O aumento dos gastos com defesa na Europa começa a criar uma nova demanda para a indústria de caminhões. Além de armas e sistemas militares, os países precisam ampliar a capacidade de transportar tropas, equipamentos e suprimentos.
Segundo levantamento da Agência Europeia de Defesa (EDA), os 27 países da União Europeia gastaram 418 bilhões de euros em defesa em 2025, alta de 20% sobre o ano anterior. Para 2026, a entidade projeta um novo aumento, para 454 bilhões de euros, o equivalente a 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do bloco.
O levantamento da EDA mostra ainda que a aquisição de equipamentos militares chegou a 115 bilhões de euros em 2025. Para 2026, os investimentos devem representar 36% do total gasto em defesa pelos países da União Europeia.
Esse movimento amplia a demanda por veículos destinados ao transporte de tropas, equipamentos e suprimentos. É nesse cenário que fabricantes tradicionais de caminhões começam a ampliar sua atuação no setor de defesa.
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Daimler Truck prevê receita de 1 bi de euros
A Daimler Truck estabeleceu a meta de alcançar 1 bilhão de euros em receita anual com o negócio de defesa em 2028. A companhia antecipou em dois anos o prazo que havia considerado anteriormente para atingir esse patamar.
A estratégia inclui investimentos de algumas centenas de milhões de euros em engenharia, produção, vendas e serviços. Em junho, a empresa também criou a marca Daimler Truck Defence, que reúne as atividades globais de defesa do grupo. Segundo a Daimler Truck, cerca de 1.000 funcionários já trabalham no negócio de defesa. A operação tem como principal base a fábrica de Wörth, na Alemanha.
Durante a IAA Transportation 2026, em Hannover, Alemanha, Achim Puchert, CEO da Mercedes-Benz Trucks (foto abaixo), afirmou a jornalistas brasileiros que o aumento da demanda está relacionado a mudanças na forma de conduzir operações militares.

Para o executivo, a logística ganhou importância nas atividades de defesa. “A capacidade de movimentar equipamentos e suprimentos tornou-se um fator estratégico para as operações militares.”
A Daimler Truck já utiliza modelos como Unimog, Zetros e Arocs em aplicações de defesa. A empresa pretende ampliar esse negócio utilizando sua estrutura global de engenharia, produção, vendas e serviços.
O mercado de defesa não se limita aos veículos de combate. Os exércitos também precisam de caminhões para transportar combustível, alimentos, peças, equipamentos e outros suprimentos. Esses veículos podem atuar ainda na recuperação e manutenção de equipamentos e no transporte de sistemas militares.
A União Europeia considera a mobilidade militar uma questão de transporte. Segundo a Comissão Europeia, o conceito envolve a capacidade de movimentar rapidamente tropas, equipamentos e suprimentos de um local para outro. Esse transporte pode ser realizado pelas próprias Forças Armadas ou por empresas civis contratadas pelos governos.
Essa definição amplia o mercado potencial para fabricantes de veículos comerciais. A demanda não está apenas nos veículos desenvolvidos especificamente para combate, mas também em soluções de transporte e apoio logístico.
No caso da Daimler Truck, a estratégia inclui veículos das famílias Unimog, Zetros e Arocs. A companhia apresentou diferentes configurações para aplicações militares no Eurosatory 2026, em Paris.
Europa prepara infraestrutura para mobilidade militar
O aumento dos gastos com defesa também está mudando a agenda de infraestrutura da União Europeia. A Comissão Europeia trabalha para facilitar o deslocamento de tropas, equipamentos e suprimentos entre os países. A proposta envolve regras comuns para os deslocamentos e melhorias em estradas, ferrovias, portos e aeroportos.
O objetivo é reduzir barreiras nas fronteiras e permitir que equipamentos militares possam ser transportados com mais rapidez pelo continente. A Comissão também trabalha com o conceito de infraestrutura de uso dual, que pode atender tanto ao transporte civil quanto às necessidades militares.
A Comissão Europeia identificou cerca de 500 projetos considerados críticos para a mobilidade militar nos principais corredores do continente. Entre eles estão obras para reforçar pontes, ampliar túneis e aumentar a capacidade de portos e aeroportos.
O objetivo é criar uma rede capaz de suportar grandes deslocamentos militares em situações de emergência.
Investimento militar chega à infraestrutura
A União Europeia já direcionou recursos para adaptar sua rede de transporte. Segundo a Comissão Europeia, o orçamento de 2021 a 2027 prevê 1,69 bilhão de euros para 95 projetos de infraestrutura de transporte de uso dual em 21 países. Para o período seguinte, a Comissão propôs elevar o valor para 17,65 bilhões de euros a partir de 2028.
O aumento dos investimentos militares deve continuar nos próximos anos. A EDA estima que, mantida a tendência atual, os gastos dos países da União Europeia possam chegar a 547 bilhões de euros em 2029. A entidade afirma que esse crescimento deve ampliar a capacidade industrial e a preparação militar do continente.
O movimento também aumenta a pressão para que os governos europeus fortaleçam a produção dentro do próprio continente. Para fabricantes de caminhões, o cenário cria uma demanda diferente daquela determinada pelo ciclo tradicional do transporte de cargas. Os contratos de defesa passam a representar uma frente adicional de negócios, especialmente em veículos de transporte e logística.
* A jornalista viajou a convite da Mercedes-Benz Brasil
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