A Europa precisará instalar cerca de 35 mil pontos públicos de recarga rápida para caminhões elétricos até 2030, mas está muito distante dessa meta. Atualmente, existem apenas 730 carregadores com potência superior a 350 kW exclusivos para veículos pesados em toda a União Europeia, segundo a Associação Alemã da Indústria Automotiva (VDA).
O alerta ocorre às vésperas da IAA Transportation 2026, uma das principais feiras mundiais de veículos comerciais, que será realizada de 15 a 20 de setembro em Hanover, na Alemanha. O evento terá mais de 150 lançamentos mundiais e novos produtos e reunirá fabricantes de caminhões e ônibus, fornecedores, empresas de tecnologia, fabricantes de implementos, startups e empresas de logística.
A edição deste ano terá mais de 70% dos expositores vindos de fora da Alemanha, mantendo o caráter internacional alcançado na edição anterior. Cerca de um terço dos participantes estará na feira pela primeira vez.
O contraste entre a quantidade de novidades apresentadas pela indústria e a infraestrutura disponível é um dos principais temas do evento. O lema desta edição, “We Deliver” (Nós Entregamos), faz referência à tentativa do setor de avançar simultaneamente em descarbonização, digitalização e eficiência do transporte. A feira terá cinco frentes principais: exposição de produtos, conferências, experiências e testes de veículos, área dedicada a startups e o chamado Drivers’ and Family Weekend, voltado a motoristas e suas famílias.
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Tecnologia avança mais rápido que a infraestrutura
A estimativa de 35 mil pontos utiliza o Megawatt Charging System (MCS), padrão desenvolvido para veículos pesados e que permite recargas de alta potência. A tecnologia é considerada importante para o transporte de longa distância porque pode reduzir o tempo necessário para reabastecer baterias de caminhões. A Alemanha, maior mercado europeu de veículos comerciais, precisará de cerca de 4.000 pontos MCS até 2030, segundo a VDA.
A associação também calcula que, considerando todos os carregadores compatíveis com caminhões, a Europa poderá precisar de até 50 mil pontos de recarga para veículos pesados no período. A infraestrutura de hidrogênio enfrenta problema semelhante. Atualmente, há cerca de 216 postos capazes de atender ao transporte rodoviário de cargas em toda a Europa. Para 2030, a estimativa é de aproximadamente 2.000 postos com capacidade para abastecer caminhões.
Para a VDA, a falta de infraestrutura pode limitar a adoção de veículos de emissão zero mesmo com a oferta de novos modelos. Segundo a entidade, caminhões elétricos com autonomia superior a 500 quilômetros já estão disponíveis no mercado. Modelos movidos a hidrogênio podem alcançar aproximadamente 700 a 800 quilômetros.
A presidente da VDA, Hildegard Müller, afirma que os fabricantes já fizeram sua parte ao desenvolver os veículos e as tecnologias. Agora, segundo ela, governos da Alemanha e da União Europeia precisam acelerar investimentos em infraestrutura, conexões à rede elétrica, postos de hidrogênio e redução do custo da energia.
A infraestrutura será apenas uma das pautas da IAA Transportation. A feira terá mais de 150 estreias mundiais e novos produtos, em uma demonstração do ritmo de transformação da indústria de veículos comerciais. Entre os principais temas estarão os sistemas de propulsão elétricos, híbridos, baterias, células de combustível, combustíveis sintéticos e biocombustíveis. A programação também inclui motores a combustão compatíveis com as novas regras de emissões, veículos conectados e autônomos e sistemas de logística baseados em software.
A organização destaca ainda o avanço da chamada “software-defined vehicle”, conceito no qual funções do veículo passam a depender cada vez mais de software, conectividade e atualizações digitais. Isso amplia o escopo da transformação do setor: a disputa entre fabricantes deixa de ser apenas por eficiência de motores e passa a envolver baterias, sistemas eletrônicos, conectividade, gerenciamento de frotas e automação.
Fornecedores ganham espaço
Os fornecedores terão participação relevante na feira. São mais de 766 expositores desse segmento, praticamente metade dos participantes. Fabricantes de carrocerias e implementos formam o segundo maior grupo, com 240 empresas.
A concentração de fornecedores ajuda a mostrar que a transformação tecnológica não está restrita às montadoras. Sistemas de propulsão, baterias, eletrônica, telemetria, componentes e soluções de automação passam a ter papel cada vez maior no desenvolvimento dos caminhões. A IAA também terá uma área específica para startups, colocadas lado a lado com grandes fabricantes e fornecedores.
Testes de caminhões
Outra atração da edição 2026 será o aumento das oportunidades de testar veículos. Serão 84 veículos de 17 expositores disponíveis para test drives dentro do complexo da feira e em vias públicas, número 40% superior ao de 2024. A programação inclui veículos comerciais e outras soluções de transporte, permitindo que visitantes experimentem tecnologias apresentadas pelas fabricantes. A organização afirma que todas as vagas disponibilizadas pelos expositores foram rapidamente reservadas.
A direção automatizada também terá papel importante na programação. A IAA Conference reunirá mais de 200 palestrantes em mais de 100 sessões, com discussões sobre eletrificação, veículos definidos por software, automação e competitividade da indústria de veículos comerciais.
A programação será distribuída por três palcos: Main Stage, Industry Stage e o novo prototype.club Stage. Entre os prêmios anunciados durante a feira estarão o International Truck of the Year, o Van of the Year, o Trailer of the Year e o Truck Innovation Award.
A organização espera ainda cerca de 580 jornalistas de diferentes países, além de 112 coletivas de imprensa de fabricantes e fornecedores no dia dedicado à imprensa. A feira será encerrada com o Drivers’ and Family Weekend, em 19 e 20 de setembro, iniciativa que pretende colocar em evidência os motoristas e profissionais que trabalham no transporte de cargas.
A IAA Transportation, portanto, chega à edição de 2026 mostrando dois lados da transformação do transporte pesado europeu: de um lado, uma indústria que apresenta caminhões elétricos, sistemas autônomos e novas soluções digitais; de outro, uma infraestrutura que ainda precisa crescer para que essas tecnologias possam ser adotadas em larga escala.
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