Biometano ganha escala com R$ 180,7 milhões do BNDES

Plantas em SP e ES ampliarão oferta de combustível renovável para a indústria e o transporte pesado

Valeria Bursztein

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 180,7 milhões em financiamentos para a implantação de duas plantas de biometano em Mauá, na Grande São Paulo, e Vila Velha, no Espírito Santo. As unidades somam investimentos de R$ 245 milhões e terão capacidade conjunta de 97 mil metros cúbicos normais (Nm³) por dia.

O crédito do banco corresponde a 73,8% do valor previsto para os empreendimentos. Os recursos serão concedidos por meio do Fundo Clima e da linha BNDES Finem. Taxas, prazos e a distribuição do financiamento entre as duas modalidades não foram informados.

A maior parcela, de R$ 101,9 milhões, será destinada à GNR Mauá, cuja planta terá capacidade para produzir 65 mil Nm³ por dia. Outros R$ 78,8 milhões financiarão a unidade da GNR Vila Velha, projetada para 32 mil Nm³ diários.

Se operassem durante todo o ano na capacidade máxima, as duas plantas poderiam produzir aproximadamente 35,4 milhões de Nm³ de biometano. A entrada em operação comercial está prevista para o primeiro semestre de 2027. As empresas responsáveis pelos projetos foram constituídas por meio de uma parceria entre o Grupo Lara, que atua na gestão de resíduos, e a MDC Energia, especializada em gás natural e biometano.

Biogás de aterros vira combustível

O biometano será produzido a partir do biogás gerado pela decomposição de resíduos sólidos urbanos em aterros administrados pelo Grupo Lara. O material passará por um processo de purificação para a retirada de dióxido de carbono e outras impurezas.

O resultado é um combustível renovável que, desde que atenda às especificações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), pode substituir o gás natural de origem fóssil em aplicações industriais, comerciais e veiculares.

A produção das duas unidades será comercializada por meio de contratos de longo prazo firmados com a Ultragaz. O BNDES não divulgou o prazo e o valor desses contratos, nem informou como o volume será dividido entre os diferentes mercados consumidores.

A implantação dos projetos deverá criar 575 empregos diretos e indiretos durante as obras, além de mais de 50 postos permanentes na fase operacional. O banco não apresentou uma estimativa para a redução de emissões proporcionada pelas novas unidades.

Avanço no transporte de cargas

A ampliação da oferta de biometano abre espaço para o uso do combustível no transporte rodoviário de cargas, principalmente em operações de alta quilometragem e com abastecimento concentrado. A adoção, contudo, ainda ocorre em escala reduzida no Brasil.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que algumas montadoras já oferecem veículos pesados aptos a utilizar gás natural ou biometano. As aplicações permanecem concentradas em projetos pontuais, sobretudo no setor agrícola e, em especial, na indústria sucroenergética.

Entre os movimentos recentes está o financiamento de R$ 140 milhões aprovado pelo BNDES para a TransJordano implantar um corredor de abastecimento e operar caminhões a biometano em São Paulo. O projeto indica uma tentativa de integrar produção, infraestrutura e demanda, três condições necessárias para ampliar o uso do combustível no transporte pesado.

O custo dos veículos, o preço do combustível e a disponibilidade de pontos de abastecimento ainda limitam a expansão. Estudo da EPE mostra que a competitividade dos caminhões a gás varia conforme a intensidade de uso, as condições de financiamento e os preços regionais dos energéticos.

Nova fase da produção nacional

A capacidade autorizada de produção de biometano no Brasil cresceu 43,7% em 2025, segundo a ANP. O movimento é impulsionado pelo aproveitamento de resíduos urbanos, agroindustriais e da atividade pecuária, além da procura por alternativas de menor emissão para a indústria e o transporte pesado.

O avanço da produção, no entanto, exigirá infraestrutura para levar o combustível até os consumidores. Além da injeção nas redes de gás, o biometano pode ser comprimido e transportado por caminhões para regiões não atendidas por gasodutos. A viabilidade dessa logística depende da escala do projeto, da distância percorrida e do custo de distribuição, segundo a EPE.

As plantas de Mauá e Vila Velha reforçarão a oferta potencial do combustível a partir de 2027. Ainda não há, porém, indicação de que o biometano contratado pela Ultragaz será destinado especificamente ao transporte de cargas.

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