potencial por veículos novos e oportunidades para ampliar o acesso ao mercado.
A entrada em um mercado com frota envelhecida, porém, exige mais do que preços competitivos. A decisão de compra de uma transportadora envolve custo total de operação, consumo de combustível ou energia, disponibilidade do veículo, valor de revenda, acesso a financiamento e capacidade de atendimento durante toda a vida útil do caminhão.
O desafio é relevante em um cenário de juros elevados e restrições de crédito. Mesmo com iniciativas de financiamento, como o programa Move Brasil, a aquisição de veículos pesados continua dependendo da capacidade de investimento de transportadoras e caminhoneiros autônomos. Para a Sinotruk, consolidar o retorno exigirá demonstrar que, além de produtos competitivos, a empresa tem estrutura para manter os caminhões em operação.
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